Matéria publicada em 16 de dezembro de 2022.
Num ano importante de retorno à convivência presencial de alunos e professores, a equipe pedagógica da Escola Comunitária Cirandas esteve envolvida, desde abril, numa reestruturação da gestão baseada na Sociocracia. A Sociocracia é um tipo de administração participativa que proporciona às pessoas a condição de não apenas participar do processo, mas também de gerir em conjunto, onde as decisões devem ser tomadas a partir da opinião dos representantes da comunidade escolar, num modelo coletivo de autogestão. Em outubro, a equipe apresentou a reestruturação para comunidade escolar e foram feitos os desenhos dos Círculos das Famílias, composto por representantes das famílias com o objetivo de promover a participação, integração e o acolhimento, assegurando os direitos e deveres que competem as famílias com a escola e a comunidade. O processo de entendimento de uma gestão sociocrata não é fácil, nem rápido, comenta Jussara Andrade, diretora da escola, mas aos poucos as famílias foram entendendo e contribuindo com a gestão, com os processos e tomando para si essa co-responsabilidade. Com isso, o círculo das famílias foi totalmente reestruturado, com as representações de cada grupo de estudantes, no movimento de fazer ações, no envolvimento com a captação de recursos e na proatividade da comunidade.
Em outubro, a Comissão de Contribuições também começou a discutir o orçamento de 2023 com a participação de toda comunidade e fizeram uma apresentação com a presença da Flávia Gríbel, da Associação de Fomento Saúva, que colabora no financiamento da escola. O entendimento é de que a Cirandas precisa se tornar mais autônoma, buscando sua sustentabilidade e isso foi trazido para a Comissão de Contribuições, composta por representes das famílias, direção administrativo financeiro, secretaria e círculo de planejamento para redistribuir as vagas entre a comunidade de forma justa e equilibrada social e financeiramente. “Quando fazemos uma entrevista (com uma família interessada em entrar para a escola), nós trazemos essa clareza de que somos responsáveis pelo nosso projeto, que precisamos fazer cada vez mais pra que ele esteja seguro e que possamos captar os nossos próprios recursos”, explica Jussara Andrade.
O momento atual é de fechamento de ano letivo e de dar os feedbacks para os colaboradores, que estão traçando seus planos e metas para 2023, onde podem melhorar ainda mais não só como indivíduos mas como integrantes do projeto. E essa fala cuidadosa tem sido feita com cada colaborador(a) através da comissão de gestão de equipe.
A Comissão de Contribuições está fechando o processo de renovação de matrículas e todos estão felizes porque somente duas crianças, das 60 matriculadas, não renovaram por motivos de logística e mudança. Jussara comemora que “isso mostra que a comunidade está junto, que acredita na nossa proposta pedagógica, que conseguimos fazer um bom trabalho e que também conseguimos identificar onde podemos melhorar nesse processo e no nosso trabalho”.

O momento também é de comemoração para os seis estudantes que estão se formando, indo para o Ensino Médio e tiveram uma celebração em dezembro. Essa formatura abre seis vagas para novos estudantes que, de acordo com Jussara, já estão sendo buscados ativamente e que, de preferência, estejam em situação de vulnerabilidade social. Para isso, estão buscando esses alunos junto ao Conselho da Criança e do Adolescente e à Rede Pública de Ensino de Paraty para dar essa oportunidade que o projeto possibilita. “Nós estamos nesse momento de entrevistas e busca ativa de trazer esse perfil, e cada vez mais diversidade e possibilidade de atender essa demanda porque sabemos que ela existe”, explica Jussara. Ela conta que muitas vezes essa demanda não chega até a escola porque as famílias que mais precisam não sabem do projeto da Cirandas e dos processos de inclusão, e a ideia é que a responsabilidade social da escola atenda esse grupo.
Em busca da autonomia financeira
O processo de autonomia financeira da escola é paulatino, mas em 2021 houve um avanço e nesse ano foi dado mais um passo nessa direção. Essa questão tem sido levada para a comunidade com o objetivo de aumentar cada vez mais as contribuições, não só financeiras mas de saberes também.
“Nós percebemos que existe uma demanda para nossa escola, que existe um público que gostaria de estar aqui e que precisamos traçar uma meta para 2023, seja para um outro prédio ou outra construção. (…) Para isso precisamos nos mobilizar para sair desse estágio que estamos (…) e chegarmos ao final do ano com essa capacidade de estarmos em outro local onde possamos atender a essa procura e demanda que já existem”.
Jussara Andrade – Diretora da Escola Comunitária Cirandas
Planejamento para 2023
O calendário letivo de 2023 já está pronto e disponibilizado para as famílias, que trazem seus seminários e fóruns. As atividades serão retomadas no dia 1° de fevereiro com três dias de encontro da equipe para trabalharem a gestão, consolidar e ajustar o que for preciso e também fazer a programação pedagógica.
“Nós não buscamos nenhum tipo de formação nesse período curto, é mais uma organização interna. A ideia é que no dia 14 de fevereiro tenhamos um encontro com toda comunidade e para isso já estamos buscando palestrantes e educadores que possam vir falar sobre as questões emocionais das crianças, que foi nosso maior desafio além do pedagógico e interferiu bastante em todas escolas”, explica Jussara. A Comissão de Sustentabilidade, junto com a comunidade, terá uma grande responsabilidade de traçar as metas e onde a escola estará no fim de 2023. O desejo da Cirandas é de estar em um outro local maior para poderem crescer, receber mais alunos e consolidar a escola.

A carência de professores que deixa crianças sem professores de certas disciplinas o ano inteiro, é uma situação que incomoda a todos. “Cada vez mais sabemos que estamos no caminho certo, não só por sermos uma escola comunitária mas principalmente na oferta de uma proposta pedagógica diferenciada. (…) Isso faz com que queiramos abraçar essa causa (alunos sem professores) e ver como poderíamos ajudar. Essa preocupação e inquietação é o que vai nos levar adiante”, reflete Andrade.