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Cria Encena dá voz e espaço às crianças em processos de criação teatral “de verdade”

Matéria publicada em 10 de novembro de 2025.

Um pedido direto e sincero – “a gente quer fazer teatro de verdade” – foi a semente que germinou e se transformou no Cria Encena, um projeto inovador que nasceu na Comunidade de Aprendizagem Colo da Montanha, em Teresópolis (RJ), encarando a criança como um artista em formação. Saindo do ambiente escolar e ocupando a Casa de Cultura Adolpho Bloch a iniciativa criou uma companhia teatral de crianças e jovens que já tem agenda de espetáculos, unindo, em seu fazer, desde cosmologias afro-ameríndias até uma economia solidária que remunera artistas com a moeda social Muda.

O projeto Cria Encena, Teatro para a Infância surgiu após vivências das crianças com a linguagem teatral. Ali, elas foram categóricas: queriam fazer teatro na rua, no palco, “de verdade”. Atendendo a esse chamado, a atriz e arte-educadora Bruna Brasil foi convidada a criar o projeto, que começou dentro da escola como “Colo em Cena” e, em 2025, evoluiu para uma companhia independente com residência na Casa de Cultura Adolpho Bloch, por meio de uma parceria do Ponto de Cultura Colo da Montanha com a Secretaria Municipal de Cultura.

“Eu super entendo esse desejo das crianças de ter o seu trabalho visto e desenvolvido como algo de verdade e não de brincadeira. Por mais que exista muita verdade na brincadeira, a criança muitas vezes quer sair desse lugar e sim ser enxergada como alguém que está fazendo uma coisa para valer”, explica Bruna, que começou sua própria trajetória no teatro aos nove anos com a mesma inquietação.

Do corpo-território às cosmologias afro-ameríndias

A metodologia do projeto é colaborativa e guiada pelos interesses das crianças. O primeiro espetáculo do Cria Encena, a performance “Corpo-Território – Identidades Brasileiras”, partiu de uma provocação da própria Bruna – que convidou as crianças a raspar o cabelo da diretora no palco – para discutir limites do corpo, identidade e história do Brasil. O processo resultou em um grande mapa do Brasil costurado em tecidos pintados com as expressões de identidades do corpo-território das crianças.

Corpo-território Identidades Brasileiras
Pesquisa do espetáculo “Assim dizia minha avó”

Já o espetáculo do fim deste ano, intitulado “Já Dizia a Minha Avó: Cosmologias Afroameríndias”, foi totalmente demandado pelo grupo. As crianças pediram uma peça contada por avós, que reunisse diversas culturas populares. Artistas e familiares foram convidados a contribuir, trazendo narrativas como a origem africana do tambor, a história iorubá de como os ibêjis enganaram a morte (Ikú), e a cultura Mebengokre sobre a chegada dos humanos na terra a partir do buraco do tatu. A peça, que será apresentada na Casa de Cultura no dia 29 de novembro, encerra com a noção do povo indígena Huni Kuin dos 5 tempos históricos. Segundo estes, nos encontramos atualmente na era da troca de saberes entre gerações e diferentes culturas.

Visita da família Huni Kuin

Uma companhia que funciona como um ecossistema

O Cria Encena opera com a lógica de uma companhia profissional. Atualmente, atende 34 crianças, de 6 a 16 anos, divididas em duas turmas. A proposta é inclusiva: “Nossas portas são abertas, a gente acolhe todo mundo”, afirma Bruna. As famílias são bem-vindas não só para assistir, mas para participar ativamente, atuando, confeccionando figurino ou criando cenários.

Um dos pilares do projeto é o “rodízio de artistas”, onde profissionais locais de diversas áreas – como dança, música, cenografia, consciência corporal e artes visuais – são convidados a ministrar oficinas que ampliam o acesso a diferentes expressões artísticas. A remuneração é feita através da moeda social Muda, em um exercício prático de economia solidária que amplia o entendimento econômico da comunidade.

“Cada pessoa que chega, eu digo que pode chegar no seu tempo… e a gente remunera via moeda social Muda. Você consegue retirar uma cesta de orgânicos a cada 15 dias, você consegue oferecer outros serviços na plataforma”, detalha Bruna. O projeto busca, paralelamente, cadastrar-se em leis de incentivo para conseguir recursos em moeda formal e sustentar a produção, enquanto os participantes vão entendendo como funciona a plataforma da Muda Outras Economias.

“Tem um tempo para esse hábito entranhar, começar a fazer parte. Para as pessoas expandirem o seu repertório econômico e entenderem que nem tudo é Real. Mas o Real também é importante, a gente entende isso. O dia em que a gente conseguir juntar a Muda com o Real, vai ter mais engajamento, porque as pessoas vão ter mais disponibilidade e tempo para se dedicar ao projeto”.

Bruna Brasil – Cria Encena

Educação e Cultura: uma relação indissociável

Para todos os envolvidos no projeto, a separação entre educação e cultura é artificial. “Eu não enxergo possibilidade de qualquer tipo de educação sem cultura. A educação prescinde demais da cultura para acontecer”, reflete Sayuri Kimura, da Escola Colo da Montanha, responsável financeira pelo Cria Encena. Segunda ela, no lugar de se assumir a cultura como parte dos processos educativos, mais interessante seria a compreensão da cultura como ferramenta de apropriação pedagógica. Nessa linha, diversas oficinas no âmbito do projeto foram realizadas para expandir o repertório cultural e técnico dos artistas, como kabuletê, papel machê, e as noções de boi de jaraguá segundo a tradição do Mineiro-Pau, de origem quilombola.

Sayuri acrescenta que a Bruna trouxe essa diversidade de saberes para o grupo escolar através dos tutores, das conexões com a comunidade de artistas e das famílias da escola: “A verdade é a diversidade do Colo da Montanha, dos adultos. É o ciclo 4, interagindo com esses projetos”, explica, referindo-se à divisão etária da comunidade de aprendizagem, que distribui as crianças entre os chamados ciclos 1,2 e 3.

Ela complementa: “Se a gente pensar que cultura vem desse cultivo e de tudo que escolhemos e aprendemos a fazer – a educação é cultura. Nós criamos um jeito, estamos aí nesse processo de revolucionar, de fazer diferente, de resgatar o que estava lá atrás que era importante”. O Cria Encena materializa essa visão, tornando a lei que inclui a cultura afro-brasileira e indígena no currículo escolar uma vivência orgânica, fluida e pulsante, impulsionada pela curiosidade das crianças.

O projeto já planeja o futuro. A expectativa para 2026 é conseguir captar recursos e colocar a peça “Já Dizia a Minha Avó” em cartaz, proporcionando às crianças a experiência da repetição e da rotina de uma companhia profissional. “Cada espetáculo é único. Eu gostaria que elas experimentassem que você não teve um trabalhão para construir, apresentar uma vez e acabou”, sonha Bruna. O sucesso do Cria Encena aponta para a direção de que, quando a voz das crianças é levada a sério, a arte que nasce é não só “de verdade”, mas também transformadora.

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