Matéria publicada em 12 de setembro de 2025.
O Encontro Presencial da Saúva Jataí realizado dias 5 e 6 de setembro de 2025 na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro, reuniu cerca de 90 pessoas de 28 iniciativas que compõem a rede. O planejamento e produção do evento, a cargo da Saúva, foi construído coletivamente contemplando sugestões enviadas pelas iniciativas. Os encontros presenciais realizados em 2023 e 2024 trouxeram boas colaborações para a construção e fortalecimento dos vínculos entre as iniciativas e entre as pessoas, e este não foi diferente. As dinâmicas, oficinas, reflexões, vídeos, filme, bate-papos, jogos, refeições e a confraternização puderam mostrar na prática todo o conhecimento, habilidades, produtos e valores que são criados e trocados diariamente entre os projetos.

Além de reflexões filosóficas e conceituais, os participantes mergulharam numa experiência sensorial, relacional e prática que mostrou a essência disruptiva da rede: das mãos na terra na oficina agroflorestal à alquimia dos óleos essenciais; das refeições coletivas com alimentos orgânicos das hortas apoiadas pela Saúva à troca de sementes; e da compostagem conjunta de resíduos orgânicos e emocionais à leitura oracular dos desafios coletivos através do Tarô da Muda Outras Economias.
Este encontro, além de reforçar vínculos, materializou na prática a Economia do Ciclo Espiral, propósito estrutural da Saúva e da Jataí; onde cada conceito e acordo firmado procura olhar para dentro, produzindo um mínimo de externalidades e fortalecendo o ecossistema de dentro para fora, com confiança e o apoio mútuo.



A abertura e falas de boas-vindas foram feitas pela Ana Paula Abreu, coordenadora da Comunicação, Flávia Gribel, gestora da Saúva e Leandro Almeida, fundador e gestor da Saúva Jataí. Em seguida, Marina Bezze, do Grupo Pedras de Teatro, conduziu um aquecimento corporal inspirado nas qualidades dos quatro elementos (terra, água, fogo e ar). Este momento despertou uma sensação de concentração, presença ativa e foco para as atividades que estavam só começando. Logo após, sob a direção de Gabriela Laborda, do Chat 21, as pessoas escreveram em um papel uma palavra que representava o que elas estavam sentindo ao chegar no encontro. A dinâmica foi retomada no encerramento: o novo sentimento ao final do evento. Gabriela propôs uma reflexão de como as sensações dos participantes foram alteradas do começo para o final, e do que foi preciso, da parte de cada um, para que essa mudança acontecesse.



Antes da parada para o almoço, Izabel de Barros Stewart, do Solo da Cana e conselheira da Saúva, propôs que cada iniciativa se reunisse e respondesse às perguntas: “Qual a sua área de atuação? A que ela serve? O que ela recebe? O que ela sustenta? E o que ela gera?”. Em seguida, os grupos se misturaram e responderam às mesmas perguntas, agora, sobre a Saúva Jataí como um todo. Cada grupo leu suas respostas que foram reunidas em um único documento. Daí abriu-se uma roda de discussão para saber se as pessoas se sentiam contempladas pelo que havia sido escrito e, finalmente, aprovar uma versão do documento. Esse momento proporcionou reflexões e colaborações importantes sobre representatividade, inclusão, objetivos, resultados, demandas e condições de existência da Rede Saúva Jataí. O momento final desta dinâmica foi uma leitura do que foi pactuado e o pedido de que as pessoas refletissem e internalizassem o documento.




Uma novidade de grande importância neste Encontro de 2025, foi que todas as refeições foram planejadas para utilizar o máximo de ingredientes agroecológicos produzidos pelas iniciativas e preparadas pelas cozinheiras da Cozinha Solidária de Paraty/RJ, Coletivo Mulheres em Ação, do Centro de Integração da Serra da Misericórdia/RJ, e UJIMA – Cozinha Viva, de Nova Lima/MG – tudo com o incentivo e coordenação de Sandra Gonçalves, que compõe a equipe Saúva. Outro diferencial este ano foi a parceria com um Hostel onde as 42 pessoas de fora do Rio de Janeiro tiveram a oportunidade de se hospedarem juntas, o que possibilitou trocas para além da programação do encontro.


