Matéria publicada dia 15 de Abril de 2026.
A cidade de Cabo Frio (RJ) recebeu, nos dias 25 e 26 de março de 2026, o Futuro Azul Summit: encontro estratégico dedicado à ECONOMIA AZUL. O evento realizado pela Jataí e pela Saúva, aconteceu no Hotel Paradiso Corporate, com atividades paralelas na praia do Forte, e com o apoio da Prefeitura de Cabo Frio e do Governo do Estado do Rio de Janeiro. Ao longo de dois dias, pesquisadores, empreendedores, gestores públicos, representantes de comunidades pesqueiras, organizações da sociedade civil e um público diverso e interessado de mais de 170 pessoas por dia se reuniram para discutir caminhos sustentáveis para a economia que toca os oceanos, rios, lagos e regiões costeiras.
O que é Economia Azul?
Dentro da economia sustentável, a Economia Azul é um conceito que propõe o uso responsável e inteligente dos recursos dos oceanos, mares e áreas costeiras para gerar desenvolvimento econômico — sem degradar os ecossistemas. O foco é equilibrar crescimento econômico, inclusão social e conservação ambiental. Alguns dos setores que compõem a Economia Azul são a aquicultura responsável (cultivo de peixes, moluscos e algas), a biotecnologia marinha (compostos bioativos, biofármacos, cosméticos e insumos industriais de origem marinha), o turismo regenerativo, a restauração de ecossistemas (corais, manguezais e pradarias marinhas), o financiamento climático e fixação de carbono azul.
Por que a rede Saúva Jataí está falando de Economia Azul?
O Brasil tem 8.500 km de costa, a maior biodiversidade do planeta e uma conceituada base científica em oceanografia e biotecnologia. Nosso país, no entanto, está sub-representado no painel das economias que tocam este setor. A Jataí foi criada exatamente para pensar (e propor) outras formas de economia e vem se desenvolvendo na construção de ecossistemas econômicos ativos, onde seja possível gerir recursos sem abrir mão dos valores e diferenciais que a compõem. Diante deste cenário, a Jataí entendeu a Economia Azul no Brasil como uma grande oportunidade e se estrutura para o mapeamento e avaliação de projetos ‘investíveis’ para o valioso trabalho de conexão entre capital e impacto positivo.
Como foi o Futuro Azul Summit?
A abertura do evento ficou a cargo de Leandro Almeida, diretor-presidente da Jataí Investimentos, e por vídeo, de Marinez Scherer, representante da COP30, UNESCO e professora da UFSC. Na fala que deu o tom do evento, Leandro sintetizou a visão que orienta o trabalho da Jataí: “O que a gente está buscando nesse mercado é conseguir alinhar, convergir interesses econômicos com um processo produtivo de ressignificação ambiental e de mais inclusão social. Os projetos que a gente está fazendo na área da economia azul, como investimento em algicultura, conseguem trazer todos esses atributos para a mesma ação.”

Painéis: da política pública à inovação tecnológica
A programação foi estruturada em dez painéis que percorreram os principais eixos da Economia Azul. No primeiro dia, as discussões abrangeram política pública e ecossistema institucional, turismo costeiro sustentável, biodiversidade marinha, mercados e cadeias de valor. O segundo dia contou com os painéis da própria Rede Saúva Jataí. Pedro Valente, da Jataí Investimentos compartilhou que existe hoje uma forte busca por teses de impacto real, demonstrou que o verdadeiro gargalo está na ausência de pontes entre capital e projetos, e apresentou caminhos para o financiamento e mecanismos de apoio à Economia Azul.
O painel da Saúva foi representado por lideranças de projetos fomentados pela associação; como Denise Amador, coordenadora da agroecologia na Saúva e representante dos projetos Mutirão Agroflorestal e Arte na Terra, Hauley Valim, do projeto Regenera Rio Doce e Mônica Calderon, maratonista aquática e representante da moeda complementar Alegrias de Paraty. O quadro foi apresentado pela produtora cultural Cris Nogueira, da Fundição Progresso, e abordou a aguaecologia com reflexões sobre os caminhos das águas desde suas nascentes, às comunidades atingidas mais diretamente nesse percurso e sobre o ato de “plantar água”. A comunidade pesqueira e costeira de Cabo Frio também marcou presença no dia 26 e teve suas vozes ecoadas, contribuindo com as discussões.

Os debates avançaram para financiamento climático, bioeconomia azul, inovação e tecnologia aplicada ao mar; com a presença do PISTA (Parque de Inovação Social, Tecnológica e Ambiental), iniciativa do Governo do Estado do Rio de Janeiro, em parceria com a FAPERJ e PNUD, que investe em projetos de inovação social, desenvolvimento local e economia azul em comunidades como Rocinha, Alemão, Maré, Cidade de Deus e Petrópolis; e do Blue Rio, programa que regulamentou e implementou um hub de startups com soluções para os desafios ambientais do Rio de Janeiro.

