Quando Julia Sant’Anna chegou ao Colo da Montanha para conduzir o processo cartográfico, ela trouxe três imagens para começar a conversa: um mapa técnico, com coordenadas e linhas precisas; uma fotografia aérea de satélite; e uma cartografia social produzida junto a uma aldeia indígena. A pergunta colocada para o grupo do Ciclo 3 era simples e aberta: o que é um mapa?
As crianças – onze ao todo, entre oito e dez anos – ficaram surpresas. “Isso pode ser um mapa?”, perguntavam, olhando para a cartografia social. A descoberta de que um mapa não precisa ter o formato de mapa foi o pontapé inicial de um projeto que duraria seis meses e atravessaria questões de identidade, pertencimento, colaboração e, no final, também de conexão com uma escola a 500 quilômetros de distância.

Arquiteta e urbanista de formação, Julia trabalha com cartografias participativas há mais de uma década — processos vinculados à leitura de território em favelas, aldeias, bairros periféricos. Sua inquietação de fundo é sempre a mesma: quem conta a história dos lugares? Quais formas de enxergar um território costumam ser deixadas de fora? “O processo da cartografia mostrou o que a gente já sabia: o Colo não é esse lugar de entender o pensamento a partir da ótica de um corpo parado. Ele se relaciona com o mundo”, conta em entrevista.
Foi a fundadora da comunidade, Mariana Rosa, quem sugeriu que esse olhar se voltasse para dentro. A ideia era simples: abrir espaço para entender como as próprias crianças percebem o lugar onde crescem.
De dentro para fora
O projeto começou pelo corpo. O Ciclo 3 estava num processo de letramento antirracista, investigando cor, identidade, autorretrato. Fazia sentido que a cartografia começasse por ali também, pela ideia de corpo-território: perceber cada corpo com suas singularidades antes de qualquer mapeamento externo.

As crianças misturaram tintas em busca das próprias cores de pele, se desenharam em espelhos, fizeram autorretratos. Refletiram sobre colorismo com a educadora Alessandra Guimarães. Depois, num grande tecido de algodão cru estendido no chão, fizeram o contorno dos próprios corpos em escala real e dentro desses contornos, escreveram e desenharam tudo o que amavam no Colo. Fogueira. Festas. Florestinha. As pessoas. O lanche lá embaixo. A passagem secreta.

Só depois vieram as caminhadas. Com foto aérea e mapa técnico nas mãos, o grupo saiu em duplas para reconhecer o território. A surpresa foi imediata: os mapas existentes “estavam faltando muita coisa”. As crianças sabiam exatamente onde era cada árvore boa de subir, onde ficava o gambá, qual trilha levava à casa da bruxa. O saber delas era outro – mais encarnado, mais íntimo.
“A intimidade inventa o lugar”, relata Julia. “Ela enxerga o que ninguém mais enxerga.”

Quando o grupo começou a desenhar o mapa coletivo, as espécies de plantas nativas, os ninhos de passarinho e as estruturas de bambu apareceram muito antes da própria casa. Não foi uma escolha deliberada, para eles, o entorno natural era mais relevante do que a construção.
Um mapa que cresce
O processo tinha uma lógica própria: as crianças faziam desenhos grandes para captar as nuances do que queriam destacar; Julia escaneava, redimensionava, recortava; os pictogramas eram inseridos no mapa conforme a escolha do grupo. Uma vez no mapa, os desenhos passavam a ser coletivos.
A cada semana, algo novo precisava entrar. “Ju, você não sabe! Não dá para terminar o mapa ainda, hoje a gente descobriu um mooooonte de cogumelos! Eles precisam ir para o mapa!!” A cartografia acompanhava o ritmo do sítio e o projeto do Sítio Escola, conduzido pelo educador Zuza Amaro em contraturno, alimentava o processo com um repertório já acumulado de reconhecimento do território.

O buraco que o Ciclo 2 tinha passado o ano cavando ao lado da casa (“até o centro da Terra”, segundo eles) foi uma das primeiras coisas a aparecer no mapa. Surgiu também a pergunta sobre a legenda: em que ordem colocar os elementos? Qualquer ordenação criaria hierarquia. O grupo decidiu, então, que a legenda ficaria ao redor do mapa, como moldura, e seria aleatória, sem categorias fixas. Assim, ela seria ao mesmo tempo chave de leitura e jogo de procura-e-acha.

A caixa que atravessou 500 quilômetros
Em determinado momento, alguém perguntou: para que serve um mapa? Para mostrar o que só a gente conhece do lugar. Para encontrar um tesouro. Para apresentar o lugar a quem ainda não esteve aqui.
A última resposta abriu uma derivação. O grupo decidiu enviar seu mapa e uma caixa de tesouros com pedaços de colmeia, cogumelos, sementes, musgos, pregos do Jequitibá, cartas com perguntas até o espaço Kandô, uma escola de Santana de Parnaíba, em SP, cujo Ciclo 2 estava justamente estudando pontes, travessias e conexões.

A resposta demorou. O Colo chegou a pensar que não viria. As crianças, acostumadas a não terem semelhanças com outras escolas tradicionais da região, se perguntavam se lá de longe poderiam ter algo em comum. Na última semana do ano letivo, uma caixa toda pintada chegou pelos Correios. Dentro: o mapa do Kandô, pontes construídas de diferentes formas, potinhos com terra, sementes, cheiros. E a confirmação de que aquela escola também tinha assembleia, também fazia projetos, também cuidava coletivamente do espaço. “A gente se sentiu pertinho mesmo com 500km de distância entre nós”, registra o documento pedagógico produzido por Julia ao fim do processo.

Nosso lugar no mundo

Durante os seis meses, um novo espaço físico surgiu no sítio – uma área de mato alto que foi aberta, revelando um terreno cheio de possibilidades. O grupo precisava nomeá-lo. Depois de muito pensar, alguém disse: Lugar dos Sonhos. Todos concordaram. O nome entrou no mapa.
“No final, o mapa que criamos não é apenas uma representação do espaço físico da comunidade de aprendizagem, mas um reflexo das experiências, das relações e dos afetos que são construídos no dia a dia comunitário”, relata Julia. “Ele se tornou uma cartografia de encontros, de decisões compartilhadas, de aprendizado coletivo.”

Como diria Manoel de Barros no Livro sobre Nada: “O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê. É preciso transver o mundo”. Juntos, observando, comentando, lembrando e imaginando, as crianças do Colo da Montanha transvêem seu lugar no mundo, constroem uma escola feita dos sonhos coletivos para um mundo de acolhimento, descobertas e criações.

O Colo da Montanha é uma associação sem fins lucrativos em Teresópolis, RJ, que compõe a Rede Saúva Jataí. Desde 2015 reúne famílias em torno de uma proposta de educação comunitária. Faz parte da Rede de Educação Viva e Consciente e da Rede de Comunidades de Aprendizagem. A Cartografia Colo da Montanha foi conduzida por Julia Sant’Anna em parceria com Zuza Amaro e o Sítio Escola, com as educadoras Mariana Rosa, Sônia Mehl e Alessandra Guimarães, e o grupo de crianças do Ciclo 3: Aurora Garcia de Ávila, Arthur Vinícius Moraes Blaut, Isabel Andrade Dardeau, Lara Kimura Benitez, Liora Lerer Lemos Pereira, Maria Luiza Yoshii Oliveira Gaglione de Lima, Malu Terra Paixão, Miguel Landi Vairo, Morena Nitto Viana, Nui Veiga Brasil e Sebastião Sereno Costa Niemeyer.
Texto: Luana de Abreu / Fotos: Colo da Montanha