Após o almoço do 1º dia, Vera Froes, da Viridis, preparou e serviu um chá de alecrim, menta e canela; ervas aromáticas estimulantes, que trazem alegria e foco. Paulo Sérgio Pires, que compõe o núcleo de comunicação, leu um belo texto preparado com o suporte da jornalista colaboradora Luana Abreu (responsável pelos registros audiovisuais do evento). O texto enfatizou características e peculiaridades da Rede Saúva Jataí, seus objetivos, desafios e a importância das sinergias e da comunicação para o seu fortalecimento. Falou também da Economia do Ciclo Espiral, da tentativa de promover autossuficiência comunitária, distribuição justa de recursos e autonomia progressiva, superando o assistencialismo. Reforçou a importância de conectarmos iniciativas isoladas através de mediadores ativos, rituais de afeto e uma plataforma digital, transformando projetos individuais em coletivos com respostas concretas para os complexos desafios atuais.


A próxima atividade, conduzida por Sandra Gonçalves, da Saúva, foi um jogo integrativo e colaborativo onde foram formadas duas rodas e cada pessoa recebeu uma bolinha. A dinâmica consistia em passar a bolinha para o(a) colega da direita e receber simultaneamente do(a) colega da esquerda num ritmo determinado e constante. A dinâmica de passar e receber, num ritmo que foi aumentando paulatinamente, exigiu um certo tempo para compreensão, absorção e uma realização harmônica. A dinâmica trabalhou a confiança e a doação.

No entardecer, e como encerramento do dia, foi exibido o documentário “Nhemongarai”, com direção de Kasia Mitch e Débora Saraiva. O filme retrata e documenta o ritual Guarani do milho; o apoio da Saúva para sua distribuição coloca em prática o propósito da Saúva e da Jataí de conexão e apoio às causas indígenas como preservação da cultura tradicional. Após a sessão, tivemos um bate-papo com uma das diretoras para que as pessoas pudessem tirar suas dúvidas e curiosidades sobre o filme e os processos de produção.






O segundo dia do evento começou bem cedo com os participantes se dividindo em três grupos para as seguintes oficinas: 1) Culinária Panc – Planta Alimentícia Não Convencional – com Gislene Santos da UJIMA; 2) Óleo essencial de Aroeira com o ativista Hauley Valim; 3) Mão na Terra com Denise Amador, Rodrigo Junqueira, João Portela e Elen Romo, do Mutirão Agroflorestal. Hauley contou da iniciativa Jardim Regenera, dos processos regenerativos desenvolvidos após o rompimento da Barragem de Fundão, em Mariana/MG e dos trabalhos de resistência do Ciclo da Aroeira. Ele explicou as características, benefícios e processos de produção do óleo essencial de Aroeira Vermelha. A oficina de culinária PANC com a Gislene produziu um biscoito de polvilho com a Chaya, uma PANC colhida na própria Fundição Progresso, e um brownie de chocolate. E a oficina do Mutirão Agroflorestal realizou podas e plantios na área do Jardim de Chuva da Fundição.


Antes do almoço, Ruy Bonates e Pedro Valente falaram dos Fundos de Investimentos da Jataí – Fundo Previdenciário Futuro Jataí e Fundo Jataí Futuro Ancestral – além de uma prévia do novo fundo ainda em fase de implantação: Fundo Jataí Economia Azul. Ruy falou da importância da educação financeira e dos perigos do endividamento para a sociedade em geral, especialmente com cartões de crédito e empréstimos num momento de juros desfavorável. E, juntamente com Leandro Almeida, relembraram o retroalimentar entre Saúva e Jataí e da importância do fortalecimento da Jataí para que a Saúva consiga manter e ampliar seus fomentos, apoios.



