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Participação de Hauley Valim e Luiz Hadad no 38° Encontro No Coreto compartilha as ações inspiradoras que unem o surf, culturas tradicionais e finanças regenerativas

Matéria publicada em 17 de julho de 2025.

Durante o “espaço fértil” do 38° Encontro No Coreto da Rede Saúva Jataí, Hauley Valim e Luiz Hadad compartilharam a trajetória de uma década do projeto Regenera Rio Doce, iniciativa que surgiu como resposta ao rompimento da barragem de Fundão em 2015. O encontro revelou como a comunidade de Regência, na Foz do Rio Doce, transformou dor em ação, unindo saberes ancestrais, ativismo jurídico e ambiental, e soluções inovadoras na economia solidária para regenerar tanto o ecossistema quanto o tecido social da região.

Os Encontros mensais No Coreto reúnem representantes da Rede Saúva Jataí de vários estados

A narrativa começou com uma reflexão profunda sobre o Rio Doce como entidade viva, chamado de Watu pelos povos Krenak. Hauley descreveu a gênese do rio nas montanhas minerais de Minas Gerais, onde as águas se carregam de minerais antes de percorrer centenas de quilômetros até o oceano. Essa visão de interdependência entre montanhas, rio e mar fundamentou todo o trabalho do Regenera Rio Doce, que desde o início buscou soluções que honrassem essa complexidade ecológica.

“Quando eu fecho os olhos e começo a imaginar a gênese de todo esse processo do qual a gente faz parte, eu me remeto a Minas Gerais, sabe? Eu vejo aquela montanha de minerais, majoritariamente ferro. Essa montanha que vive apontada para o céu, recebendo a energia solar, a energia dos astros. Toda chuva que cai por um lado vai para Brumadinho, vai para o rio (Paraopeba) e a chuva que cai do outro vem para o Rio Doce. Então, eu fico imaginando essa chuva atravessando essa montanha mineralizada. Conforme a chuva entranha a terra, essa relação físico-química com esse ser que capta a energia do sol e dos astros vai fazendo da água uma água mineralizada. Quando o Rio Doce nasce em Minas Gerais, essa água tão potente, tão mineralizada, vai criando um sistema socio-biodiverso que gera uma riqueza de vida extremamente intensa.”

Hauley Valim – Movimento Regenera Rio Doce e Ativista da Rede Saúva Jataí

O rompimento da barragem foi apresentado não apenas como tragédia, mas como evento de potência transformadora. Segundo Hauley Valim, a injeção abrupta de rejeitos no sistema do Rio Doce alterou profundamente o equilíbrio da região, afetando comunidades humanas, ecossistemas e até seres que a ciência nem conhecia. Frente a isso, o projeto adotou uma abordagem multidimensional, trabalhando simultaneamente na cura das pessoas, na regeneração ambiental e na reconstrução econômica.

Uma das primeiras iniciativas foi a Revolução dos Peixes, intervenção artística que usou esculturas de peixes para denunciar a contaminação quando o assunto ainda era tabu. Essa ação exemplifica o método do Regenera: usar criatividade e cultura para abordar problemas complexos. ” Já que os seres humanos não podem falar do problema, porque as comunidades queriam retomar o turismo, os peixes falarão. Essa estética, por exemplo, foi para a gente poder levar essa mensagem do problema de forma lúdica, para que a gente tivesse esse espaço pedagógico para poder falar do processo”, conta Hauley sobre a intervenção artística que virou símbolo de resistência.

O projeto evoluiu para incluir rádios comunitárias (Solta Sapo), ciclo-caravanas que percorreram escolas desde Mariana até a foz, e encontros interculturais que reuniram 11 etnias diferentes na comunidade indígena de Areal. “A gente reuniu as comunidades atingidas com essa proposição da Aroeira ser uma ferramenta de regeneração para os danos do rompimento da barragem, a partir da produção de óleos essenciais através de turismo regenerativo”, relata Hauley. E continua explicando que “fizemos a Festa da Aroeira com o patrocínio da Muda. Através da Festa da Aroeira a gente tirou os encaminhamentos para os projetos que nós desenvolvemos nos próximos anos. A gente conseguiu reunir muitas comunidades, muitas associações, quilombolas, indígenas”.

Luiz Hadad também contou de sua relação de longa data com Hauley e com a onda de Regência, e em especial com a tuboterapia e o forró: “aprendi a fazer duas coisas que eu amo em Regência, pegar tubo, que é o ato (talvez um dos mais profundos de conexão com a natureza na existência humana) de entrar por dentro dela e sair, (…) e também foi onde aprendi a dançar forró. O Espírito Santo tem bastante forró e Regência tem essa tradição de unir o surf e o forró”, brinca.

