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Instituto Ouro Verde investe em Planejamento de Futuro com horizonte de 12 anos, em formato transversal à luz da autogestão e com fortalecimento da Comunidade

Matéria publicada em 30 de outubro de 2025.

O Instituto Ouro Verde, em Nova Lima, completou 12 anos de história na educação antroposófica com os pilares de Escola Verde – agroecologia no currículo, alimentação saudável e gestão de resíduos. Uma trajetória que mistura confiança, determinação e propósitos comuns gerida no modelo de autogestão inspirada pela Sociocracia. Desde 2018, Rodrigo Bergami é o consultor da escola e tem trabalhado pela sustentação e disseminação da cultura organizacional e suas metodologias, saindo dos modelos hierarquizados e centralizadores, e busca uma gestão compartilhada, descentralizada e que distribui o poder “a serviço de um propósito comum”. Hoje, o trabalho realizado na escola promove uma transição rara no cenário educacional brasileiro: a saída completa de seus fundadores e a elaboração coletiva de um plano para o próximo ciclo de desenvolvimento da organização, o “Agora para o Futuro”. Este estudo detalha uma visão para os próximos 12 anos que servirá como estrela guia para todas as decisões, da valorização docente à ampliação de seu impacto cultural na comunidade interna e externa.

Rodrigo Bergami

O trabalho de Rodrigo Bergami, administrador especialista em autogestão, começou há anos, quando os fundadores sinalizaram o desejo de uma sucessão que não comprometesse a saúde da escola. “Em nenhum momento foi prerrogativa deles continuar na gestão do Instituto ad eternum“, explica Bergami. O processo não foi sobre substituir pessoas, mas sobre redistribuir atributos e responsabilidades. A saída da última fundadora, Sandra Gonçalves, por exemplo, não resultou na nomeação de um substituto, mas na divisão de suas funções entre diferentes papéis e pessoas.

O poder distribuído do “quem” para o “a serviço do quê”

Rodrigo Bergami diz que sua carreira foi sendo conduzida para os processos de gestão e governança, o que o levou ao encontro da Sociocracia. “Fui me encontrando com as questões da Sociocracia, da autogestão, para que a gente pudesse fazer com que as organizações, cada vez mais, pudessem seguir o seu propósito e depender menos de pessoas e de indivíduos; que os indivíduos e as pessoas estivessem a serviço da organização e não ao contrário”, explica.

Para Rodrigo, a essência desta forma de desenvolvimento organizacional passa por uma mudança cultural profunda: sair do “quem” (a personalização do poder) e ir para “estar a serviço do quê” (o propósito coletivo). “É um processo amplo que nos desafia a ter uma clareza do porquê e para que estamos trabalhando. Criar um propósito comum e distribuição de poderes. Onde a gente consegue ter o poder distribuído e não personalizado, mas o poder em papéis. Eu vejo que esse é um grande desafio cultural “, define.

Moritz Hondrich (esq)
Raquel Aranha, diretora-presidente do INOV

O Plano “Agora para o Futuro” que guiará a escola pelos próximos 12 anos

Com a governança, o desafio seguinte era evitar que a organização ficasse “a bel-prazer das vontades” de futuras diretorias. A solução foi a construção coletiva de um plano de 12 anos. “É quase como… Estou entrando na adolescência e estou começando a ver como vai ser minha vida adulta”, compara Bergami.

O plano está sendo construído ao longo de 2025, e contou com uma etapa imersiva com a participação de 36 pessoas – incluindo famílias, professores, funcionários, diretores atuais e os próprios fundadores –, estabeleceu uma visão de futuro, um propósito renovado, premissas e diretrizes de ação. Esse número também chamou sua atenção numericamente, pois foi três vezes o número de pessoas que conceberam a escola. “O que me chamou muito a atenção foi essa ampliação de pessoas. (…) Por mais que eu esteja falando de uma comunidade que tem cento e tantas famílias, o número 36, para mim, foi um número que trouxe uma força de base”, reflete.

Uma das diretrizes do novo Plano que está sendo levantada, por exemplo, é a melhoria da remuneração dos professores ao longo do ciclo. “Isso já está como uma diretriz. Eu não preciso ter ninguém levantando aquela bandeira em prol daquilo, a gente já combinou”, destaca o consultor. Rodrigo explica que “quando eu consigo entregar isso (o Plano) para as pessoas, falar para elas: ‘Olha, você está entrando numa comissão, você vai entrar numa diretoria, mas esse aqui é o macro plano que a gente está perseguindo. É a serviço disso que você está’. Então, isso ajuda”.

