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O alquimista está chegando

Matéria publicada em 7 de fevereiro de 2025.

Desde 2008, a rotina de Hauley Valim era dentro de sala de aula – na Universidade e no Ensino Médio, chegou a acumular cerca de 1800 alunos por semestre ensinando sociologia. Ele já se sentia inquieto com esse modelo de produção há um tempo, sonhava em construir uma pousada na região de Regência, Espírito Santo, e passar a ocupar seus dias com o surfe. Até que, no dia 5 de Novembro de 2015, um grande acontecimento se tornou a gota d’água para mudar a sua vida: o rompimento da Barragem do Fundão, em Mariana.

Uma década antes, o professor trabalhou na Argentina com populações atingidas por barragens, mas, até então, o nome “Samarco” nunca havia surgido, ele não imaginava que seu território poderia ser impactado por uma das maiores tragédias ambientais da história do país. Enquanto surfista local de Regência, na foz do Rio Doce, ele se tornou um atingido. Assim, o rompimento adiantou um processo que já ensaiava, mas não por opção, e sim, por dano.

A partir desse marco, Hauley deixou a sala de aula e passou a se dedicar exclusivamente ao ativismo, sendo financiado pela própria poupança que juntou enquanto professor. Ele conta que o principal foco das ações da empresa responsável pelo desastre são voltadas para a indenização financeira das vítimas, portanto, o diferencial do seu trabalho é dar atenção aos processos regenerativos. Milhares de famílias da região dependiam da pesca, e hoje, mais de 3000 dias depois do rompimento, ainda sofrem com a proibição da atividade, além do abastecimento de água que também foi comprometido. 

Acreditando no surfe enquanto protagonista na preservação de ecossistemas marinhos, o professor se tornou Conselheiro Regenerativo da Associação de Surfe de Regência e conseguiu aprovar a Lei Municipal de Direito da Onda, além de coordenar a candidatura da região no Programa Nacional de Reservas do Surfe, aprovada em 2024. A partir de uma relação afetiva, atua como antropólogo na comunidade indígena dos Botocudo, em Areal, lutando pela demarcação do território e pelo reconhecimento da comunidade como atingida pelos processos de reparação dos danos do rompimento da barragem. “Meu trabalho mesmo é de articulação de processos regenerativos, então eu fico mobilizando interesses, vontades e recursos para que a regeneração aconteça.”, conta Hauley, em entrevista. 

Juntamente com o Coletivo Aliança do Rio Doce, um grupo que se uniu em 2016 para pensar coletivamente, com comunidades, movimentos sociais e acadêmicos, soluções para os danos que a presença dos rejeitos de mineração provocaram na natureza e sociedade, consolidou o Movimento Regenera Rio Doce, processo que deu fruto ao Jardim Regenera, um empreendimento que sintetiza os aprendizados de 10 anos de luta nesse ambiente de impacto: “É um espaço afetivo interessado em desenvolvimento natural e humano que facilita, através de arte educação, de agrofloresta aromática medicinal, de destilação de óleos essenciais, da cerâmica, do diálogo com a universidade e com as comunidades indígenas e quilombolas. A partir de todos esses elementos, construímos uma narrativa sobre como viver em uma área que sofreu grande impacto diante de um crime socioambiental. Então, o Jardim Regenera Rio Doce é um ponto de memória.”, relata o fundador.

Hoje, além de ativista, surfista e antropólogo, Hauley se reconhece como alquimista: “Eu aumento a temperatura quando precisa, para fazer óleo essencial, para fazer a queima de cerâmica. Em processos coletivos, dentro da associação, aumento a temperatura para as pessoas se agitarem, para caminharmos. Quando é necessário, abaixo, para as pessoas se acalmarem, para que possamos entender a melhor forma de atuar socialmente nesse ambiente”, relata. No Jardim, ele realiza a pesquisa e desenvolvimento de medicamentos naturais, é um espaço de estudos através da Água, Terra, Ar e Fogo, além de utilizar os rejeitos de mineração para produzir as tintas que pintam peças de cerâmica. “A gente não rejeita o rejeito”, brinca o alquimista, “é uma combinação de seres minerais que falam muito sobre esses desafios de áreas atingidas por grandes mineradoras.”. 

Após 10 anos de luta autofinanciada, este ano, Hauley recebe o apoio enquanto ativista da Rede Saúva Jataí. “Eu tenho minha relevância social reconhecida pelas comunidades, pelas universidades, por todos, mas não conseguia um salário para manter minha atividade. Precisava de alguém que reconhecesse minha prática como uma prática digna de reconhecimento financeiro, porque nunca tive estabilidade nesses 10 anos.”, expõe, complementando que sempre se recusou a trabalhar para empresas envolvidas no rompimento da barragem: “Jamais iria entregar o meu saber para uma instituição que tinha como principal interesse atender as criminosas”. 

Em 2025, Hauley pretende se envolver com outras CSAA’s que compõem a Rede Saúva Jataí para trocar saberes, consolidar o projeto pedagógico de arte educação do Jardim Regenera para integrar outras iniciativas, receber mestres do saber, realizar residências e facilitação de dinâmicas. Além disso, quer ampliar a oferta dos serviços do Jardim dentro da plataforma Muda Outras Economias, com objetivo de tornar 100% das experiências apenas com o pagamento em moedas alternativas. 

“A bolsa da Saúva é um reconhecimento de um trabalho de 10 anos de dedicação exclusiva. Eu sonhava com um subsídio para continuar. Então parabéns para a Saúva, sou muito grato a essa instituição que reconhece esse tipo de trabalho.”, finaliza o ativista. Para conhecer mais sobre o trabalho do Hauley Valim e das práticas e vivências do Jardim Regenera Rio Doce, acesse https://regenerariodoce.org.br/jardim-regenera/

Por Luana Abreu.

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