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Débora Saraiva desenvolve ações com mulheres, crianças, jovens e povo Guarani

A ativista e educadora de Paraty trabalha como professora, gestora, mobilizadora e documentarista

Matéria publicada em 22 de dezembro de 2022.

Débora Saraiva é moradora de Paraty/RJ, estuda licenciatura em Sociologia, é professora na Escola Comunitária Cirandas e realizou oficinas na Escola Municipal do Quilombo do Campinho (nesta como contrapartida do programa PAFE, de formação de educadores financiado pela Saúva), participa do planejamento e gestão da Cirandas e é mobilizadora do Grupo percussivo de Mulheres Mutuan. São estes alguns dos trabalhos que inspiraram a Associação Saúva no desenvolvimento da Bolsa de Ativismo, uma ajuda financeira mensal para que pessoas dedicadas possam se empenhar melhor nas tarefas e causas que abraçam.

Débora conta que 2022 foi de muita dedicação e intensidade: segundo ano do curso universitário; aulas nas duas escolas; planejamento, círculo pedagógico e gestão na Cirandas; também participou do Cirandas de Portas Abertas, que promove cursos de teatro, música e palhaçaria fora do horário escolar; campanha de suporte para as pessoas atingidas pela enchente que castigou Paraty no começo do ano; e ainda atuou como mobilizadora em ações sociais para mulheres, uma delas direcionada para as que estão em situação de vulnerabilidade e outro com foco na percussão e canto (Grupo Mutuan). Este trabalho começou há um ano com um grupo de 15 a 20 mulheres, e, hoje, recebe um grupo com mais de 40 mulheres. São encontros quinzenais com uma variedade muito grande de perfis, professoras, cozinheiras, psicólogas, artistas, musicistas, pesquisadoras… A ativista conta que este grupo se tornou uma central de apoio e de saúde mental no município. E como se não bastasse uma agenda cheia assim, Débora ainda é co-criadora de um grupo de acompanhamento de ex-alunos do ensino fundamental da Cirandas: desde a pandemia, os jovens receberam acompanhamento durante o ensino médio. Esta finalizando um documentário com o povo Guarani Mbya, da região de Paraty.

Nas aulas de percussão, Débora pratica com os estudantes ritmos e músicas da cultura popular brasileira

Rede Saúva Jataí

Débora considera a Bolsa Ativista fundamental: “Para estudar e conciliar tudo que eu faço (a maioria destas ações ainda não rendem financeiramente) foi primordial o apoio da Saúva. Sem este apoio, eu não teria conseguido seguir com nenhuma das minhas ações; eu sou muito grata mesmo! O suporte da saúva foi meu pilar para conseguir respirar para fazer tudo que fiz”. E ela acrescenta que o fato de estar dentro de uma rede (das iniciativas que tocam a Associação Saúva e o banco de investimentos Jataí) é muito inspirador porque participa dos encontros No Coreto (eventos mensais via Zoom), tem contato com outros profissionais, ativistas e iniciativas: “acabei de voltar da Fazenda São Luiz, da Potô e do Rodrigo, onde teve o evento do Arte na Terra (projeto educacional imersivo de arte e agrofloresta); e estava com toda a galera da Muda (Comunidade de moeda complementar). É muita inspiração, muita gente fazendo trabalhos fortes e significativos. Então isso me motivou muito. O grupo dos ativistas também que nós temos só tem potência e trocamos muito ali dentro (dos encontros entre eles) e vamos nos inspirando. Acho que esta rede colabora diretamente e indiretamente. E este colaborar indiretamente, que vai para o lúdico, de novas ideias e novas propostas, isso tudo foi um impulso para passar mais este ano”.