Laura Guimarães

Ampliando a atuação para Cultura e Educação

Uma das discussões que tem sido apresentadas no plano é a afirmação da identidade do Instituto com atuação na educação e no âmbito cultural. Seu estatuto sempre o registrou como uma instituição de “educação e cultura”, mas agora essa dualidade poderá ser potencializada. “Quando coloco que agora sou um instituto de cultura e educação, eu posso ampliar meu escopo de atuação. Eu posso trabalhar de uma outra forma, eu posso servir a comunidade de uma forma mais ampla”, explica Bergami. Essa possível mudança reconhece que a educação é um pilar fundamental dentro de um ecossistema cultural mais amplo, permitindo à organização um papel mais abrangente e integrado na comunidade. “Percebemos que, nesse próximo ciclo, para que as coisas aconteçam, a cultura precisa ganhar mais força. Até porque a educação está dentro da cultura e não o contrário”, pontua Rodrigo.

“A gente enquanto sociedade em geral segregou muito quando olhamos a educação como sendo o ensinar, ela quase ficou como um lugar de cumprir tarefa. Mas ali estamos criando as capacidades para o ser humano ser quem ele veio ser na vida, veio ser no mundo em liberdade. É uma força cultural muito forte que precisamos ter para que o ser humano, de fato, possa se expressar e se manifestar”.

Rodrigo Bergami – consultor em autogestão e sociocracia do INOV

Rodrigo explica sua visão deste processo: “Então, eu vejo que o plano de futuro e esse olhar para 12 anos, buscam trazer essa leveza e, ao mesmo tempo, esse compromisso. Sonhamos e deixamos algumas marcações para que as pessoas possam balizar as suas decisões. Isso é um passo importante para atuar com autonomia”. Segundo ele, isso traz um enorme ganho, principalmente quando se fala de uma organização que não tem um dono. Ela tem pessoas que “estão a serviço dessa organização, mas elas são passageiras e outras pessoas virão”.

A passagem do bastão no coração

Para Rodrigo Bergami, o ponto alto do processo não foi a conclusão do documento, mas a “qualidade da passagem de bastão” que ocorreu no encontro. “Na prática, ela até poderia ter acontecido, mas, no coração, eu acho que ainda tinha um cuidado. Eu acho que mudou esse lugar no coração”, reflete. Ele descreve o evento como o momento em que os fundadores puderam, de fato, passar o bastão para a comunidade. “Agora esse bastão está em outra mão e eu tenho um papel muito mais de torcer e acompanhar do que de interferir”.

Um planejamento dessa ordem também permite que a escola olhe para a sua história, para a sua biografia, e perceba quais são “aquelas sementes que ainda não germinaram e que podem germinar: quais são os frutos que estamos colhendo e quais são os frutos que queremos vir a colher?”

Depois dos dois dias de um mergulho profundo sobre a visão de futuro da escola, o material foi produzido e está reverberando na comunidade. As 36 pessoas que participaram estão levando o que foi construído em suas comissões, suas instâncias e ouvindo o feedback. Após essa fase serão feitos os ajustes finais dentro da comunidade, com previsão de ser totalmente finalizado até o primeiro semestre do ano que vem para guiar o próximo ciclo de planejamento bianual.

Para finalizar, Rodrigo destaca a qualidade da conversa e do diálogo no encontro de agosto, ainda que as divergências e pontos de vista distintos tenham aparecido. Ele diz que “as pessoas conseguiram encontrar quais eram os pontos convergentes pelos quais precisávamos trabalhar juntos. Compreender que honrar não é fazer igual, mas fazer aquilo que é preciso à luz de um impulso que eu recebi. Honrar é compreender por que foi feito assim e permitir ter a minha força autoral, reconhecendo o que eu recebi. É transformar em legado, e eu vejo que isso aconteceu. Para mim, esse evento foi, de fato, o evento da passagem de bastão dos fundadores para esse novo futuro”.

Izabel Stewart, Sandra Gonçalves, Laura Guimarães e Morena Tomich

 O Instituto Ouro Verde demonstra, assim, que é possível construir um futuro sustentável para uma organização honrando seu passado, distribuindo poder e, acima de tudo, mantendo-se fiel a um propósito coletivo que transcende indivíduos.

Conheça o novo site do Insituto Ouro Verde: https://www.institutoouroverde.com.br/inicio

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