Matéria publicada dia 12 de maio de 2026.
Em dois dias de visitas intensas e trocas enriquecedoras, a equipe Saúva Jataí percorreu Paraty (RJ) para (re)conhecer as iniciativas que compõem a rede e se atualizarem das ações e propósitos: escolas com pedagogias vivas, projetos de reconexão com a terra e uma economia inclusiva.
A manhã do dia 28 de Abril (terça-feira) começou na Escola do Quilombo do Campinho, onde a equipe pode vivenciar na prática, dentro da salinha de aula, com crianças na faixa etária de 05 anos, as atividades do Projeto Beija-Flor naquela escola. A iniciativa, liderada por Monica Calderon, tem como propósito a implementação, em quatro escolas públicas do município, de práticas pedagógicas diferenciadas e transformadoras, voltadas ao desenvolvimento integral das crianças, com ênfase nas artes e na preservação ambiental; e este ano, especialmente no Campinho, com foco também nas atividades físicas, uma carência do currículo. A equipe passou um tempo brincando e conversando com as crianças – momentos que revelam, na prática, como o projeto atua. No final da visita, numa longa escuta da equipe sobre a história do território e da escola, a diretora Janaína Campos revelou a importância do Beija Flor na escola e o desejo de que o projeto caminhe ainda mais próximo e alinhado às demais atividades.


Em seguida, a equipe visitou a escola do bairro Patrimônio, onde a diretora Noeli Ribeiro apresentou o espaço e acompanhou o grupo até a pequena horta em construção. Ela também ressaltou a importância do projeto para crianças da rede municipal.

À tarde, a Escola Waldorf Quintal Mágico abriu suas portas. A escola atende quase 200 crianças de diferentes realidades socioeconômicas e é gerida de forma participativa, por meio de comissões temáticas voluntárias formadas por pessoas de múltiplas formações. Com o sonho compartilhado de oferecer “uma escola de todos para todos”, cerca de 60% das vagas são destinadas a alunos bolsistas, contemplados com bolsas de 20 a 100%.

A visita incluiu também um primeiro olhar da equipe à futura sede da escola, em obras. O 9º ano já tem aulas no novo espaço, onde 70% do primeiro módulo está concluída – incluindo 14 mil tijolos feitos artesanalmente pelos familiares e colaboradores.

A comunidade Quintal Mágico trabalha esperançosa em conseguir comemorar a simbólica Festa Junina no novo espaço e receber as turmas dos 7º e 8º anos em agosto. Além dos periódicos mutirões que envolvem toda a comunidade escolar na construção do novo espaço, a escola mantém, com o apoio da Saúva e na sua plataforma de captação, uma campanha de financiamento coletivo para viabilizar a conclusão da obra.
Contribua $ pelo link: https://gruposauva.com/donations/quintal-magico/


O produtivo dia foi encerrado com o acompanhamento das doações de cestas, resultado da ação Cozinha Solidária, do projeto Rede Alegrias, à mulheres em situação de vulnerabilidade. As cestas continham produtos de higiene pessoal para mulheres, seus bebês e crianças, além de alimentos saudáveis da região; e foram entregues no Centro de Acolhimento da Mulher e no CRAS.
A manhã de quarta levou a equipe ao Quintal Vivo, novo projeto a integrar a Rede Saúva Jataí em 2026. No mesmo espaço onde se manteve ativo por muitos anos o projeto de creche Casa João de Barro, hoje os trabalhos se direcionam à educação voltada ao manejo do solo e à agrofloresta.

O projeto ainda se encontra em fase inicial e acontece através de encontros abertos a toda a comunidade de Paraty para a troca de conhecimentos agroecológicos, além de especial parceria com a região na coleta de resíduos para os processos de compostagem. O projeto iniciou uma conexão com a escola pública do bairro e pretende estabelecer um frutífero intercâmbio. No centro de tudo, uma intenção simples e urgente: reconectar crianças à natureza.
“O primeiro encontro da comunidade no Quintal Vivo foi um sucesso, com mais de 30 inscritos. Trouxemos os fundamentos, questões do design na permacultura, olhando sempre para as características climáticas da região. Foi um primeiro olhar para definirmos onde colocaremos nossa energia, mas avançamos bastante na horta e na agrofloresta, que vem ganhando mais diversidade, como o plantio do cacau na área do bananal. Construímos também as leras para receber o próximo passo do cronograma que é a compostagem em parceria com a escola pública Professora Passinha.” relata Rodolfo Rocha, aquicultor com experiência em permacultura que é um dos responsáveis pela condução do projeto Quintal Vivo.

Ainda na mesma manhã, a equipe encontrou com as crianças da Escola Cirandas na praça da Matriz de Paraty, onde acontecia o Caravana do Bem Viver, um evento promovido pelo Observatório Bocaina (uma parceria entre Fiocruz e o Fórum de Comunidades Tradicionais). A turma da professora Maria Carolina esteve no evento com o objetivo de enriquecer a pesquisa individual de um dos alunos cujo tema é a PESCA. As crianças participaram de uma apresentação teatral sobre a pesca Caiçara.

No final da manhã, num espaço cedido pela Câmara de Vereadores, o encontro foi com as mulheres da Rede Alegrias, o coletivo que opera por meio da moeda complementar homônima. A Alegrias tem como objetivo incentivar pequenos empreendedores, produtores locais e o consumo consciente, reunindo artistas, educadores, produtores e empreendedores em torno de uma economia que circula de forma alternativa. Qualquer pessoa pode compor o coletivo vendendo ou adquirindo produtos e serviços como alimentos, aulas, terapias, mão de obra especializada, itens de beleza e vestuário. Compõem o projeto Rede Alegrias e estavam presentes na reunião: Mônica Calderon (Coordenação Geral), Gabriela Pasquali (Administrativo Financeiro), Érica Mota (Agente Comunitária), Ana B. Torres (Comunicação), Lisa Alinho Cordeiro (Cozinha Solidária Agroecológica), Isabela Borges, Tamara Cardoso e Tatiana Santos (Beija-Flor / Compostagem Solidária). Uma mesa de mulheres, onde cada uma teve seu tempo de apresentação e compartilhamento das experiências vividas no dia a dia dos projetos, desafios e conquistas.
A experiência ganhou sabor literal no almoço: a equipe foi recebida no restaurante İstanbul Paraty, parceira da Rede Alegrias, com um delicioso prato árabe, pago integralmente com a moeda Alegrias.

À tarde e à noite, a atenção se voltou inteiramente para a Cirandas Escola Comunitária. A Cirandas trabalha a Educação Fundamental, do 1º ao 9º ano, das 8h às 15h, em modelo não seriado (por ciclos), por meio de projetos e pesquisas temáticas. O objetivo é formar sujeitos capazes de compreender e expressar sentimentos, pensar o bem comum e amar a vida – pessoas empáticas e prontas para contribuir com a transformação social.

O início do encontro se deu com uma importante reunião entre membros da atual diretoria da associação Oju Moran, mantenedora da Escola Comunitária Cirandas, com parte da equipe da Saúva, Flávia Gribel e Sandra Gonçalves.
“Tivemos um ótimo diálogo sobre vários temas de governança da escola. Os diretores da Cirandas demonstraram confiança nas mudanças que a escola vem sofrendo, entendendo também os desafios a serem superados. A Saúva reforçou a importância do fortalecimento do propósito desta escola comunitária, como a gestão compartilhada, a diversidade e o engajamento de toda a comunidade na sustentação do projeto. E se colocou à disposição para colaborar na elaboração de um planejamento para os próximos anos”, conta Sandra.

Ao escurecer, toda a comunidade Cirandas se preparou para a Assembleia Geral, momento em que
foram apresentadas informações sobre a gestão da escola. Flávia Gribel aproveitou a oportunidade do encontro para fazer uma breve apresentação do que é a Saúva, a Jataí, todo o universo de iniciativas que as compõem, reafirmar seus propósitos e o retroalimentar entre a associação de fomento, a gestora financeira e toda a Rede.

Os dois dias em Paraty foram um exercício de escuta, presença e reconhecimento mútuo. A equipe Saúva Jataí encontrou iniciativas que, cada uma ao seu modo, cultivam o que há de mais essencial: educação que respeita o tempo da infância, economia que valoriza a comunidade e uma relação com a terra que ancora o futuro. Essas conexões entre pessoas, projetos e territórios são o que torna a rede mais viva a cada encontro.
Texto: Ana Abreu e Luana de Abreu
Fotos: Luana de Abreu