Matéria publicada em 28 de julho de 2025.
No Colo da Montanha, aprender não é destino somente de crianças – é travessia compartilhada por todos. O Ciclo 4 emerge como esse espaço singular onde adultos descalçam certezas para se manterem no caminho da aprendizagem. Mais que um projeto, é um movimento contínuo de “lapidação”: pais, educadores e apoiadores se exercitam na arte de observar sem interferir, acolher sem dirigir e existir sem pressionar ou não atrapalhar os processos individuais e coletivos de aprendizagem. Enquanto as crianças lideram seu processo educativo, os adultos trabalham uma revolução íntima – substituem a lógica do controle pela ética do cuidado, transformando a comunidade num organismo vivo onde todos, sem exceção, estão em permanente estado de descoberta. Neste laboratório de convivência, projetos como o Colo de Vó, o apoio à Cooperativa de Catadores, o Cria Encena Cia de Teatro para a Infância, as conexões com a Muda Outras Economias e o Cine Abacateiro não são meras atividades, mas expressões concretas de um princípio radical: para educar crianças autônomas, é preciso adultos dispostos a questionar seus próprios automatismos. A moeda social, as assembleias comunitárias, o contato com mulheres 60+, a experimentação cênica e as parcerias com catadores revelam o segredo dessa pedagogia viva – ninguém sabe mais que ninguém, todos aprendem e crescem juntos.

Colo de Vó tece redes de cuidado entre gerações
Essa abordagem se materializa em projetos como o Colo de Vó, comunidade de aprendizagem para mulheres acima de 60 anos que acontece no CRAS em parceria com a Secretaria de Desenvolvimento Social. Sayuri Kimura, gestora do Colo da Montanha, explica que “uma coisa que a gente tem feito é trazer todos os projetos dos adultos para o Ponto de Cultura (o Colo é um Ponto de Cultura certificado pelo MinC desde 2024). Então, a gente vem fortalecendo o Ponto de Cultura através dos projetos dos adultos”.


O projeto nasceu das mãos habilidosas de Sayuri, que transformou sua paixão por manualidades em ferramenta de transformação social. Nas reuniões semanais no CRAS, mulheres encontram muito mais que aulas de crochê – descobrem um espaço de pertencimento. A magia acontece na horizontalidade: não há professoras, mas sim troca de saberes onde cada uma ensina o que sabe. Em 2024, o grupo confeccionou mantas para um asilo; em 2025, voltou suas agulhas para roupinhas de bebê que acompanham enxovais doados a gestantes em vulnerabilidade. O diferencial é que parte da produção é remunerada com a Muda, moeda social que pode ser trocada por alimentos na feira orgânica vizinha – criando um ciclo econômico solidário que valoriza o trabalho dessas idosas.
Cine Abacateiro: O cinema que germinou de um projetor escolar
Quando o Colo adquiriu um projetor para atividades pedagógicas, a comunidade viu nele uma oportunidade de ampliar horizontes. Sob a sombra de um abacateiro centenário – que empresta seu nome ao projeto -, famílias se reúnem em cadeiras de praia para sessões que misturam clássicos do cinema com produções locais. O que começou como iniciativa de três pais (Júlia Santana, seu companheiro Tom e Fernando Aranha) transformou-se em espaço de formação de plateia. “A equipe do Colo, com ajuda de pais, ficou super animada de fazer um cineclube”, conta Sayuri. As primeiras sessões exibiram trabalhos de Fernando Aranha, especialista em efeitos sonoros para filmes, e a Ifátókí Maíra Freitas, demonstrando o potencial artístico da comunidade. Um projeto futuro é levar o documentário de Pablo Lobato, “Oroboro”, para ser exibido no Cine Abacateiro.


