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Travessia da Juatinga tem o apoio da Saúva

Matéria publicada dia 27 de Fevereiro de 2026.

Às 7h45 do dia 22 de fevereiro, a ultramaratonista aquática Mónica Calderón Guzmán entrou no mar na Ponta da Juatinga, em Paraty. Onze horas e vinte minutos depois, cruzou a Praia do Pontal sob um corredor improvisado de luzes de celular – “como vagalumes”, ela descreve. No percurso, foram cerca de 31,7 quilômetros de nado contínuo entre o mar aberto e as águas da baía.

Para além do feito esportivo inédito no município, a Travessia da Juatinga foi também um manifesto silencioso sobre disciplina, território, luta e transformação coletiva.

O mar como tempo sagrado

Colombiana radicada em Paraty, Mónica conta, em entrevista, que a natação é um dos pilares da sua vida. “Eu sinto que não funciono se não tenho isso. É minha fonte de energia. O tempo que tenho no mar é sagrado, é o único momento que estou sozinha. Não negocio isso por nada.”

Mãe, gestora de projetos e articuladora comunitária, ela acorda antes do amanhecer para treinar, ou encaixa os treinos depois de deixar as crianças na escola. Uma disciplina rígida que, segundo ela, é justamente o que a sustenta. “Se eu não tenho isso, eu fico à mercê.”

Depois da travessia do Leme ao Pontal, realizada em 2024, Mónica se viu sem um grande objetivo. Sonhava com o Canal da Mancha, mas o custo do projeto tornava a meta distante demais. “Treinar por treinar desanima. Eu precisava de um propósito.”

Nadar por algo maior

Em meio às tensões fundiárias, à grilagem de terras e ao agravamento da fome na região, Mónica decidiu que a travessia precisava ir além do desafio pessoal: “Queria que a energia que eu deposito nisso tivesse um impacto maior do que simplesmente inspirar as pessoas ao meu redor”. Assim, decidiu transformar o percurso em uma campanha de arrecadação de alimentos.

Os parceiros da Rede Alegrias e da Associação de Desenvolvimento Comunitário Beija-Flor, iniciativas em Paraty fomentadas pela Associação Saúva, se tornaram pontos de coleta de cestas básicas e alimentos não perecíveis. Apoiadores de outras localidades se mobilizaram doando por PIX, acumulando quase 8 mil reais que foram inteiramente destinados a famílias atingidas pelas chuvas recentes no município.

“A travessia parece uma coisa que eu faço sozinha. Mas não é. São muitas pessoas que me ajudam para que tudo possa acontecer, É impossível fazer sem uma rede inteira sustentando.” Desde a comunicação, a marinha local, até a nutrição, médico, fisioterapia, psicólogo, são diversos profissionais que acompanham a atleta durante todo o período de preparação e também ao longo da travessia.

Na véspera do desafio principal, ela organizou um evento aberto no mar para incentivar outros nadadores e nadadoras a se desafiarem. Foram 19 adultos e 9 crianças na água, além de remadores voluntários. “Foi muito especial ver pessoas que nunca imaginaram que conseguiriam nadar no mar aberto saindo realizadas. Me sinto muito salva pelo esporte, todos os dias. Ele me salva da depressão, do desânimo, da falta de cuidado. Me enche de orgulho poder expandir essa sensação.”

Do início ao fim: a cabeça é guia

O trecho escolhido carrega simbolismo. A Ponta da Juatinga é um patrimônio natural e cultural emblemático, zona costeira afastada e atravessada por disputas territoriais. O percurso passa por paisagens como o Saco do Mamanguá e a Ilha do Algodão antes de entrar na Baía de Paraty.

início foi turbulento. Ondulação forte, corrente lateral, sensação de não saber se avançava ou era levada para trás. “Eu ficava no meio daquele ‘liquidificador’ e, quando olhava para baixo, via cardumes lindos. Pensei: talvez o começo da vida seja assim. Muito intenso, assustador, mas extremamente bonito.”, relata Mônica.

Se o corpo doeu, a mente foi o campo de batalha principal. “A cabeça fala para você parar. Diz que está cansada, que não vai dar. Quando eu deixava esses pensamentos tomarem conta, meu ritmo caía. Quando eu lembrava do propósito, tudo mudava”, recorda a atleta. “É sempre uma superação das minhas próprias limitações. A travessia é só a cereja do bolo – o dia a dia é o grande desafio.”

Durante a preparação e a travessia, uma palavra insistia em aparecer: paciência. No nome de um barco, numa fantasia de carnaval, na fala do treinador. “No momento mais difícil, ele disse: agora é hora da paciência. A corrente está forte, vai demorar, mas a gente chega.”

O final foi ainda mais duro. Corrente contrária mais forte que o previsto, água barrenta após as chuvas, corpo exausto. Um trecho estimado em pouco mais de uma hora levou mais de duas. Ali, ela pensou no fim da vida: “Talvez seja assim também. Mais escuro, mais difícil, o corpo cansado. Mas também é muito bonito, porque você sabe que tem gente te esperando do outro lado.”

Na areia, amigos e familiares acompanhavam a chegada sob um pórtico montado pela Secretaria de Esportes. A Marinha do Brasil deu suporte à segurança da prova. A equipe técnica monitorou clima, nutrição e ritmo a cada 30 minutos. Tudo calculado para ter a maior segurança possível, deixando a surpresa apenas para as emoções.

Uma bandeira chamada regeneração

Como em todos os projetos em que a Mônica coloca sua energia, a Travessia da Juatinga não poderia ser diferente e ela fala do apoio da Saúva e da Jataí com muito carinho: “Para além do fomento financeiro dos projetos que desenvolvo, a rede têm sido um alicerce muito importante para meu desenvolvimento.”

Assim como na travessia, as transformações não acontecem de um dia pro outro, exige preparo, trabalho coletivo e perseverança. “Às vezes a gente se sente minúsculo diante da destruição. Parece que o que fazemos é insignificante, que somos poucos lutando pela mudança. Mas não é. O trabalho em rede faz com que se você perde a força, alguém te lembra do propósito.”

Para ela, a Saúva representa essa insistência na regeneração — dos indivíduos, dos territórios e das relações. “É um oásis para quem tem a oportunidade de navegar nessas águas.”

Entrevista e redação: jornalista Luana de Abreu.

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