Topo

Versos quilombolas rompem fronteiras

Matéria publicada dia 11/03/2026

Nascidas no Quilombo Mato Dentro, em Conselheiro Lafaiete, MG, Terezinha Santos e Mariazinha Martins são primas. A vida das duas foi atravessada por dificuldades, desde a falta de alimento até o acesso tardio à educação. Foi apenas na vida adulta que foram alfabetizadas, com a chegada do EJA (Educação de Jovens e Adultos) na comunidade. 

Quando foram encontrando palavras para o que viam e sentiam, um professor identificou beleza na tradução do entorno por elas e anunciou Você sabe o que é ser poeta? Você vai ser poeta”. Aos poucos, os cadernos foram se enchendo de escritos dos mais diversos temas, relatos da vida que iam de um pé de alface até o amor. Mariazinha conta que gosta de escrever sobre suas origens: “O que mais gosto de escrever é sobre minha família, meu passado, minha história. Quando fico triste, com raiva, penso: não vou chorar, vou cantar, vou escrever a vida”. Já Terezinha tem outro método: “Quando comecei a ler e escrever já comecei a fazer poesia. Se eu acho um tema interessante, escrevo um poema.”

A dupla faz da arte uma forma de transver o mundo”, como diria Manoel de Barros. O sofrimento vira matéria de poesia: memórias de raiva e tristeza se transformam em rimas e estrofes. No entanto, até pouco tempo os versos da dupla de poetas estavam reclusos somente para a comunidade. Com a criação do projeto Mato Dentro Mundo Afora, apoiado pela Rede Saúva Jataí, as portas do quilombo foram se abrindo para novas trocas, possibilitando a chegada de figuras mobilizadoras como o poeta e pesquisador Osmir Camilo Gomes.

“Em 2022, fui convidado por amigos para integrar uma equipe de trabalho da Rede Saúva Jataí que atuava na Comunidade Quilombola de Mato Dentro, com atividades comunitárias e ambientais. Atuei juntamente com a comunidade na criação de algumas atividades e eventos. Porém, poeta que sou, passei a observar o potencial artístico dos integrantes, principalmente das poetas mulheres”, relata Osmir.

Mato Dentro, Mundo Afora

Assim que passou a visitar o quilombo, na região rural da cidade onde reside, Osmir conta que logo identificou muita potência na escrita das duas, e passou a pedir que recitassem seus versos nas festas da comunidade. “Sou extremamente grato à rede. O quilombo era muito fechado, havia muito medo de iniciativas externas. Foi a partir desse trabalho que comecei a conviver mais de perto com a comunidade”, conta o poeta.

As primas passaram a se incentivar cada vez mais a se expressar por meio da escrita, foram tomando gosto pela poesia e o número de páginas no caderno foi crescendo. Quanto mais foram ouvidas, mais tinham o que dizer. As duas pareciam tímidas, retraídas, mas quando foram se sentindo valorizadas, foram se soltando” relata Osmir, “minha grande alegria é ter dado voz aos calados”.

Além de poeta e pesquisador, Osmir é também fundador da ONG LESMA, que há mais de 20 anos realiza saraus de poesia, oficinas de escrita e publica obras literárias. Após quatro anos de convivência no quilombo, encantado pela escrita de Terezinha e Mariazinha, ele estava pronto para publicar um livro de maneira independente, mas resolveu inscrever a ideia na Lei Paulo Gustavo em busca de financiamento. Para a sua surpresa, o projeto foi aprovado em 7º lugar entre mais de 5 mil enviados de Minas Gerais, possibilitando a organização, produção gráfica e ainda valorizando financeiramente a escrita das quilombolas. 

Transcriar – um processo coletivo

O processo coordenado por Osmir, desde os poemas manuscritos da dupla até a impressão, envolveu um trabalho de transcriação. “Eu não peguei os poemas e publiquei do jeito que estavam, porque elas ainda enfrentam dificuldades de alfabetização. Eu mergulhei nas ideias delas e fui adaptando, sempre voltando para perguntar: ‘é isso mesmo que você quis dizer?’”, explica. No livro, o poeta conta mais sobre como se deu essa tarefa de se apropriar sem perder a identidade nem interferir no sentido. 

“A poesia não se parece com nenhuma outra linguagem. Ela é fiel só a si mesma – não é um pensamento coordenado. Uma frase poética pode arrebentar com tudo, conta Osmir. 

Dos mil exemplares de Escrevivendo – Vozes Quilombolas impressos, cerca de 600 já foram distribuídos ou vendidos, muitas vezes em escolas, projetos culturais e rodas de conversa. O dinheiro das vendas vai diretamente para a conta das duas escritoras, ajudando a gerar renda e a fazer a diferença na realidade delas. Diversas cidades de Minas já receberam eventos de lançamento do livro, desde Conselheiro Lafaiete, berço dos três poetas, até Congonhas e Belo Horizonte, onde o grupo se reuniu no último sábado (7) no Centro Mineiro do Congado, no bairro Concórdia. 

A vida é difícil, mas pode mudar. A vontade de viver é que me faz escrever, ter esperança. Quando uma coisa ruim acontece, penso: vou transformar em uma coisa boa. Vou escrever. É minha rota de fuga, relata Terezinha.

Mariazinha, por sua vez, encontra na escrita e na música um refúgio semelhante: Quando fico triste, com raiva, penso: não vou chorar, vou cantar, vou escrever a vida.

A obra materializa anos de um trabalho cuidadoso no Quilombo Mato Dentro. Para Osmir, a experiência mostra como iniciativas culturais podem fortalecer o protagonismo local e abrir caminhos para vozes que antes quase não eram ouvidas. “Esse é um trabalho que vocês plantaram e que a gente está colhendo”, afirma, referindo-se à atuação da Rede Saúva Jataí, apoiadora do Mato Dentro Mundo Afora.

Para escrever poesia é preciso viver e sentir, pois se não escrevo com sentimento, corro risco de mentir.

– Terezinha Santos

Como adquirir o livro

O livro Escrevivendo – Vozes Quilombolas pode ser adquirido diretamente com a Editora Lesma.

Valor: R$ 40 (mais envio pelos Correios)
Contato / WhatsApp: ‪+55 31 99399‑2345‬ falar com Osmir Camilo Gomes 

Entrevista e redação: jornalista Luana de Abreu

Compartilhar: