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Como a formação coletiva em inclusão, fomentada pelo PAFE, está fortalecendo e integrando as escolas de Paraty

Matéria publicada em 3 de setembro de 2025.

Imagine uma rede de educadores que, em vez de enfrentar sozinhos os desafios da inclusão escolar, une forças para mergulhar a fundo em um dos temas mais urgentes da educação contemporânea. Em Paraty, três iniciativas educacionais – a Casa João de Barro, a Escola Comunitária Cirandas e o Jardim Beija-Flor – decidiram romper as barreiras institucionais e participar de uma formação coletiva pioneira, focada na inclusão de crianças com e sem laudo. Com o convite ao Instituto Apoiar, com vinte anos de experiência no tema, eles exploraram desde as exigências legais até as nuances antroposóficas do desenvolvimento infantil, tudo enquanto navegavam pela complexa relação entre escola, família e sociedade.

Este não foi apenas um curso; foi uma jornada de oito encontros que redefiniu limites, fortaleceu educadores e educadoras e revelou verdades necessárias: como incluir quando as famílias não se engajam? Como cumprir leis sem recursos ideais? O que fazer quando a teoria encontra a realidade das salas de aula? Esta é a história de como a formação coletiva apoiada pelo PAFE – Programa de Apoio à Formação de Educadores e Educadoras – está contribuindo com a qualificação continuada da educação em Paraty, uma conversa de cada vez, um desafio de cada vez, e mostrando que, mesmo na complexidade, é possível avançar com respeito, prática e união.

Os oito primeiros encontros da formação foram online

Em outubro de 2024, o edital do PAFE (Programa de Apoio à Formação) inspirou a criação de uma proposta ousada: uma formação coletiva para educadores de Paraty, focada em fortalecer a sinergia entre iniciativas apoiadas pela Saúva. A ideia, surgida de Monalisa Couto da Casa João de Barro, partiu de um desejo de “fortalecer a ligação, a sinergia entre as iniciativas apoiadas pela Saúva em Paraty”. Logo depois, foi feita uma sondagem com instituições locais, onde a inclusão emergiu como tema unânime e mais desafiador. Três iniciativas atenderam ao chamado – a Casa João de Barro (Instituto Brincarte), a Escola Comunitária Cirandas e o Jardim do Beija-Flor.

O Instituto Apoiar, indicado pelo Quintal Mágico e com duas décadas de experiência, foi escolhido para ministrar a formação. Sob a liderança de Paula Mourão e Natália Vello, a formação ocorreu de forma virtual, com oito encontros quinzenais entre fevereiro e julho, cada um com uma hora e meia a duas horas de duração. O recorte centrou-se na inclusão escolar, particularmente voltada a crianças com deficiência (com laudo ou não), mas abrangendo todas as crianças em suas individualidades. A abordagem combinou obrigações legais – como a elaboração do PDI (Plano de Desenvolvimento Individual) – com um olhar antroposófico, enfatizando a individualidade e complexidade humana. “Elas trouxeram tanto a prática quanto um olhar também muito complexo e acolhedor para o ser humano em si, com os aspectos de respeito e de um olhar muito profundo para a individualidade de cada um”, explica Monalisa. Apesar da metodologia Waldorf não ser seguida por todas iniciativas, a antroposofia ressoou com suas propostas pedagógicas, trazendo praticidade e bases teóricas para a atuação diária.

Os últimos encontros presenciais forma na Escola Cirandas

Um encontro presencial em agosto na Escola Comunitária Cirandas marcou o encerramento, com convite estendido a famílias e educadores não participantes. Contudo, a adesão familiar não foi como esperado, um paradoxo notado considerando a presença de crianças com deficiência nas instituições. Monalisa afirma que o entendimento das instituições é de que “cada um faz a sua parte, cada um trabalha de formiguinha, vamos lá fazer o que a gente pode. Mas foi um encontro bem bonito também, bem potente”. A formação fortaleceu educadores ao delimitar obrigações escolares versus familiares – por exemplo, a escola deve indicar a necessidade de acompanhamento terapêutico ou psicológico, mas não pode diagnosticar – e ao fornecer ferramentas práticas como registro de atas de reuniões.

Desafios como encaminhamento médico para famílias resistentes, casos de crianças não laudadas com comportamentos desafiadores, e a tensão entre inclusão e recursos financeiros limitados foram abordados. A formação não resolveu todos os problemas, mas ofereceu um direcionamento para ações mais assertivas, como a conexão de casos reais das escolas Cirandas e João de Barro com soluções práticas.

“Foi muito interessante e muito importante a gente, enquanto instituições de educação, entender as nossas obrigações, os nossos direitos e até onde vai a nossa possibilidade de ação, e até onde não vai também. Então, eu sinto que essa formação nos empoderou, enquanto instituição, gestão e corpo de educadores, para entender também esse limiar, sabe? As obrigações que somos obrigados a ter, senão estamos fora da lei, porque existe a lei de inclusão e tudo mais, como, por exemplo, um PDI, ou algumas coisas que são obrigatórias em escola”. Monalisa Couto – Casa João de Barro e Instituto Brincarte

Monalisa Couto detalhou os frutos do apoio recebido do PAFE (Programa de Apoio à Formação de Educadoras e Educadores), destacando a maior união entre os projetos locais. Como principal resultado, foi criada a Rede Saúva Paraty, um grupo que reúne as iniciativas locais de educação. O objetivo da rede é fortalecer e integrar as ações educacionais no município.

Um dos compromissos assumidos para este ano é a realização de um Encontro Presencial Local em Paraty, que acontecerá após o Encontro Presencial da Rede Saúva Jataí, no Rio de Janeiro. Este evento, que está previsto como uma contrapartida do projeto, pretende ampliar as conexões e manter as trocas sobre assuntos de interesse das iniciativas ligadas à educação.

Ela ressalta que a atuação do PAFE em Paraty não é recente, mas sim o ápice de “anos e anos” de trabalho. O programa tem um histórico de apoiar a formação individual de educadoras e educadores, financiando graduações e pós-graduações na área pedagógica. Muitas das profissionais que atuam nas escolas locais foram beneficiadas por essas bolsas de estudo, incluindo a própria entrevistada.

Uma das ações socioeducativas foi na escola pública parceira do Jardim do Beija-Flor

Além da formação, o PAFE também gera contrapartidas práticas para a comunidade. As três iniciativas que participaram levarão ações para escolas públicas. Como exemplo, a João de Barro realizará atividades de “brincar na natureza” em uma escola pública do entorno, oferecendo acesso gratuito a suas metodologias.

O PAFE, com anos de atuação em Paraty, mostrou sua potência não apenas na formação coletiva, mas no apoio a formações individuais de educadoras e em contrapartidas comunitárias. As três iniciativas agora preparam ações em escolas públicas, como brincar na natureza pela João de Barro. A Rede Saúva Paraty, incluindo o Quintal Mágico, continuará se fortalecendo com um encontro presencial local previsto, demonstrando que a união entre iniciativas educacionais gera frutos duradouros e transformadores. A inclusão, tema latente e necessário, ganha assim novos contornos – mais embasados, respeitosos e coletivos.

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