A aposta da Jataí e da Saúva em reunir vozes tão diversas sob o mesmo teto foi reconhecida pelos próprios participantes. Para o professor Alexandre Freitas, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, a edição representou um marco: “Foi muito valioso participar do Futuro Azul Summit, porque estamos há cinco anos trabalhando com isso na universidade e foi a primeira vez que vimos um evento desse juntando uma coisa que é muito difícil: academia, empresas, setor público e setor privado.“
Uma forte potência de negócios

O professor Joilson Cabral, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e coordenador da pós-graduação em Economia Regional e Desenvolvimento, apontou informações que a grande maioria dos presentes não estavam cientes: “A economia azul representa 13,5% do faturamento do Estado do Rio de Janeiro, gerando mais de 200 mil empregos.” O dado evidencia a dimensão econômica de um setor ainda pouco reconhecido pela opinião pública e reforça por que eventos como este, viabilizados pela Jataí, são de extrema importância.
O professor Thauan Santos, coordenador do grupo Economia do Mar, destacou o potencial includente do setor: “É uma grande oportunidade de negócios para incluir, de modo sustentável e justo, diferentes atores. O evento é uma grande maneira de possibilitar que um público amplo tenha um conhecimento mais específico acerca do assunto, engajando-se nessa agenda e passando a fazer parte dessa onda azul.”
Mutirão e Arte – caminhos para refletir os propósitos

O Futuro Azul Summit não se limitou ao debate técnico, e a presença da Saúva Jataí na concepção do evento e enquanto rede se fez sentir com clareza. No primeiro dia, enquanto os painéis ocorriam no auditório principal, a manhã foi marcada por um mutirão de limpeza de um trecho da Praia do Forte, realizado pela ONG Mar Sem Lixo com apoio da Jataí e com a participação de alunos da escola estadual de Cabo Frio. Foram mais de 1000 canudinhos coletados na areia em menos de uma hora de ação, além de outros plásticos de uso único, como tampas, copos e cotonetes.

Na sequência, o Grupo Pedras, projeto fomentado pela Saúva, apresentou a peça teatral infantil “Rosa e a Floresta”, na Praça da Cidadania, em evento aberto ao público. A peça é um convite e um passeio pela floresta, em uma jornada iniciática de descobertas e apuros que aguça a força do coletivo, renova o desejo de um mundo mais justo, amoroso, com florestas de pé, de rios e mares limpos.

Ao anoitecer, o auditório se transformou em palco para o espetáculo “Solo da Cana“, monólogo com texto e atuação de Izabel de Barros Stewart e direção de João Saldanha, que propõe uma reflexão sobre relações coloniais, racismo e modos de habitar a Terra a partir da perspectiva de uma cana-de-açúcar.
No segundo dia, o almoço foi acompanhado de uma programação cultural paralela que incluiu feira de artesanato caiçara, exposição de fotografias e arte popular com temática oceânica.
Roberto Ramos, presidente e fundador do projeto Mar Sem Lixo, celebrou a articulação entre as frentes do evento: “Difundir cultura oceânica é muito importante e um evento como esse traz ânimo para a gente ter um resultado mais positivo nessa questão. Estamos enfrentando um problema muito sério que é a saúde dos oceanos. Esse evento junta especialistas e possibilidades financeiras em relação à sustentabilidade do oceano.”
Por que Cabo Frio?
A escolha de Cabo Frio como sede não foi por acaso. O município integra a Região dos Lagos, reconhecida pela sua vocação para a economia azul, e abriga a Lagoa de Araruama: uma das maiores lagoas hipersalinas do mundo. O jornalista e moderador Max Andrade registrou a simbologia do local: “É muito marcante estar em um evento como esse aqui na cidade de Cabo Frio, que é uma das cidades mais antigas do Brasil e onde teve um começo importante na incipiência da economia azul com a Lagoa de Araruama.”
Matheus Aragucci, Secretário de Economia Azul de Cabo Frio, reforçou o que o evento significa para o território: “A importância de um evento como o Futuro Azul Summit é poder divulgar as potencialidades, principalmente econômicas, ambientais e sociais, do município de Cabo Frio para todo o estado do Rio de Janeiro e também para o resto do país.”

A Economia Azul à nossa frente
Luiz Alberto, presidente do Instituto Pro Algas Brasil, fez um convite: “A economia azul nos espera e essa fronteira maravilhosa que o Brasil possui — com mais de 8 mil quilômetros de litoral oceânico — nos permite cultivar o ano inteiro, de janeiro a janeiro, sem intempérie. Podemos trazer trabalho, emprego e renda para milhares de brasileiros.”
Hauley Valim, do projeto Regenera Rio Doce, enfatizou em sua fala a importância de existirem iniciativas que possibilitem a manutenção de projetos sustentáveis: “A Saúva Jataí é guardiã desse compromisso ético financeiro com essa responsabilidade social. Sempre tive problemas com financiamento e nessa rede me sinto seguro de estar fazendo parte desse coletivo.”
O evento foi encerrado com uma fala de Leandro Almeida dedicada aos aprendizados dos dois dias e aos próximos movimentos da agenda da economia azul conduzida pela Jataí e pela Saúva.

Texto: Ana Paula e Luana Abreu / Fotos e vídeo: Luana Abreu