Cria Encena: Quando as crianças comandam o espetáculo
Este projeto nasceu de uma demanda inusitada em assembleia infantil: “Queremos fazer teatro de verdade!” A resposta veio através da atriz Bruna Brasil, que propôs uma experiência radical – em vez de aulas convencionais, uma imersão no universo completo da produção teatral. As crianças escolhem seus lugares nesse ecossistema: algumas atuam nos bastidores criando figurinos, outras se descobrem na iluminação ou na sonoplastia.


Com residência no Teatro Adolfo Bloch através de parceria com a Secretaria de Cultura, o projeto mobilizou artistas locais sob a coordenação de Bruna Brasil, que é muito engajada e influente na área cultural de Teresópolis. “Ela conseguiu mobilizar um monte de gente, como tutores, e a gente propôs a remuneração em Muda para profissionais que apoiam”, conta Sayuri. Ela explica que não são aulas de teatro propriamente ditas, mas uma comunidade de aprendizagem que tem o teatro como linguagem. É a filosofia do Colo da Montanha se replicando em outros territórios.
Cooperativa Fênix ressurge das cinzas do lixão à economia circular solidária
Outro projeto significativo é o apoio à Cooperativa Fênix, formada por catadores do bairro Ficher. “Temos na comunidade a Flora Campelo, que trabalha com sustentabilidade em quilombos, que topou ser a ponte com a cooperativa que já apoia o Colo nos reciclados”, explica Sayuri. Essa parceria, que conta com o apoio da Secretaria de Meio Ambiente, mostra mais uma vez como a educação no Colo busca transcender os limites da escola.

A história de luta da cooperativa começa com o incêndio que destruiu o lixão em 2022. Quando a consultora Flora Campelo conheceu os catadores, percebeu que, além de apoio técnico, eles precisavam de reconhecimento. Criou-se então uma proposta de parceria inovadora: as crianças do Colo produzirão vídeos educativos sobre reciclagem, enquanto os adultos da escola aprendem com os catadores sobre gestão comunitária de resíduos. Hoje, o espaço de recicláveis do Colo serve como ponto de coleta comunitário e as duas organizações começaram a estudar juntas sociocracia e outros modelos de autogestão. A próxima etapa é fazer com que as Mudas cheguem à Cooperativa, ampliando a circulação da moeda em Teresópolis e fortalecendo o movimento da economia circular solidária.
Muda, a moeda que irriga a comunidade
Mais que instrumento econômico, a Muda é ferramenta pedagógica. Seu funcionamento desafia convenções: psicólogas recebem em mudas por supervisões; as avós do CRAS são remuneradas por suas peças de crochê; artistas trocam horas de tutoria por créditos. Um dos maiores objetivos da coordenação, segundo Sayuri, é fazer a moeda social Muda circular entre os adultos. “A proposta é que todas as pessoas que apoiam e encabeçam esses projetos, recebam em Muda por esse trabalho, para que ele não seja invisibilizado, ainda que seja comunitário”, afirma Sayuri. O sistema é acompanhado por reuniões formativas onde a comunidade discute: O que realmente tem valor? Como medir trocas justas? As respostas vêm aos poucos, na prática, enquanto a Muda rompe os muros da escola e conquista a cidade.
O Ciclo 4 como tecido vivo
Esses projetos não existem isolados – são fios de uma mesma teia. As avós do CRAS já assistiram peças da Cria Encena; as crianças do cineclube querem visitar a cooperativa Fenix; todos usam a Muda em diferentes contextos. Essa interdependência revela o cerne da proposta de praticar uma educação que não cabe dentro de disciplinas estanques ou faixas etárias rígidas. No Colo da Montanha, aprender é ato comunitário – e cada iniciativa reforça o princípio de que conhecimento só é verdadeiro quando compartilhado, quando transforma realidades, quando nos transforma no processo. Com projetos que vão do cinema à economia solidária, da sustentabilidade às artes cênicas, o espaço prova que a educação transformadora não tem idade – e que quando o conhecimento nasce dos interesses genuínos dos participantes, os resultados ultrapassam os limites da escola.

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