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Justiça epistemológica dentro da sala de aula

A tela se divide em quadrados. Educadores de Paraty, gente do Instituto Ouro Verde, da Associação Amanu, do Educar+, do Colo da Montanha, do CEM. É a mesa de troca mensal do PAFE (Programa de Apoio à Formação de Educadores e Educadoras), e naquele mês de junho um convidado inesperado entrou na roda: Alex Silva, mestre e professor de Física do Espírito Santo, autor de um livro chamado Currículo e Ancestralidade.

Ele não fazia parte do programa. Chegou por acaso, o tipo de acaso que só acontece dentro de uma rede. Tudo começou com uma foto. Edméia, ligada à Associação Amanu e presente nas mesas do PAFE, comprou o livro de Alex depois de ver um post dele no Instagram. Encantada, mandou a foto da capa para Fabíola Guadix, coordenadora do PAFE.

“Foi um pouco inesperado”, conta Fabíola. “Esse ano eu vinha pedindo que a gente trouxesse exemplos reais para o currículo, não aquele básico que as pessoas fazem só pontualmente. Aí ela me manda a foto desse livro, super empolgada. Eu fui atrás, conversei com o Alex, e a conversa foi tão boa que já marcamos a participação dele na mesa seguinte.”

Alex topou na hora. “Achei muito orgânico”, lembra. “As pessoas trouxeram outras contribuições, outras experiências. Para mim foi muito enriquecedor participar.”

Física, ancestralidade e um jogo de tabuleiro

A história de Alex começa em Turmalina, no Vale do Jequitinhonha. Passou os anos 1990 em Belo Horizonte, até que se mudou pro Espírito Santo, formou-se em Física, fez mestrado e duas pós-graduações — em neuroeducação e em neurociência do comportamento. Hoje mora em Vila Velha, onde aproveita a vida litorânea e pratica sua paixão de lecionar para o Ensino Médio.

Em 2023 publicou Ninguém te Ensinou a Estudar, sobre os meios pelos quais o cérebro é capaz de aprender. O livro mais recente, Currículo e Ancestralidade, nasce de uma inquietação diferente: como levar cultura africana, afro-brasileira e indígena para dentro da sala de aula sem reduzir isso ao cumprimento da legislação. As leis 10.639/2003 e 11.645/2008 tornaram obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e, posteriormente, também indígena, em todas as escolas públicas e privadas do país, do ensino infantil ao ensino médio. A primeira alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) para incluir conteúdos como a história da África, a luta dos negros no Brasil e a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e cultural. A segunda ampliou essa obrigatoriedade para incluir também a história e cultura dos povos indígenas.

“Cumprir a lei é o mínimo”, explica. “O que busco é uma justiça epistemológica, trazer de volta um conhecimento que foi apagado sistematicamente ao longo dos séculos. E isso não é uma metodologia. É uma postura.”

Essa postura ganhou forma em Calor Ancestral, jogo de tabuleiro criado para ensinar os conteúdos de calor, temperatura, termometria e transmissão de calor. As casas do tabuleiro têm cores, as cartas também: cada cor corresponde a um assunto, e quem acerta a pergunta avança. Outra categoria de cartas (sorte ou revés) recua ou adianta o jogador com base em saberes ancestrais. Quem cai na carta de Oxóssi, por exemplo, fica uma rodada fora do jogo. “Oxóssi é o caçador, mas ele observa antes de atacar”, explica Alex. “Por isso, quem cai nessa carta observa uma rodada antes de voltar a jogar.”

As perguntas de Física vêm acompanhadas de contextos culturais do Espírito Santo: a moqueca capixaba, o Congo da Barra do Jucu, as paneleiras de Goiabeiras — patrimônio imaterial brasileiro —, a capoeira, o samba de roda.

Alex aplicou o jogo com turmas de diferentes religiões — católicos, evangélicos, espíritas, umbandistas, kimbandistas — e não houve desconforto. A única sugestão dos alunos foi aumentar o número de cartas, para o jogo durar mais. “Quando falamos de cultura europeia, falamos de cristianismo”, diz ele. “A aula sobre Roma Antiga passa por ali, a Idade Média também, a Reforma Protestante também. Falar de cultura africana pede a mesma coisa: falar das religiões que fazem parte dela.”

No livro, o professor aponta um problema estrutural: o currículo oficial estabelece competências e habilidades, mas na hora de montar a aula o professor recorre direto aos objetos de conhecimento, ou seja, a matéria que precisa dar naquela semana. As habilidades ficam de lado. “Durante muito tempo critiquei o sistema sem me comprometer”, conta. “Quando você propõe, se compromete a mostrar uma alternativa. O livro nasceu dessa vontade: trazer uma crítica com proposta.”

Para Fabíola, o encontro confirmou algo que o PAFE persegue há anos: o letramento racial como eixo permanente das trocas mensais, não como pauta pontual. “Foi isso que eu vinha buscando: trazer para a mesa, na prática, o que a gente pode fazer.”

Foi esse olhar atento que transformou uma foto de capa de livro, compartilhada por acaso num grupo de WhatsApp, em uma conexão concreta com o professor. Não por coincidência: o compromisso com ações antirracistas está entre os principais critérios da Rede Saúva Jataí na seleção e no acompanhamento de projetos apoiados. Reconhecer o valor do trabalho de Alex e trazê-lo para dentro das mesas do PAFE é um gesto que fortalece esse comprometimento institucional. Mostra que a Rede permanece atenta, em tempo real, às sinergias que reforçam esse compromisso onde quer que elas surjam.

Geisa, uma das apoiadas pelo PAFE, leva educação física e esporte para a zona rural de Paraty e está sempre presente nos encontros. Essa conversa a atravessou de um jeito particular. “A gente vai perdendo o brilho no automático da vida”, diz. “E foi bonito ver a vontade do professor: pegar uma matéria difícil, Física, e usar isso para falar de cultura e de racismo. Aquilo trouxe ideias para a gente também.”

Alex compartilhou, durante o encontro, que não se reconhecia como homem negro quando entrou na universidade. A fala tocou Geisa de um jeito direto: seus avós paternos eram de origem europeia; o avô materno, negro. “A gente é uma mistura”, conta. “Quando entrei na faculdade, também não me reconhecia. Foi ouvindo falar de cotas que comecei a pensar: espera, isso também é comigo. Foi aí que comecei a conhecer as histórias, a me aproximar dos meus irmãos, e a aprender a ter orgulho.”

Ela lembra que a luta segue viva: há dois meses, um episódio de racismo em um ônibus, envolvendo crianças que acompanha em um quilombo, mostrou que o preconceito ainda machuca. É por isso, diz, que a esperança trazida por professores como Alex importa, pois revela a possibilidade de transformar uma aula qualquer em espaço de identidade e pertencimento, sem abrir mão do conteúdo.

As mesas do PAFE existem para que o aprendizado não pare nunca, para que cada pessoa leve algo de volta ao seu território e traga algo novo para compartilhar com as outras. Formações complementares, trocas transversais entre áreas que pareciam não ter relação — Física e ancestralidade, ciência e cultura —, são a prova de que conhecimento contextualizado se constrói assim: em rede, com paciência, e muitas vezes por acaso.

O livro Currículo e Ancestralidade ainda não está disponível em plataformas tradicionais de venda. Quem quiser adquirir um exemplar pode entrar em contato diretamente com o professor Alex Silva pelo site https://neuroeducadoralexsilva.lovable.app/#produtos. Grupos de uma mesma região podem se organizar para dividir o frete do envio.

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