Após o almoço, a dinâmica Formigas e Cigarras, conduzida por Adriana Schneider da Muda, trouxe o Tarô da Muda, um oráculo semelhante a um Tarô, produzido por ela mesma e outros integrantes da iniciativa a partir da colagem de palavras e imagens em 22 cartas. Essas cartas foram viradas para baixo, embaralhadas, e pessoas aleatórias foram escolhidas para retirá-las representando a pergunta que foi elaborada pelo grupo, que foi: Quais os desafios para o fortalecimento da Rede Saúva Jataí? As cartas foram sendo colocadas em quatro campos: o contexto/entorno, o coletivo presente, a crise/conflito, a direção/caminho e a síntese. A cada carta virada, os participantes foram elaborando, refletindo e imaginando o que aquela palavra poderia significar para o fortalecimento da Rede.



Depois do lanche, todos integrantes foram conduzidos para a varanda da Fundição, onde o Régis Furquim e Gustavo Lanza conduziram a dinâmica da Compostagem Terra Orgânica. Para essa dinâmica, explicada no dia anterior, foram recolhidos todos os resíduos orgânicos produzidos durante o encontro, no Hostel e também de quem quisesse trazer de casa. Foram reunidos aproximadamente 60 litros de resíduos nas bombonas cedidas pelo Ylê Asè Egi Omim. Régis foi traçando as semelhanças entre os processos de compostagem do composto orgânico e dos processos de elaboração e transmutação das emoções. Cada participante escreveu em um pequeno papel algumas emoções, de preferência aquelas que não são tão boas ou fáceis de lidar, e algumas potencialidades ou qualidades. Os papéis com as potencialidades foram colocados na “cama” de folhas secas e os papéis com as emoções desafiadoras foram colocadas no meio dos resíduos, que foram misturados com inoculante (terra já em processo de degradação, cheia de bactérias e fungos), mais serragem e folhas secas, e finalmente cobertas por folhas secas, formando a “leira” de compostagem.



Um dos momentos mais tradicionais dos encontros é a troca de sementes entre as iniciativas, principalmente para aquelas que lidam diretamente com a produção agroecológica de alimentos. Neste ano, mais de dez iniciativas trouxeram sementes e mudas de diversas espécies, muitas delas raras. Todos puderam compartilhar as sementes e suas histórias, como sementes que vieram dos encontros anteriores e que já estavam produzindo para serem compartilhadas novamente. Um momento marcante em os valores da Saúva Jataí, como diversidade, inclusão, abundância, partilha, decolonização, regeneração, investimento no futuro e alimento saudável estavam materializados naquelas sementes dispostas numa mesa.


Flávia Gribel fez uma fala de encerramento ressaltando sua satisfação e gratidão por todos os momentos vivenciados no encontro e do caráter coletivo para que ele fosse tão exitoso. Leandro Almeida fez uma fala de agradecimento e contou que faz aproximadamente 15 anos que as primeiras conexões foram feitas para a construção da Saúva Jataí. Falou da sua gratidão pelas pessoas que confiaram e começaram essa história e pelo trabalho de todas as iniciativas para que a rede continue se fortalecendo, trazendo oportunidades de transformação social e significado para suas vidas.



A festa de Confraternização coroou o Encontro 2025 da Rede Saúva Jataí com um belo jantar, brindes e muita música animada. Uma oportunidade de conexões livres, com muita conversa, dança e diversão O sorriso estampado no rosto de todas pessoas demonstrava a alegria de estarem juntas, compartilhando dos mesmos propósitos, e com a sensação de missão cumprida. Uma construção coletiva com resultados verdadeiros que inspiram e comprovam que o investimento mais valioso está nas relações que geram redes de conexão e transformação. Nada é mais importante do que a presença!