Na área de saúde, o Jardim Regenera tornou-se central. Com a água local contaminada por metais pesados, a equipe desenvolveu filtros de zeólita e passou a produzir óleos essenciais de plantas como aroeira-vermelha e erva-baleeira. Esses produtos não só atendem necessidades locais – já que Regência não tem farmácia – mas também geram renda através da CSAA (Comunidade que Sustenta a Arte e a Agroecologia) em parceria com a Muda. “A Muda, nossa moeda social, está sendo aceita até no Surfguru (https://surfguru.com.br/), site de previsão de ondas”, destacou Luiz Hadad, mostrando como a economia circular ganha força na região.

Foi depois do rompimento da barragem, quando Regência praticamente virou uma cidade fantasma, que começaram os movimentos de mutirão de limpeza de alguns surfistas e o engajamento da comunidade. Com esses movimentos, Luiz Hadad começou a pensar que com um trabalho de conscientização e estímulos, a moeda social Muda poderia ser aceita no território e seria mais uma ferramenta de cura e regeneração. “Na Muda, a gente teve o processo da pandemia e o processo de criação da CSAAs, que foi assim: ‘vamos fomentar essas comunidades que sustentam a arte e a agroecologia em alguns territórios que a gente tenha uma conexão’ e como eu tinha, porque durante a pandemia eu saí do Rio e vim para o Espírito Santo, eu pensei: ‘se tem um lugar no Espírito Santo que faz sentido ter uma CSAA, esse lugar é em Regência’”, conta Hadad.

Na saúde, os conhecimentos tradicionais mostraram eficácia onde a medicina convencional esbarra: “Através de princípios da medicina ayurvédica e homeopatia, conseguimos dinamizar metais pesados no corpo”, explicou Hauley, citando casos comprovados por exames. Essas práticas agora influenciam políticas públicas através do Conselho Municipal de Saúde.

A regeneração também foi inspirada nas medicinas tradicionais orientais por já tratarem contaminações por metais pesados há mais de mil anos. Hauley explicou que homeopatias feitas com os próprios minerais do rejeito e filtros de zeólita – mineral que absorve contaminantes – são armas para que o próprio corpo humano “aprenda” a interagir com os metais pesados e eliminá-los. A surpresa veio quando exames comprovaram: ele, único do grupo que usou tratamentos ancestrais, tinha a menor taxa de contaminação dentro todos examinados.

A dimensão jurídica do trabalho também foi destacada. Em 2023, Regência aprovou lei inédita no mundo reconhecendo o direito da onda de Regência existir, fruto da compreensão de que a qualidade das ondas depende da saúde integral do rio. “A onda voltou a 30-40% da frequência original, mas sua proteção agora é lei”, comemorou Hadad. Essa conquista, somada ao reconhecimento como Reserva Nacional de Surf, está ajudando a proteger o ecossistema marinho enquanto fortalece a economia local baseada no turismo sustentável.

A Rota da Aroeira simboliza outra frente de sucesso: ao romper o monopólio da indústria sobre essa planta medicinal, comunidades tradicionais passaram a processar e comercializar seus derivados. Hauley celebrou que, hoje, a aroeira gera renda o ano todo e não só na safra, destacando como o projeto apoiou comunidades tradicionais atingidas.

A apresentação no Encontro No Coreto mostrou como, após dez anos, os frutos desse trabalho vão desde reconhecimentos como Ponto de Memória na política estadual, Ponto de Cultura no Programa Cultura Viva do Governo Federal e o prêmio Biguá até a gradual volta das ondas – ainda que com 30% da frequência original. O Regenera Rio Doce mostra que a verdadeira regeneração exige tempo, escuta atenta aos ecossistemas, equidade com os seres vivos e ambiente, além de coragem para experimentar soluções tão complexas quanto os problemas ambientais que enfrentamos. Mas o mais importante, segundo Hauley, foi a construção de uma nova relação entre comunidade e território, onde surfistas se tornaram guardiões do mar, agricultores viraram produtores de remédios, e o rio deixou de ser visto como recurso para ser compreendido como parente.

A Rede Saúva Jataí serviu mais uma vez como plataforma para compartilhar essas aprendizagens, mostrando como crises profundas podem gerar inovações sociais quando há espaço para diálogo entre saberes tradicionais e contemporâneos.

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