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INOV utiliza agroecologia como um dos pilares pedagógicos

Criado há oito anos, o Instituto Ouro Verde (INOV), em Nova Lima – MG, é uma escola que busca promover a saúde da terra vinculada a saúde do corpo. A “Escola Verde” é um programa de educação ambiental desenvolvido pelo INOV e que atua em 3 frentes de ação: Agroecologia, Educação Alimentar e Gestão de Resíduos. Essas praticas integram o currículo – orientado pela Pedagogia Waldorf – e o cotidiano da comunidade escolar: atividades na horta e na cozinha, alimentação saudável, separação e encaminhamento adequado para os resíduos são premissas na educação cultivada pelo INOV. Além dos alunos, docentes e funcionários, as famílias também participam de várias atividades e se encarregam do transporte dos resíduos recicláveis já selecionados para levá-los ao local de transbordo, onde são coletados pela associação de catadores local, ASCAP; os restos orgânicos da cantina vão para a horta, onde é feita a compostagem, que servirá de adubo para os canteiros da horta, fechando o ciclo de plantio, colheita, consumo e descarte, para recomeçar um novo plantio. Esse envolvimento de toda comunidade escolar desperta o espírito de compromisso e corresponsabilidade com o ambiente e a coletividade, valores fundamentais para a formação de uma consciência mais expandida e implicada com o fazer regenerativo.

Horta na escola

“O INOV mantém uma horta pedagógica”, explica Sandra Gonçalves, gestora do INOV, “onde os alunos têm aulas e colocam a mão na terra”. Os professores de Agroecologia promovem uma interlocução entre o currículo, o que está sendo feito na horta e na cantina, e os ciclos da natureza. Matemática, química, história e geografia, todas as matérias são envolvidas nessa conexão entre o ambiente, os conteúdos e as épocas do ano. Por ora, no espaço da horta “não conseguimos suprir toda a demanda da cantina, mas a produção é levada de uma forma simbólica: os alunos podem oferecer aquilo que eles cultivaram”, conta a gestora.

A horta do INOV tem objetivo pedagógico e está centrada em um modelo de produção sustentável

Parceria Ujima e Inov

Gislene Santos coordena a Ujima, iniciativa que mantem a cantina do INOV. Ela explica que a articulação das praticas agroecológicas e culinárias proporciona uma educação alimentar integrada aos cuidados com o planeta. “A partir do momento que pensamos sobre o que comemos, nossas escolhas, o que pomos em nosso prato, impactamos diretamente o meio ambiente”, sustenta Gislene. A cantina da escola oferece alimentos integrais, agroecológicos, minimamente processados e produzem tudo lá dentro da cozinha, procurando trabalhar com fornecedores locais, da horta e de parceria com a C.S.A. (Comunidade que Sustenta a Agricultura) Confraria da Horta. “Com essa parceria, estreitamos o elo com os agricultores da região, contribuindo para um consumo consciente e solidário”, conta a coordenadora.

Vivências e hábitos saudáveis

Em determinadas etapas do currículo escolar, a Ujima abre a cozinha para as turmas realizarem práticas culinárias junto aos professores. “O resultado é muito satisfatório”, acrescenta Gislene. Ela ainda ressalta a importância do trabalho na educação alimentar: “os alunos entram na escola muito seletivos e, quando conseguem se integrar minimamente com essa filosofia, cultivando e preparando o próprio alimento, lavando sua louça, limpando seu espaço, vão interagindo, se abrindo e conhecendo mais esse mundo amplo do que comemos”. A proposta não é forçar um tipo de alimentação “goela abaixo”, mas, aos poucos, ampliar o paladar para permitir maior liberdade de escolhas, e promover uma “ecologia da boca pra dentro”, isto é, uma alimentação comprometida com o cuidado da Terra.

A produção da horta complementa a alimentação fornecida pela UJIMA Cozinha Viva

Leveza

No INOV, a alimentação saudável é tratada com leveza e alegria, sem obrigações, com opções e, com o tempo, as pessoas vão experimentando texturas e temperos que não conheciam, explica a empreendedora da Ujima. A avaliação que Gislene e Sandra fazem é muito positiva: “a criança que entra seletiva vai se abrindo para comer arroz integral com vegetais, pão integral com sementes, com a opção de pasta de amendoim, sementes de girassol, e assim vão conhecendo as possibilidades que desconheciam”, conta Gislene.

“No jardim acontece algo curioso: os filhos, antes de entrarem na escola, tinham o intestino muito preso e agora vão ao banheiro todos dias: reflexo da alimentação consumida na escola. No fundamental também temos muitos relatos de jovens com acne e intestino preso que já estão normalizados, o que é um retorno positivo pra gente”.

Gislene Santos, empreendedora da cantina UJIMA

Sandra comenta que, na matrícula, algumas famílias relatam que o filho ou filha, não comem nada “desses alimentos” e que levarão lanches de casa. Os alunos então começam levando o próprio lanche, mas depois os pais percebem que as crianças e adolescentes acabam aderindo a alimentação da cantina, que também permite a socialização junto aos outros colegas. “Vemos que é uma dificuldade dos pais e dos hábitos da família, mas a criança, junto com todos, adere e gosta. Já tivemos casos na escola também de crianças com total aversão, dificuldade mesmo, e depois saírem da escola com outro tipo de comportamento em relação à comida, de terem se transformado totalmente”, comemora Sandra. A alimentação é uma expressão cultural que, incorporada na rotina da escola com a merecida consideração, promove reflexões relevantes sobre os aspectos sociais, simbólicos, ambientais, econômicos e políticos de sua prática.

Nascimento na entressafra

Com a pandemia e o período de fechamento das escolas, a cantina que se dedicava exclusivamente a atender a comunidade do INOV, precisou se reformular. A Ujima nasceu nessa “entressafra”, como uma perspectiva empreendedora que possibilitou a ampliação do público consumidor. A cozinha, sede da Ujima, continua funcionando na área de refeitório do INOV fornecendo lanche e almoço para a comunidade escolar, e passou também a preparar pratos congelados e produtos como queijo vegano, pesto e conservas para delivery. A qualidade e o sabor dos alimentos está sendo bastante elogiado, e vem ganhando cada vez mais adesão dentro e fora da escola. O grupo Saúva apoia essa iniciativa, com recursos financeiros e logísticos, visando fortalecer a Ujima para que, futuramente, se torne uma empresa autossuficiente.

A moqueca de grão de bico é um dos pratos congelados oferecidos pela UJIMA

Gislene conta que o fornecimento de pratos congelados tem adesão muito positiva tanto das famílias e professores ligados ao INOV quanto de pessoas de fora da comunidade escolar . “É um trabalho que não esperávamos fazer mas a pandemia nos trouxe esse momento de reflexão e percebemos que poderíamos expandir para além da escola, então o saldo está sendo bastante positivo”, comemora.

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