Matéria publicada em 19 de novembro de 2025.
Na liderança do Quilombo Mato Dentro, em Conselheiro Lafaiete, há alguns anos, Simone dos Santos Lima e a comunidade quilombola seguem na luta pela terra e por seus direitos. O fomento da Saúva e o suporte da equipe formada por Samir Caetano Amim e Fernanda Alves tem sido fundamentais, segundo ela, para a estruturação e desenvolvimento da Associação. Num gesto carregado de significado, o Quilombo Mato Dentro está abrindo um novo capítulo em sua história na Fazenda Paraopeba, “a qual a ancestralidade, sofrida, veio de lá”. Ela não é uma simples fazenda, mas um dos símbolos do período da escravidão em Minas Gerais. Um dos Inconfidentes foi seu dono e construtor, e o Quilombo Mato Dentro teve sua formação a partir de fugas dali. Uma parceria firmada com esta fazenda vizinha está permitindo que as famílias quilombolas superem a falta de terras para produção e construam coletivamente um futuro de sustentabilidade. Liderados por Simone e seu irmão Darcy, os moradores planejam transformar uma pequena área em um polo de geração de renda, com horta comunitária, venda de artesanato e valorização cultural.

“A comunidade é reconhecida, mas a gente não tem terras para produzir. O Quilombo é autorreconhecido desde 2018, mas a gente ainda está em busca dos nossos direitos”, explica Simone, que assumiu a liderança após o falecimento de seu pai, Narciso, um mês antes do autorreconhecimento. A cessão do uso desse espaço da fazenda para o plantio representou um marco. “Tendo essa parceria, fica mais fácil do povo produzir”, celebra.
Sustento que brota da terra e das mãos
O primeiro projeto concreto na nova área é a horta comunitária, que já começou a dar seus primeiros frutos – literalmente. “A gente iniciou com mudas de tomate, couve, cebola e essas coisas. O tomate a gente já até colheu alguns”, conta Simone. A produção é sustentada pelo adubo orgânico fabricado no próprio quilombo, um dos primeiros produtos em busca da sustentabilidade e estímulo da economia local, que já tem demanda garantida e recebe elogios pela qualidade.

A geração de renda se diversifica com os cursos de capacitação oferecidos à comunidade. Um curso de produção de balaios de bambu, com o Mestre Seu Geci, envolveu crianças como o filho de Simone, que também é raizeira e produz mudas de ervas aromáticas. Neste ano, oito mulheres concluíram formação em costura para confeccionar turbantes e panos de prato. Um curso de culinária trouxe novas técnicas para valorizar a gastronomia tradicional, e para dezembro está previsto o início de aulas de violão para os jovens. “A gente toca apenas tambor. Então vamos incluindo essas pessoas que têm o talento e que deixam escondido ou passar batido”, afirma a líder.

Cultura viva e autonomia
A gestão comunitária ganhou força após um período de apoio e consultoria externa apoiada pela Saúva, que já vislumbravam essa mudança de metodologia do projeto para que eles próprios fizessem sua gestão. “No princípio, a gente achava que não dava conta”, reconhece Simone. “Mas a gente não se enfraqueceu. A gente se uniu mais”. Essa autonomia se reflete na programação cultural: rodas de conversa com grupos afros, uma quadrilha noturna que envolveu idosos da comunidade e as celebrações do Dia da Consciência Negra, que este ano incluem o lançamento de livros de três autoras quilombolas.

Para o próximo ano, os planos são de expansão e fortalecimento. A comunidade pretende inaugurar na fazenda uma sala quilombola fixa para expor e comercializar sua produção – de artesanato em bambu a esteiras de taboa, do composto orgânico às tradicionais tranças, que carregam um significado histórico peculiar de localização dos quilombos. “Antigamente meu pai usava a expressão de ‘esconderijo do negro’. O que hoje acham bonito era uma forma de fuga para o quilombo. Isso não vou deixar morrer”, compromete-se Simone.



Em parceria com a terra onde seus ancestrais sofreram e resistiram, agora podem cultivar seu sustento e suas tradições. Dessa maneira, o Quilombo Mato Dentro escreve uma nova página: a da luta por valorização, reconhecimento e dignidade, que se conquista com raízes no passado, trabalho no presente e esperança no futuro.
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Por Paulo Sérgio Pires.