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Jornada da Mata, Centro de Tradições e Laboratório Terra Orgânica unem saberes ancestrais, tecnologias e sustentabilidade para cultivar o futuro

Matéria publicada em 31 de julho de 2025.

Em um verdadeiro Quilombo Urbano cercado por Mata Atlântica, no coração de Santa Tereza, o Centro de Tradições Ylê Asè Egi Omim está reescrevendo e resgatando a relação entre humanos e natureza. Com baldes, bombonas, palets e muita ancestralidade, o terreiro — em parceria com o coletivo Jornada da Mata — transforma restos de comida, cascas de legumes, borra de café e folhas secas em adubo fértil, fechando um ciclo circular e sagrado: o alimento que volta à terra para produzir outros alimentos e nutrir novas vidas. Em entrevista, Márcia Nascimento, Iyá Egbe do Egi Omim e mobilizadora do Jornada da Mata, revela como a compostagem virou ferramenta de resistência, educação ambiental e reconexão com os saberes dos mais velhos.

A Iyá Egbe Márcia Nascimento no Ponto de Cultura Escritório da Mata

Dessa maneira, o Ylê Asè Egi Omim prova que sustentabilidade é, acima de tudo, um ato de fé — no planeta e na comunidade. E que o mais importante deste projeto é poder divulgá-lo entre as pessoas e na comunidade do terreiro, porque nem todos estão conscientes de que cada casca transformada em adubo é a semente de um mundo mais justo e verde. Nessa parceria, as redes sociais e a Muda vêm ajudando a multiplicar os resultados.

O Terreiro como sala de aula viva une a ancestralidade à inovação

A compostagem no Ylê Asè Egi Omim não começou somente com manuais técnicos, mas com a memória afetiva das gerações passadas. Contemplados no Edital de Compostagem Comunitária do Laboratório Terra Orgânica, os membros do terreiro tiveram todo o suporte financeiro, teórico e prático para iniciar o processo de compostagem termofílica em seu terreno. Após um tempo para se adaptarem à metodologia proposta e engajarem o coletivo para o recolhimento, pesagem, registro e montagem das leiras de compostagem, o processo começou e já dá frutos, ou adubos orgânicos. “Não tivemos dificuldade nenhuma, porque cuidar da terra é uma coisa que nós de terreiro já fazemos naturalmente. A gente já alimenta a terra naturalmente. Tudo que vem da terra pra gente é sagrado”, explica Márcia.

Ela conta que este processo remete às práticas ancestrais: ” É uma coisa que a gente cresceu vendo nossos avós, nossas mães, nossas madrinhas, tias, fazendo. Que era aquele processo de picar casquinha de legume e jogar na terra. Hoje em dia, a gente agrega novas tecnologias, os processos têm seus nomes específicos, tem vários experimentos na área, que a gente também vai tentando agregar na nossa realidade, na nossa prática”, explica Márcia. O projeto nasceu da parceria com o Jornada da Mata, coletivo liderado por Luna Pesce, filha do terreiro e iniciada de Oxóssi, orixá das matas e da caça. O objetivo do Jornada é elaborar um entendimento amplo sobre práticas agroecológicas que podem ajudar na conexão com as melhores escolhas para o coletivo, trazendo ferramentas eficientes e discussões filosóficas. A conexão foi natural: o terreiro, situado em uma área verde, tornou-se espaço ideal para experimentar práticas sustentáveis e compostáveis.

Alguns desafios e muitas conquistas

O caminho, apesar de tranquilo, não foi totalmente sem obstáculos. Roedores e quatis viraram “participantes” do projeto, arrastando e abrindo as bombonas, e exigindo soluções criativas — como amarrar os recipientes com lacres. Mesmo assim, em poucos meses, três colheitas de composto foram realizadas. “Observamos que temos resultados muito rápidos. Com 15 dias, já temos o material pronto ali. Então, temos uma dinâmica muito forte… Porque a natureza aqui é muito presente, sabe? O clima do lugar favorece e temos muitas árvores, então temos folha o tempo todo caindo e podemos varrer e juntar”, celebra Márcia. O adubo produzido alimentará hortas medicinais, alimentícias, pomares, jardinagem e futuramente será distribuído à comunidade, reforçando a ideia de que “lixo” não existe: tudo se transforma.

Educação que germina e se multiplica

Quinzenalmente, as atividades e estudos alternam-se entre as voltadas para Compostagem e Corpo Natureza em cursos gratuitos do Ciclo de Estudos Saberes da Terra: onde abordam temas de compostagem a cuidado com o corpo, atraindo vizinhos, jovens e até alunos do colégio CEAT – Centro Educacional Anísio Teixeira. Márcia conta que a intenção é de unir as duas vertentes em uma mesma linha de atuação. “O colégio aqui do lado já esteve aqui também com as crianças, já participaram de atividade e já trouxeram turma de alunos para fazer plantio. Então, acho que a gente está conseguindo”, relata.

Márcia afirma que gradativamente tem chegado muita gente nova no Centro de Tradições e isto é uma oportunidade de apresentar o trabalho realizado e também de conclamar essas pessoas, que são multiplicadores naturais. “A intenção é fazer a comunidade entender que a gente está cuidando hoje daquilo que os nossos filhos, os nossos netos, os nossos bisnetos vão estar usando amanhã”, diz Márcia. Ela explica que os processos de avaliação são constantes e que a meta para o segundo semestre é ampliar a comunicação: criar cartilhas, sinalizar os espaços de compostagem e mostrar que a técnica — embora tenha nomes modernos — é herança direta dos antepassados.

“Eu acho importante as pessoas saberem que a gente está nessa roda que está nos levando a entender coisas que os nossos avós, bisavós, tataravós faziam e que a gente não entendia muito bem. Hoje elas têm todo um sentido e fazemos uma ligação nossa com o passado. Não tem muito como separar o que foi do que está sendo feito. É uma coisa só e que visa resistência”.

Márcia Nascimento – Centro de Tradições e Jornada da Mata

Por que compostar é um ato revolucionário?

Márcia não hesita ao responder: “É furar a imposição do sistema”. Para ela, a compostagem questiona lógicas perversas, como a falta de coleta seletiva em cidades ou a ausência de áreas verdes e próprias para a compostagem em projetos urbanos. “Por que condomínios não têm composteiras? Por que escolas não ensinam isso desde cedo?”, provoca. No terreiro, o ciclo alimentar é também espiritual: “é um movimento natural, cuidar da terra, alimentar a terra, plantar e colher, e se alimentar bem, fortalecer o corpo, fortalecer o espírito.”

“Então, retornar pra ela, nutrir a terra de coisas boas, de bom alimento, pra ela nos devolver um bom composto, pra gente replantar e pra gente multiplicar, e pra gente continuar alimentando essa região aqui, essa natureza que nos cerca, pra gente tem tudo a ver”.

Márcia Nascimento – Centro de Tradições e Jornada da Mata

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