Matéria publicada em 29 de janeiro de 2026.
Em um espaço grafitado e cuidadosamente preparado, uma hora de aula por semana vira um portal para um outro mundo. Não é um mundo de fantasias distantes, mas um mundo de possibilidades reais, onde o respeito, a escuta e a noção de espaço são tão importantes quanto os passos de dança, os personagens teatrais ou as notas musicais. Há 15 anos, o projeto Favela Mundo percorre comunidades do Rio de Janeiro com uma missão clara: usar a arte como ferramenta radical de inclusão social e cidadania. Em entrevista para o Portal Saúva Jataí, Marcello Andriotti, fundador do projeto, revela como a iniciativa, única brasileira reconhecida pela ONU como modelo de inclusão social nas grandes cidades, vai muito além das oficinas gratuitas. Ele fala do patrocínio da gestora de investimentos Jataí com a Diverticidade (Fundição Progresso), sobre a importância de uma equipe profissional qualificada, remunerada e como a arte ensina crianças e jovens a navegar suas realidades, debater gênero, racismo e violência, e, acima de tudo, descobrirem seus direitos.


Arte e Transformação
O que começou em 2010 como um sonho de levar cultura a locais com pouco acesso, hoje é uma rede sólida de transformação. O Favela Mundo atua de forma itinerante, atendendo, neste ano, 410 crianças e jovens de 6 a 18 anos nas comunidades da Cidade de Deus e do Caju, no Rio de Janeiro. A única exigência para participar das oficinas gratuitas de teatro, música e três modalidades de dança (danças brasileiras, hip hop e jazz) é estar matriculado na escola regular. “A gente entende da importância da educação”, explica Marcello Andriotti.
Mas o objetivo, ele ressalta, nunca foi formar artistas profissionais. “Nosso intuito é que eles utilizem a arte, a cultura, como um instrumento de cidadania”, afirma. Os exercícios cênicos e musicais são estruturas para trabalhar o aprendizado artístico e conceitos fundamentais: respeito às diferenças, escuta ativa, noção de espaço pessoal e coletivo, disciplina e trabalho em grupo. “Para poder tocar um instrumento, eu preciso ouvir. Para dialogar no teatro, eu preciso ouvir. A dança mostra muito essa questão do espaço”, exemplifica Andriotti.


O projeto se destaca por seu rigor e profissionalismo. Diferente de muitas iniciativas sociais, não trabalha com voluntários. Toda a equipe é formada por professores especializados, muitos com mestrado e doutorado, devidamente remunerados. “Faz uma total diferença no resultado”, defende o fundador. Esse compromisso com a qualidade se estende ao ambiente: o Favela Mundo negocia com as escolas parceiras um espaço próprio, que é reformado e grafitado por um artista, criando um “mundo” novo e acolhedor para os alunos. Esse legado físico fica para a instituição após a passagem do projeto.
O espaço, no entanto, vai além do físico. É um território seguro de escuta e acolhimento. “Vira uma segunda casa, se não a primeira casa deles”, relata Andriotti. É nesse ambiente que surgem discussões profundas e necessárias, guiadas pelos próprios alunos. As apresentações finais são, muitas vezes, criadas por eles, abordando temas como violência, invisibilidade social, racismo e questões de gênero.

Acolhimento e parcerias
Andriotti cita o caso emblemático de Arthur, um aluno trans de 17 anos cuja família não aceita sua identidade. “Conversamos: ‘Arthur, aqui você é Arthur. Mas você entende que para seus pais a gente não pode, porque eles ainda não estão abertos’”. O projeto se torna, assim, um refúgio essencial de afirmação. “A gente está para desenvolver essa garotada e para se desenvolver junto com eles”, reflete.
O sucesso e a continuidade do Favela Mundo dependem crucialmente de parcerias e patrocínios. “O apoio financeiro é fundamental para desenvolver as atividades da maneira que acreditamos, com seriedade e qualidade”, diz Andriotti. Após um único ano sem patrocínio, em 2012, o projeto se consolidou. E em 2025 a gestora de investimentos Jataí e a Diverticidade (Fundição Progresso) foram patrocinadoras através da Lei do ISS, Lei Municipal de Incentivo à Cultura do Rio de Janeiro, que permite que empresas destinem até 20% do ISS devido a projetos culturais aprovados.



A credibilidade conquistada em 15 anos faz com que o projeto seja constantemente requisitado por outras comunidades. “Passamos o ano inteiro recebendo mensagens: ‘Quando vocês vêm para cá?’”, conta Andriotti. A força do trabalho é tamanha que, ao tentar sair da Cidade de Deus após cinco anos – já que o modelo é itinerante –, a comunidade respondeu com um abaixo-assinado de centenas de assinaturas pedindo sua permanência.
O Favela Mundo prova que a arte, quando aplicada com intencionalidade pedagógica e social, é mais do que entretenimento. É uma ferramenta poderosa para regenerar tecidos sociais, construir pontes de diálogo e, principalmente, mostrar a cada criança e jovem que, independente de seu território, seu potencial é ilimitado. O “risco” que o projeto corre é a possibilidade de criar e formar pessoas conscientes, criativas e questionadoras. E é exatamente esse o mundo que o Favela Mundo quer ajudar a construir.
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