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MUTIRÃO NO INOV: construindo comunidade com a mão na massa

Matéria publicada dia 14/03/2026

Uma escola conectada à natureza e orientada pela pedagogia antroposófica depende do cuidado constante com o espaço que a abriga. No Instituto Ouro Verde, esse cuidado é também uma prática pedagógica e comunitária. Desde a fundação da escola, mutirões reúnem famílias, estudantes e professores para transformar coletivamente o ambiente onde as crianças aprendem.

No sábado, 28 de fevereiro, o primeiro mutirão de 2026 mobilizou cerca de 90 pessoas. Ao longo da manhã, diferentes frentes de trabalho envolveram poda de árvores, pintura, limpeza de áreas comuns, melhorias na horta, manutenção de caminhos na mata e o calçamento da chamada “sala das águas”, espaço dedicado às aulas de agroecologia.

A iniciativa faz parte da cultura de autogestão da escola, na qual as famílias, professores e funcionários participam ativamente da manutenção e organização do espaço, além das decisões de governança da escola. A ação também integra o conjunto de iniciativas apoiadas pela Rede Saúva Jataí, fomentadora do Instituto.

A programação começou às 8h, com a chegada das famílias. Em seguida, todos se reuniram na quadra para um breve acolhimento com cantiga conduzida por uma professora. Depois da roda inicial, cada turma seguiu para sua frente de trabalho.

Enquanto os alunos mais novos permaneceram com seus professores, os pais se dividiram por áreas previamente planejadas: poda de árvores, construção de degraus com troncos na mata, reforma da área de compostagem, pintura de corrimãos, manutenção da quadra e o calçamento da sala das águas. Todas as tarefas haviam sido organizadas com antecedência, com lista de ferramentas e responsáveis por turma.

Organização coletiva

A estrutura do mutirão reflete o modelo de autogestão da escola, no qual diferentes comissões de pais e professores participam das decisões do cotidiano. Segundo o professor e pai Moritz Hondrich, o processo começou com o levantamento das demandas da escola: “Existe uma comissão de manutenção e infraestrutura que recolhe as necessidades dos professores e funcionários. A partir disso, o grupo organizador distribui as tarefas por turma, lista os materiais e comunica tudo nos grupos de pais”, explica.

Cada turma contou ainda com um pai ou mãe de referência, responsável por articular a participação das famílias e garantir que as ferramentas necessárias chegassem no dia. Para Marcelo Thibau, pai de três alunos e um dos organizadores do mutirão, a presença das famílias transforma a relação com o espaço escolar: “Quando os filhos percebem os pais envolvidos, cria uma conexão diferente com o lugar. É uma liga que vai perdurando ao longo do ano”, afirma.

O espírito coletivo já vinha sendo cultivado na comunidade escolar. Em anos anteriores, famílias organizaram um projeto chamado “Meu Quintal, Nosso Quintal”, em que pequenos mutirões aconteciam nas casas de integrantes da escola. “A gente ia itinerando nas casas das famílias. Todo mundo se reunia, fazia um mutirão e no mês seguinte ia para a casa de outra pessoa. Então as crianças já estão acostumadas: vão encontrar os amigos, alguns trabalham mais, outros brincam mais, mas participam de alguma forma”, conta Marcelo.

Aprender pelo exemplo

Para além das melhorias físicas no espaço, o mutirão produz impactos na forma como as crianças se relacionam com a escola. “A ideia é justamente que elas vejam os pais trabalhando aqui. Depois elas voltam na semana seguinte e dizem: ‘meu pai que arrumou isso aqui’. Surge um sentimento de gratidão e também de cuidado com o espaço”, explica Moritz.

Mesmo crianças que não têm tanto contato com atividades ao ar livre dentro de casa acabam se envolvendo. “Quando elas vêm e os pais também vêm, algo acontece. Desperta nelas uma vontade de participar, de ajudar. Às vezes você vê uma família que nunca esteve e de repente está ali cortando um galho, empurrando um carrinho de mão. A coisa começa a acontecer”, relata Marcelo.

A força do pertencimento

Para a professora de agroecologia Isabelle Damasceno, que participou da organização do mutirão, o principal diferencial da experiência foi o sentimento de pertencimento: “As pessoas estavam muito felizes de poder ajudar de alguma forma, transformar o espaço e ter os filhos perto. Isso inspira as crianças também”, conta.

Durante o mutirão, Isabelle acompanhou os alunos do sexto ano enquanto pais atuavam nas frentes de trabalho próximas. Segundo ela, era comum ver as crianças se aproximando para ajudar: “Eles corriam para perto dos pais porque queriam participar também. Tinha uma troca muito gostosa acontecendo ali”, relata.

Ao final da manhã, o resultado coletivo surpreendeu até os organizadores: “A gente tinha uma certa preocupação porque eram só três horas. Mas virou um formigueiro de gente trabalhando. A força do coletivo é impressionante”, diz Isabelle.

Comunidade em movimento

O mutirão também fortalece os vínculos entre as famílias. Segundo Moritz, esses encontros criam uma convivência diferente das reuniões escolares tradicionais: “A gente se vê muito na entrada e na saída da escola, mas quando trabalha junto em um propósito comum, cria um vínculo diferente. As conversas são mais espontâneas e o espírito de comunidade aparece.”

O sentimento coletivo também apareceu nas mensagens trocadas entre os participantes após o evento: “Todo o corpo da escola presente, cuidando da escola e trazendo vida, fluxo e muita energia”, escreveu uma mãe no grupo do mutirão. Outra mensagem celebrava o encontro como um momento de aprendizado coletivo: “Energia maravilhosa do encontro, da mão na terra, do aprender fazendo. O cuidado semeado neste mutirão siga nutrindo as crianças e a comunidade.”

Nos últimos anos, a prática vem se fortalecendo e agora passou a integrar oficialmente o calendário da escola, com previsão de novas edições ao longo do ano. Para Isabelle, o impacto vai além das tarefas realizadas no dia: “Isso deixa uma semente. A pessoa pensa: preciso me integrar mais à escola, apoiar nas atividades. É gostoso fazer parte e ter esse sentimento de pertencimento”, afirma. 

“Eu acho que a gente precisa se doar de alguma forma. Seja na educação, na saúde, no meio ambiente. Acho que todo mundo tem algo para contribuir, para somar, para melhorar – seja na sua rua ou dentro de uma comunidade tão rica e potente como é o Ouro Verde.” – Isabelle Damasceno, professora de agroecologia

Entrevistas e redação por Luana de Abreu

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