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Comunidades Agroecológicas mostram na prática o caminho para a organização de redes colaborativas e soberania alimentar

Matéria publicada em 11 de julho de 2025.

Na paisagem diversa de Santa Catarina, onde urbano e rural se misturam, uma rede vibrante de Comunidades Agroecológicas vem construindo alternativas concretas ao sistema alimentar dominante. Em março de 2025, no primeiro encontro do ano, foi firmado o compromisso entre quatro territórios distintos pela luta por terra e território, consolidando uma aliança que fortalece a soberania alimentar por meio de mutirões, sistematização das experiências e comunicação ativa.

Nesta matéria, Cíntia Mendonça e Edson Prado mostram que é possível construir sistemas alimentares justos e sustentáveis, provando que o trabalho em rede promove transformações quando se unem conhecimento tradicional, agroecologia e mobilização comunitária.

A articuladora das Comunidades Agroecológicas, Cíntia Mendonça, explica que a iniciativa surgiu da necessidade urgente de transformar a lógica do sistema alimentar hegemônico, baseado no agronegócio, desmatamento e concentração de terras para monocultura e commodities.

“Com a urgência de promover uma transição agroecológica, fortalecendo a agricultura familiar e os territórios, surgiu em 2019 a ideia de cultivar alimentos sem veneno, gerar renda para as famílias agricultoras e, ao mesmo tempo, regenerar os biomas com sistemas agroflorestais. Quem adere aos planos de cestas no modelo CSA é convidado a ser mais do que consumidor: é coagricultor, participando do planejamento e dos plantios nos mutirões, mobilizando assim pessoas para somar às lutas em defesa desses territórios e da agroecologia”, conta Cíntia.

Escuta, compromisso e respeito

Hoje, a rede conecta organicamente o território da Casa de Passagem Indígena e Ponto de Cultura Goj Ta Sá — primeira retomada indígena de Florianópolis —, a Aldeia Tava’í (povo Guarani, em Canelinha), o Território Guarakã (agricultura familiar e práticas tradicionais no Maciambu Pequeno, em Palhoça) e o espaço do Laboratório Terra Orgânica no bairro Campeche.

Essa integração se consolida na prática por meio de mutirões mensais cuidadosamente planejados, onde pessoas da cidade, agricultores e povos originários trabalham lado a lado. Cada território recebe atenção conforme suas necessidades específicas. Exemplo disso foi a recente ação na Aldeia Tava’í, onde uma vaquinha via PIX arrecadou R$ 1.000 para compra de calcário, insumos, combustível para roçadeira e implantação de uma horta comunitária com 2.000 mudas.

Os resultados dessa rede estruturada são palpáveis e documentados. Todas as quintas-feiras acontecem as Quintas Agroecológicas no Goj Ta Sá, reunindo cerca de 20 pessoas para atividades que vão desde gestão de resíduos orgânicos até cuidado com áreas de plantio. Essas ações são sistematizadas e registradas em relatórios mensais, publicados no início de cada mês nas páginas das Comunidades Agroecológicas e dos demais coletivos que integram a rede.

O Goj Ta Sá também recebe o 1° Passo Reflorestar, que é um projeto iniciado por estudantes da UFSC com o objetivo de promover o agroflorestamento urbano em Florianópolis, fortalecendo a segurança alimentar e climática. A iniciativa alia formação teórica e prática em reflorestamento, permacultura e agroecologia, com ações concretas como a manutenção do SAF Cambucá e o cultivo agroflorestal no espaço Goj Ta Sá.

“O que nos une é a confiança construída ao longo dos anos com as lideranças territoriais. Todas as pessoas e coletivos que chegam são bem-vindos! Buscamos realizar reuniões para alinhar o projeto da Casa de Passagem, previsto no acordo entre Ministério Público Federal, lideranças indígenas, professores da UFSC e a Prefeitura, sempre respeitando o desenho do espaço que a comunidade almeja. Por exemplo: na área definida para reflorestamento, a comunidade expressou o desejo de construir uma quadra de futebol. O Edson já foi lá com a roçadeira demarcar o espaço, evitando plantios no local errado. É trabalhoso, mas nosso propósito comum — fortalecer as lutas por terra e soberania alimentar — nos mantém unidos”.

Cíntia Mendonça – comunidades agroecológicas

Comunicação verdadeira e transparente para combater o oportunismo

A comunicação é pilar fundamental nesse trabalho. O grupo mantém registros fotográficos detalhados, edita e publica vídeos dos mutirões nas páginas da aliança, além de listas de presença e relatórios que documentam cada etapa do processo.

Edson Prado, gestor do Laboratório Terra Orgânica, destaca a importância da constância na comunicação: “Estabelecemos um dia fixo para organização, as quintas-feiras no Goj Ta Sá. Vivemos na era da imagem, então precisamos registrar tudo, mas evitando o ‘ativismo de foto’ — aquele em que as pessoas aparecem, fazem um vídeo bonito e depois somem, deixando plantas morrerem”, explica.

Para sustentar e ampliar o trabalho, as Comunidades Agroecológicas com o apoio da Akom Tecnologia preparam seu primeiro financiamento coletivo no site da Saúva, com meta de arrecadação inicial que garanta R$1.000 mensais. “Doações de R$15 podem comprar 100 mudas ou dois litros de gasolina para o transporte dos voluntários para os mutirões”, comenta Edson.

O fundo arrecadará recursos prioritariamente para transporte, alimentação em mutirões e insumos, mas também atenderá demandas emergenciais nos territórios, como a recente necessidade de telhas para uma construção em Canelinha.

Cíntia conta que recentemente foram firmadas parcerias significativas: uma instituição vai doar 600 árvores nativas para reflorestamento, selecionadas pela comunidade, e o programa Cultiva Floripa da Prefeitura já forneceu cepilho, composto e mudas.

“Nosso primeiro objetivo na aliança é garantir soberania alimentar mínima em todos os territórios — mandioca, abóbora, entre outros — reduzindo a dependência do mercado. Em Florianópolis, queremos dar visibilidade à presença indígena, transformando o Goj Ta Sá num ponto turístico de base comunitária. Queremos criar uma cultura do comum, com almoços comunitários após mutirões, contrastando com o individualismo urbano. Também buscamos encurtar os circuitos de comercialização, evitando que produtos viajem desnecessariamente antes de chegar ao consumidor local.”

Edson Prado – Laboratório Terra Orgânica

O que começou como uma iniciativa local focada em cultivo, logística e comercialização de cestas agroecológicas expandiu-se e se transformou em uma rede robusta que combina saberes tradicionais, técnicas agroecológicas e mobilização comunitária.

Longe de ser invisível, essa rede mostra na prática — e com transparência — que é possível construir sistemas alimentares mais justos e sustentáveis, onde o conhecimento circula tão livremente quanto a solidariedade e os alimentos que produz.

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