Grupo Mutuan

Para 2023, Débora Saraiva diz que vai se concentrar muito nos trabalhos que precisa realizar: “eu quero, este ano, atirar flechas no alvo certo: me dedicar a minha formação na faculdade; à ação na escola, acompanhamento dos jovens e com muita energia; também ao Mutuan. Além disso, quero fortalecer os grupos onde estou trabalhando para que a gente possa melhorar; para que a gente atinja nossa sustentabilidade e possa também apoiar muito mais as nossas redes. Outra expectativa que eu tenho é de uma parceria mais forte e mais estreita com a Rede Alegrias (Moeda complementar de Paraty): vamos adotar a moeda como forma de contribuição.

Impacto das ações

Débora Saraiva explica que o impacto destas iniciativas é difícil de mensurar; porém, sabe muito bem da importância de estudar: “ter um futuro, que pela regra social, seria lugar onde eu não conseguiria estar, seguir emfrente e estudando já é um grande impacto. É uma das maiores ações: estudar. Tenho 42 anos e não tinha feito uma faculdade ainda. E eu não fiz porque eu não quis: eu não tinha grana. Eu venho de uma família muito humilde e acredito que sou a primeira mulher da minha família que está fazendo faculdade. Então, esta é uma grande vitória para mim e para toda a minha egrégora, que eu consiga estudar e seguir em frente, se eu consigo, eu amplio a minha rede, tenho mais qualidade técnica para atuar tornando o meu entorno melhor”, explica a educadora.

Outro destaque é o grupo de mulheres Mutuan. São 55 mulheres participantes, com 45 ativas atualmente. E, além delas, filhos, maridos, companheiros, famílias e as redes que elas abarcam como psicólogas, cozinheiras, faxineiras, professoras, artistas: todo esse universo é impactado quando elas estão bem de saúde mental e força. O reflexo da ação do grupo com a música é sentido em casa, no trabalho e no cotidiano de uma rede maior de conexões e necessidades reais.

Documentário

A ativista trabalha na finalização de um documentário sobre o Nhemongaraí (Batismo do Milho), a cerimônia mais importante do povo Guarani-Mbya.

Outra atividade à qual Débora também se debruça agora é a finalização de um documentário sobre o Nhemongaraí (Batismo do Milho), a cerimônia mais importante do povo Guarani-Mbya. Ela conta que este foi um processo de pesquisa de 5 anos junto à aldeia guarani-araponga, que fica na região de Paraty. É o primeiro longa-metragem dela como diretora e será lançando com o nome de “A força da semente”. “Este filme também tem um impacto muito grande por registrar esta festividade de dentro”, explica. “O pajé, seu Agostinho Kara’I Tataendy já está com mais de 100 anos e este registro é fundamental para a memória do nosso povo: impacta a aldeia e a comunidade de Paraty pois terão oportunidade de conhecer e participar desta cerimônia, da casa de reza. É um impacto muito positivo, não só para a memória imaterial deste povo, mas também num contexto de registo para escolas e todo mundo que vai poder assistir. Vamos em janeiro,  pro festival Nhemongaraí, entregar pro seu Agostinho e pra dona Marciana, que são os pajés, o documentário “A força da semente”, planeja a ativista.

Bolsa Ativistas da Saúva

A Associação Cultural Saúva ajuda a promover iniciativas de impacto positivo e regenerativas através de Bolsas de Ativismo. São propostas de ativistas que promovam transformações reais em suas comunidades nas áreas de Agricultura Agroecológica, Educação, Iniciativas Artístico-culturais, Plataformas Colaborativas/Moedas Complementares e Apoio a Povos Tradicionais.

Em 2023, a Associação Cultural Saúva irá apoiar 6 ativistas com uma bolsa mensal para o desenvolvimento e manutenção das atividades durante um ano. Como contrapartida, os selecionados trarão um pouco da expertise de cada um para fortalecer as iniciativas da Rede Saúva Jataí através de articulações proativas e estimulando a circularidade das ações.

Esta ação teve início em 2022, com apoio a ações de 5 ativistas: Dudude Herman (Dança e afins), Mônica Calderón (moedas complementares, educação e atividades em rede), Sandra Gonçalves (Finanças), Organicidade (Agricultura Orgânica Urbana) e Débora Saraiva (Educação).

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