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Das negociações globais às raízes locais: o avanço da agricultura familiar nas negociações da COP30 e os 30 anos do Mutirão Agroflorestal

Matéria publicada em 19 de dezembro de 2025.

Enquanto o mundo se acostumava a ver as COPs como arenas de metas técnicas e compromissos governamentais distantes, uma ausência gritante persistia nos corredores oficiais: o tema da agricultura familiar. Pela primeira vez, na COP30 realizada na Amazônia, essa base real da produção de alimentos e da sociobiodiversidade ocupou espaço na agenda oficial, graças à incansável pressão de movimentos sociais brasileiros. Para Denise Amador, do Arte na Terra, Plante Rio e Mutirão Agroflorestal, que em 2025 completa 30 anos, a conquista é emblemática de um lento, porém firme, reposicionamento das pautas dos povos. Em paralelo às negociações por décimos de grau de aquecimento do planeta, ela testemunhou a potência da Cúpula dos Povos e articulou, ao lado do MST, estratégias para escalar a agrofloresta no país. Sua fala revela um movimento em dupla via: a inserção de temas fundamentais nos espaços de poder global e, ao mesmo tempo, o fortalecimento orgânico das redes que, no chão da roça e das periferias, já constroem há décadas os caminhos para um futuro de fato sustentável.

Denise esteve presente tanto na Zona Azul (espaço realizado pela ONU onde acontececem as negociações) quanto no espaço paralelo e vibrante da Cúpula dos Povos, que ela define como o lugar da resistência e do contrapoder, “com o pé no chão”. Foi nesse ambiente, marcado pelas marchas pelo clima e a presença massiva de povos indígenas, que o Mutirão Agroflorestal, uma rede com três décadas de existência, mas perfil discreto – “a gente não faz marketing” -, viu sua proposta de atividade ganhar um alcance inesperado. A organização da Cúpula propôs um enlace do Mutirão com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na atividade proposta.

“Juntaram, então, o Mutirão com o MST nacional — uma organização imensa”, conta Denise. A atividade, que reuniu entre 130 e 150 pessoas mesmo em um horário desfavorável no dia da grande marcha pelo clima, promoveu um diálogo fértil sobre “como avançar na adoção de mais agroflorestas no Brasil pela agricultura familiar”, discutindo desde ações em escala local até políticas públicas. “Não saíram grandes soluções, mas várias ideias foram apresentadas e refletidas”, ressalta, destacando que uma sistematização desse debate está em andamento.

A força das redes no território  

Além do momento internacional, Denise destacou a força da rede enraizada. Em Belém, o núcleo local do Mutirão ancora a Rede de Mulheres Agroflorestoras do Pará (RAMA – Pará). “É uma mulherada muito incrível”, descreve, contando sobre os encontros na casa da parceira Helena Maltez, onde a troca de saberes entre mulheres de diversas origens — das mais ligadas à terra às mais urbanas, mas com “pé na terra” — foi intensa e muito rica.

Refletindo sobre o contraste entre os espaços, ela pondera: “A gente vê que, realmente, é um dinheiro imenso gasto (na COP oficial) para algo que não avança muito”. No entanto, valora a importância dos encontros e da pressão política em momentos como esse. Para ela, espaços como o Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA) são igualmente vitais, por nos “nutrir” e mostrar “quanta gente está nessa luta, quanta gente está nos desafios, nas lutas e conquistas da Agroecologia”.

O diálogo necessário da Agrofloresta e Agroecologia    

Denise trouxe à tona uma reflexão interna ao movimento: a relação, por vezes tensionada, entre a Agrofloresta e a Agroecologia. “A Agroecologia foi se consolidando num campo muito político e a Agrofloresta nem sempre está nesse campo tão político”, observa, mencionando que em alguns círculos a agrofloresta é vista como mais “despolitizada”. A posição do Mutirão é clara: “A gente está falando de agrofloresta agroecológica… uma agroecologia que está até num passo além, porque conduz a agricultura dentro da dinâmica da natureza, dos processos culturais”. Ela sugere que o tema vale um aprofundamento no grupo das Saúvas Agroecológicas, para aumentar o repertório coletivo.

30 anos de Mutirões Agroflorestais       

Por fim, Denise fez um anúncio especial: em 2026, o Mutirão Agroflorestal completa 30 anos. “A gente vai ter vários eventos e celebrações”, adiantou, convidando toda a Rede Saúva Jataí a partilhar e celebrar essa trajetória longa e fecunda. A reunião encerrou com o sentimento de que, apesar dos gigantescos desafios globais e da lentidão das estruturas oficiais, o trabalho persistente de articulação, diálogo e ação concreta nas comunidades — como o que é feito há três décadas pelo Mutirão — é o solo vivo onde, de fato, as transformações germinam e se fortalecem.

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