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Plantar água: do jardim de chuva da Lapa aos oceanos de Cabo Frio

Matéria publicada em 19 de março de 2026

O dia 22 de março marca, desde 1993, o Dia Mundial da Água, data criada pela ONU para chamar atenção à crise hídrica global e celebrar a importância da água para a vida. Neste ano, a data chega cercada de urgência climática e de iniciativas que mostram que é possível agir localmente sem perder o olhar sistêmico. A Rede Saúva Jataí está presente em dois desses momentos: na Fundição Progresso, no coração da Lapa (RJ), com uma oficina sobre jardins de chuva, e em Cabo Frio, com o Futuro Azul Summit 2026.

Educação ambiental nas brechas do calendário

A ideia de usar datas comemorativas como porta de entrada para a educação socioambiental não é nova na Fundição Progresso, mas vem ganhando mais forma e intenção desde que um coletivo interno, a Fundição Verde, passou a organizar uma agenda ambiental para o ano. “A gente pega qualquer brecha para fazer uma educação ambiental, e a brecha de celebrar e falar das datas é uma delas”, explica Denise Amador, agroflorestera, educadora ambiental e integrante da equipe Saúva.

O dia 22 de março, Dia Mundial da Água, caiu como uma luva. Mas não é só: o dia 19, véspera do equinócio de outono, é também o dia de São José – data que, segundo a tradição agrícola, marca o plantio do milho que será colhido no São João e é considerada um termômetro para as chuvas do ano. “O povo urbano é completamente desligado desses ciclos”, observa Denise. “O equinócio, ninguém fala nisso, mas é um dia em que a Terra está equilibrada, o dia igual à noite, demarcando a mudança de estação.”

É essa teia de significados científicos, culturais, populares e ecológicos que a Fundição Verde quer trazer para dentro do Centro Cultural ao longo do ano, com eventos pequenos, médios ou grandes. Já estão previstas ainda para 2026 oficinas de agrofloresta e jardinagem, uma semana de cinema ambiental, além do Plante Rio que marca a entrada da primavera e o Dia da Árvore.

O jardim de chuva em plena Lapa

A oficina de Soluções Baseadas na Natureza (SbN) e Jardins de Chuva acontece no dia 21 de março, das 10h às 13h, na Fundição Progresso. O facilitador é Pierre-André Martin, paisagista que desenvolve estudos e projetos em contextos urbanos, periurbanos e rurais, com foco na integração entre ecologia, cidade e território. 

Mas o que é, afinal, um jardim de chuva? Denise explica de forma direta: trata-se de uma solução baseada na natureza, pensada especialmente para ambientes urbanos impermeabilizados pelo asfalto e pelo concreto, onde a água da chuva escorre sem infiltrar e gera enchentes. O jardim de chuva cria condições para que essa água seja absorvida pelo solo de forma mais eficiente do que em uma área de terra comum, por meio de um sistema de camadas no subsolo combinado com a presença de plantas.

“É uma tecnologia socioambiental urbana para permitir uma permeabilidade maior da água da chuva, diminuindo os efeitos das enchentes”, resume Denise. Quem já acompanhou um evento na Fundição durante uma chuva intensa provavelmente já viu o jardim funcionando sem perceber: enquanto as redondezas alagavam, o espaço ao redor permanecia transitável.

Na oficina, Pierre vai apresentar as bases teóricas com projeção, conduzir uma visita ao jardim e montar uma maquete pedagógica: um aquário de vidro com as camadas do subsolo expostas que ficará permanentemente na Fundição. A ação integra um esforço mais amplo da Fundição Verde de apropriar e envolver toda a equipe do Centro Cultural sobre o que é e como funciona esse equipamento.

As inscrições para a oficina são gratuitas e estão abertas no site da Fundição Progresso: https://www.fundicaoprogresso.com.br/Multicultural/CursosDetalhes/1304 

Plantar água: o microclima que vem da agrofloresta

Além de reter a água da chuva, o jardim de chuva da Fundição é também um exemplo daquilo que a agroecologia chama de “plantar água”: criar microclimas mais amenos, com mais fotossíntese, mais sombra, mais umidade, mais vida. “Já tem várias pesquisas que comprovam que a fotossíntese esfria o ambiente”, lembra Denise. “Você vai criando ilhas de refrescamento“.

O manejo do jardim é feito por Denise e por João Portela, do Mutirão Agroflorestal, e equipe dos Irmãos Green, que garantem uma condução mais agroecológica e agroflorestal, com podas periódicas que estimulam a fotossíntese e a produção de matéria orgânica no solo. A seleção original das espécies incluía diversas PANCs (plantas alimentícias não convencionais) e nativas, muitas que continuam presentes.

Para Denise, o jardim de chuva é a materialização de um propósito. “A gente pode falar de meio ambiente em shows e filmes, mas aqui a gente tem algo para mostrar, uma tecnologia sustentável real funcionando no coração da cidade.”

Do jardim ao oceano: o olhar sistêmico acerca da água

Nos dias 25 e 26 de março, a Rede Saúva Jataí estará presente em Cabo Frio na realização do Futuro Azul Summit 2026 – encontro estratégico dedicado à economia azul, à sustentabilidade marinha e à inovação no setor oceânico. Realizado pela Jataí e Saúva, com apoio institucional da Prefeitura de Cabo Frio e do Governo do Rio de Janeiro, o evento acontece na quarta e quinta-feira, das 8h30 às 19h, no Hotel Paradiso Corporate, em Cabo Frio (RJ), e é gratuito mediante inscrição no Sympla sympla.com.br/evento/futuro-azul-summit-2026/3339849.

Dia 25 começa com uma master class inaugural sobre economia azul e segue com painéis ao longo do dia: política pública e ecossistema da economia azul; turismo costeiro e marinho sustentável; biodiversidade marinha e conservação; mercado e cadeia de valor; e startups e tecnologias azuis (programa PISTA). Em paralelo ao período da manhã, acontece um mutirão de limpeza de praia com alunos de escola estadual e a apresentação da peça teatral infantil Rosa e a Floresta, do Grupo Pedras, projeto fomentado pela Saúva. O dia encerra com o espetáculo Solo da Cana, monólogo de Izabel de Barros Stewart sobre relações coloniais e modos de habitar a Terra, seguido de bate-papo e coquetel.

Dia 26 traz painéis sobre financiamento climático e bioeconomia azul; inovação azul e soluções baseadas na natureza; as oportunidades da economia azul no estado do Rio (programa Blue Rio); e saberes tradicionais, pesca artesanal e comunidades costeiras. Durante o almoço, acontece uma atividade cultural simultânea com feira de artesanato caiçara, oficinas de cultura marinha e contação de histórias. O encerramento fica por conta do Painel Rede Saúva Jataí — AGUAECOLOGIA, às 15h, com Denise Amador, Hauley Valim e Mônica Calderon, mediado por Cris Nogueira (Fundição Progresso).

Para Denise, os dois eventos – o jardim de chuva na Lapa e o summit em Cabo Frio – falam da mesma água. “Você não consegue falar só do oceano sem falar das florestas que protegem os rios, que vão dar no oceano. Se as florestas não estão protegidas, vão levar esgoto e sedimento para o mar.”, afirma. “Está tudo muito ligado.”

Leandro Almeida, CEO da Saúva Jataí, fortalece o convite: “Vamos ter a oportunidade de reunir especialistas, acadêmicos, pessoas da rede, do mercado financeiro para discutir como podemos fazer um uso mais consciente e mais equilibrado dos nossos recursos hídricos”.  Para ele, o evento é também uma oportunidade de mostrar a força que a Rede Saúva Jataí tem e o que de diferente tem sido feito. 

Esse olhar sistêmico que conecta solo, floresta, rio e oceano é justamente o que a Saúva quer trazer ao debate. E inclui também uma dimensão política e humana: garantir voz a quem convive diariamente com a água. “Adoraria saber como está em Cabo Frio nesse momento, por exemplo”, diz Denise. “O pescador que virou motorista Uber porque não tem mais peixe no mar – esse cara sabe coisas que nenhum técnico sabe. A gente precisa ouvir.”

Esperançar: por que juntar gente para falar de água importa

Num momento planetário de crise climática, política e econômica, fazer uma oficina de jardim de chuva ou reunir pesquisadores e pescadores para falar de oceano é justamente essa escala do cotidiano e do concreto que, para Denise, alimenta o esperançar – verbo de ação que transforma a esperança passiva em atitude concreta. Diferente de apenas aguardar, esperançar significa mover-se, buscar, construir e não desistir, indo atrás dos sonhos e objetivos. Como ensinado por Paulo Freire, é a ação de luta e coragem, e não apenas uma espera inerte.

“Tudo que a gente possa trazer de positivo, de pautas que mostram que outro mundo é possível, vai trazendo uma esperança”, diz ela. “Fazer um mutirão na praia com crianças, montar uma maquete pedagógica, fazer uma fala sobre plantar água são pequenas sementes. A coisa começa a acontecer.”

Entrevista e redação por Luana de Abreu

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