Topo

Mutirão Agroflorestal no Assentamento Sepé Tiarajú estrutura gestão e mira o aumento de novos consumidores em 2025

Matéria publicada em 28 de janeiro de 2025.

O movimento do Mutirão Agroflorestal teve início em 1996, quando um grupo de pessoas se encontrou em torno da Agrofloresta, com ideias trazidas por Ernst Gotsch, para aprofundar o aprendizado coletivamente, criando uma comunidade de aprendizagem que perdura até hoje. Os mutirões são a grande escola onde, além das técnicas agroflorestais, são trabalhadas as relações (entre os humanos e outros seres) e visões de mundo. A gestão da ONG, oficializada em 2004, é descentralizada e tem projetos que são ativados territorialmente, em conjunto ou separadamente. Atualmente, o Mutirão se divide em quatro núcleos: Núcleo São Paulo; Núcleo Mantiqueira; Núcleo Brasília; e o recém-criado Núcleo Amazônia. A região do Rio de Janeiro está se constituindo como o 5° Núcleo Rio, devido a todos os eventos de Agroecologia que tem sido produzidos na cidade com parceria do Mutirão, como o Plante Rio na Fundição Progresso.

Desde 2005, o Mutirão Agroflorestal apoia trabalhos agroflorestais no Assentamento Sepé Tiaraju, em Serra Azul, na região de Ribeirão Preto (SP), em parceria com a Embrapa Meio Ambiente. O fomento da Saúva ao Mutirão Agroflorestal em 2024 teve como objetivo central colaborar com a estruturação dos meios de produção e comercialização de agricultores familiares agroecológicos no Assentamento Sepé Tiaraju. Este trabalho se desenvolveu com reuniões, pesquisas e oficinas para melhorias na gestão da produção agrícola, do planejamento, da comercialização e da logística de entregas. A coordenação geral do projeto é de Elen Romo (Palmirinha) e a supervisão de Rodrigo Junqueira (Fazenda São Luiz) e Luiz Otávio Ramos Filho, o Tavico (Embrapa Meio Ambiente). Segundo Denise Amador, a Potô, o fomento destinado ao Sepé Tiaraju é muito importante porque eles realmente necessitam deste apoio para alavancar a comercialização, que promove a geração de renda e, logo, a viabilidade das famílias permanecerem no campo. Elen Romo conta que o grande gargalo do projeto é a comercialização da produção, que se torna ainda mais desafiadora pelo contexto de Ribeirão Preto com uma sociedade ainda com muito preconceito à reforma agrária e aos assentamentos, e sem a cultura por uma alimentação sem agrotóxicos.

Atualmente, o canal de vendas da produção é o Grupo de Consumo Agroecológico de Ribeirão Preto, o GCA, que pode ser acessado no link: https://gca-armazem.ola.click/. No site, podem ser adquiridas frutas, legumes, PANCs, grãos, raízes, tubérculos e ainda há a opção da doação solidária, que encaminha produtos saudáveis para uma ONG que atua com crianças em situação de vulnerabilidade social. A lista de alimentos oferecidos tem mais de 45 itens, sendo a mandioca e a banana os carros-chefe.

Potô prevê muitas oportunidades de interações dos outros núcleos do Mutirão com as iniciativas de agroecologia da Rede Saúva Jataí. A demanda para mais sinergias dentro da Rede tem inspirado a coordenação do Mutirão a criar mais mecanismos de interação em 2025, assim como o proposto pelo Laboratório Terra Orgânica em 2024.

Denise Amador fala que o perfil de atuação do Mutirão “está voltado para trabalhos com povos originários, assentamentos da Reforma Agrária, agricultores familiares, e jovens, crianças e mulheres. Não vamos trabalhar com projetos de agricultura regenerativa de grandes empresas. Nosso foco é o trabalho socioambiental que tem a regeneração ambiental caminhando junto à regeneração social e humana”. Na assembleia do Mutirão Agroflorestal de dezembro de 2024, em Brasília, foi posto em pauta um projeto a ser submetido para o Fundo Casa Socioambiental, uma organização que financia projetos de sustentabilidade ambiental e social na América do Sul. Este projeto prevê um trabalho agroflorestal junto à comunidade do povo quilombola Kalungas, na região do Alto Paraíso, na Chapada dos Veadeiros. Denise conta que o projeto é para que eles desenvolvam sua autonomia, desenvolvendo desde as técnicas do manejo agroflorestal ao acesso às políticas públicas.

