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Escola Comunitária Cirandas reinventa sua gestão e amplia impacto social em Paraty

Matéria publicada em 19 de setembro de 2025.

A Escola Comunitária Cirandas vive um período de transformação estrutural e expansão de seu papel social. Com a chegada da nova diretora, Carolina Fonseca, a instituição implementou um novo modelo de gestão compartilhada: Carolina, ex-coordenadora pedagógica, assumiu a direção geral, enquanto um colegiado formado por sete professores – metade do corpo docente – passou a responder coletivamente pela coordenação pedagógica. Essa mudança rompe com um modelo de liderança mais personalizada e busca distribuir responsabilidades de forma mais horizontal. “Foi uma grande mudança que no início deixou a gente muito inseguro (…) mas, ao mesmo tempo, tem fortalecido a escola. As pessoas mudaram a relação de ‘eu estou aqui, venho dar minha aula’ para ‘eu sou responsável por esse projeto'”, afirma Carolina. O processo, ainda em ajustes, opera através de uma planilha digital compartilhada onde demandas pedagógicas são alocadas em tempo real, com definição de prazos, responsáveis e status – um sistema que tem fortalecido o senso de corresponsabilidade entre os educadores.

As ações socioeducativas do PAFE estão aproximando a Cirandas de escolas públicas

O segundo semestre foi marcado pela conclusão de uma formação continuada em educação inclusiva conduzida pelo PAFE (Programa de Apoio à Formação de Educadores e Educadoras), realizada em parceria com o Jardim do Beija-Flor e a Casa João de Barro. O curso, ministrado por uma pedagoga e uma psicóloga, culminou em um encontro presencial na Cirandas e deixou como legado materiais pedagógicos e uma contrapartida prática significativa: a escola identificou, através da Secretaria de Educação, a Escola Municipal do Cabral, localizada em um território quilombola em processo de regularização. Com apenas 35 alunos e sem atividades extracurriculares apesar do horário estendido, a escola recebe agora oficinas quinzenais de arte, música e teatro ministradas por professoras da Cirandas – um projeto viabilizado por uma carona solidária oferecida por uma mãe da comunidade. “Isso me deixou muito feliz… porque são crianças que precisam muito, e poder contribuir (com isso),  é o nosso trabalho fazendo sentido. A Escola Comunitária Cirandas precisa ser esse braço para a escola pública”, reflete.

Essas iniciativas estimularam a criação da Rede Saúva Paraty, que reúne instituições educacionais locais em busca de sinergias. O grupo, ainda em fase de estruturação, mantém diálogo constante via WhatsApp e prepara seu primeiro encontro presencial para definir objetivos comuns – um desdobramento natural do Encontro Presencial da Rede Saúva Jataí, que destacou a potência da colaboração entre projetos educacionais da região. Carolina diz que “a princípio, o grupo dialogou sobre a formação mesmo… a gente voltou (do encontro no Rio de Janeiro) nessa animação: ‘olha, a gente precisa se unir, precisa estar conectado e fortalecendo uns aos outros'”.

Carolina Fonseca admite que a transição para a direção tem sido desafiadora. Seu cansaço, explica, vem não do volume de trabalho, mas da complexidade em implementar efetivamente a gestão sociocrática. “A maneira como lidamos com a sociocracia, em vez de otimizar, acaba amarrando o trabalho”, observa. Para destravar processos, a escola conta com a consultoria de Anne Trummer, especialista em sociocracia, que ajuda a legitimar tomadas de decisão e documentar responsabilidades e autonomias. O grande desafio, segundo Carolina, é “organizar o modelo de gestão sociocrático para dar autonomia às pessoas exercerem suas responsabilidades com respeito, liberdade e autonomia”.

Apesar das dificuldades, a nova diretora surpreendeu-se positivamente com sua adaptação ao cargo. “Nunca me vi na direção escolar; sempre me vi como professora ou em sala de aula”, confessa, acrescentando que tem descoberto habilidades e competências para a função que não sabia ter. Seu entusiasmo se reflete nos planos para 2025/2026: a implementação do “Ciclo dos Adultos” (inspirado na experiência do Colo da Montanha), o fortalecimento da metodologia de projetos e a ambição de transformar a Cirandas em um polo formativo regional, oferecendo vivências pedagógicas presenciais para educadores de todo o Brasil – uma iniciativa que também representaria nova fonte de receita. “O reconhecimento e o pertencimento neste cargo têm sido uma surpresa muito boa. É o que tem me gerado força e esperança, inclusive pensar para além. Estou bem animada pensando no futuro da instituição”, conta Carolina.

Paralelamente, a escola enfrenta o desafio de revisitar sua estrutura contratual e documentos institucionais. A falta de uma visão mais consensual sobre direitos, deveres e combinados tem gerado confusão na comunidade escolar. “Muitas vezes as pessoas olham mais para seus direitos do que para suas responsabilidades e corresponsabilidades”, observa Carolina. Para resgatar o conceito de escola comunitária – especialmente importante pois os fundadores originais já não estão presentes no dia a dia –, ela planeja para 2025 uma série de encontros com ex-alunos, famílias e as fundadoras Mariana Benchimol e Fabiola Guadix, a Bio, para reforçar a identidade e os propósitos originais do projeto.

A Cirandas segue ainda envolvida em parcerias práticas, como a oferta de consultoria em editais e construção orçamentária para outras iniciativas que precisem desse apoio, como foi oferecido para o Instituto Educar+ em uma conversa no Encontro da Rede Saúva Jataí no início de setembro, entre Carolina e Ricardo da Cirandas e Tainá do Educar+. Esse tipo de interação demonstra como redes de colaboração podem gerar impactos tangíveis na educação enquanto a escola navega seu próprio processo de evolução institucional.

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