Participantes da Assembleia do Mutirão Agroflorestal em Brasília

Em 2023, a ONG Mutirão Agroflorestal recebeu um prêmio de uma organização internacional sediada na Holanda, o Mustardseed, que valorizou a história de seus 28 anos de atuação e todo seu trabalho. Essa verba será utilizada para diversos trabalhos nos núcleos e no coletivo como: promoção de mutirões, compra de equipamentos para ampliar a produção em alguns núcleos, edição de um livro com artigos produzidos pelos integrantes, a produção de um filme que contará como parte da comemoração pelos 30 anos do Mutirão em 2026, a realização do módulo piloto de um Curso profissionalizante em Manejo agroflorestal, apoio logístico para o trabalho que vem sendo desenvolvido na aldeia dos Yawanawá, no Acre, participação em eventos internacionais, entre outras ações.

Desafios de 2024 no Assentamento Sepé Tiaraju

Ao longo do ano, Elen e a equipe conseguiram executar diversas ações com o foco na produção e comercialização, como pesquisas qualitativas, melhorias nos processos de produção e beneficiamento dos produtos, desenvolvimento de ferramentas de gestão financeira, logística e de estoque. Além disso, no final de 2024 investiram na contratação de profissionais de marketing e vendas. Isso melhorou bastante a comunicação com o público e, para 2025, esperam aumentar o escoamento dos alimentos produzidos pelos agricultores.

Participação de agricultores do Assentamento Sepé Tiaraju no Plante Rio 2024

Um grande desafio na região de Ribeirão Preto, tida como a capital nacional do agronegócio, é vencer o grande preconceito contra a agroecologia e os assentamentos. Outro desafio é melhorar a logística de recolhimentos dos alimentos e entrega para os consumidores, que tem sido feita de maneira personalizada pela própria Elen Romo. Eles aguardam a liberação de uma emenda parlamentar para a compra de um carro e equipamentos para beneficiamento. “A emenda vai sair, mas não sabemos quando… Essa parte do beneficiamento parou um pouco por isso e tentamos trabalhar outras coisas de forma caseira. Tem agricultores fazendo a mandioca e banana chips e queremos explorar as vendas de mandioca descascada, em maior quantidade, para barzinhos e restaurantes”, conta Elen.

Outra questão complexa é o desafio da fixação do jovem no campo, porque a maioria deles não se identifica com o trabalho na roça e vai atrás de emprego na cidade. De olho nesse contexto, o Mutirão contratou dois jovens que estão recebendo salários do projeto e se desenvolvendo profissionalmente, contribuindo com sua permanência no campo e também na autonomia do próprio projeto. Elen nos conta que Giovanna Santos, uma das jovens, gerencia boa parte das rotinas de comercialização, cuidando de toda a parte de suprimentos: controle de estoque, diagnóstico de oferta junto aos agricultores e a própria gestão do site.

Partilha das cestas do Grupo de Consumo Agroecológico

Denise e Elen avaliam que o ano foi bom e o fomento foi muito importante para todo o trabalho do assentamento. A recente criação da Associação dos Agrofloresteiros do Assentamento Sepé Tiaraju também é um ponto positivo que irá possibilitar o acesso a editais e programas de política pública.

5° Mutirão Agroflorestal na Aldeia Yawanawá

Foi a 5ª vez que integrantes do Mutirão foram à Aldeia Sagrada na Terra indígena Yawanawá, às margens do Rio Gregório, no Acre, para trocar saberes com o Povo Queixada. Este projeto chamado Ni Esche Vanay é apoiado pelo IMC (Indigenous Medicine Conservation Fund) e tem o objetivo de implantar hortas e culturas de ciclo curto para produção de alimentos para a Conferência Internacional de Ayhuasca realizada em janeiro de 2025. Segundo Denise, toda a energia neste último mutirão foi dedicada ao plantio de alimentos de rápida produção (3 meses) como feijão, abóbora, mandioca, milho, inhame, pepino, vagem e uma horta com couve, alface e temperos. Hortaliças gostam de clima frio e seco, diferente da região amazônica que é quente e úmida, mas mesmo assim foi feita uma grande horta em frente à casa do responsável pela agrofloresta da aldeia e foi um sucesso.

Outra ação foi o plantio na área de roçado preparada pelos indígenas. O roçado é uma técnica ancestral desenvolvida pelos povos originários e a incorporação de técnicas agroflorestais no roçado foi uma grande fusão de saberes, entre dos indígenas que utiliza o fogo e a técnica dos agroflorestores, que utiliza toda a biomassa para a fertilidade do solo.

Denise conta que a área plantada com frutíferas há dois anos tem sido manejada e seu desenvolvimento está muito bom. Nove agentes agroflorestais indígenas estão envolvidos em todos os plantios e manejos das áreas agrolforestais, assim como com sementes e mudas. Está prevista uma visita de intercâmbio à Fazenda São Luiz e outros locais com agroflorestas em São Paulo em março para os agentes conhecerem outras experiências e contribuir com sua formação.

Rodrigo Junqueira, Denise Amador e João Portela na Aldeia Sagrada, Terra indígena Yawanawá

Compartilhar: