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Como a Escola Waldorf Quintal Mágico está transformando o sonho de uma nova sede em realidade

Matéria publicada em 15 de outubro de 2025.

A Escola Waldorf Quintal Mágico está focada na construção de sua nova sede, mas essa jornada não é fácil e nem simples. O projeto inicial teria um investimento muito grande, e por isso, foi preciso revisitá-lo e alterá-lo. Agora, a escola está com um projeto onde os pais fabricam tijolos ecológicos no novo terreno e erguem a nova sede em mutirões estratégicos, com módulos escalonáveis que já saíram do papel e pretendem entregar as primeiras salas de aula em janeiro de 2025. Para viabilizar a nova sede, a escola está com uma campanha de financiamento coletivo aberta no site da Associação Saúva.

A história do projeto anterior é um capítulo importante na jornada da escola. A atual sede foi construída em 2017 pelas famílias e levou 4 meses para ser executado através de mutirões. Entretanto ao longo dos últimos 8 anos, a escola cresceu e enfrentou alguns desafios de falta de espaço externo, salas pequenas para o tamanho atual das turmas, falhas na vedação acústica e qualidade ambiental.

Depois de passar por uma enchente em 2022, os gestores da escola perceberam que a escola precisaria de mais espaço do que o terreno atual podia oferecer. Com isso, foi criada uma comissão para buscar o crescimento espacial da escola e que viabilizou a doação de um terreno de 55.000m². Uma grande conquista que, hoje, a escola encontrou a fórmula para transformar seu grande sonho em realidade.

O projeto arquitetônico inicial foi um lindo sonho, porém foi tão grande, que não conseguiram alcançar, relembra Cristiane Rampinelli, do conselho diretor da escola. “Mas quando tentamos executar, tivemos muitas dificuldades. Apesar de ser maravilhoso o projeto, não conseguimos tirar do papel por questões financeiras”.

O processo de desapego foi doloroso, mas necessário. “Quando eu entrei no conselho diretor, em agosto de 2024, tentamos alterar para viabilizar, mas não conseguimos e em dezembro nos despedimos do projeto”, relata. A virada veio quando entenderam que precisavam construir não o projeto dos sonhos, mas o projeto possível.

O renascimento, da parte para o todo

Foi então que a escola decidiu voltar à estaca zero, criando o Núcleo de Arquitetura e Construção. “Fortalecemos esse grupo e demos permissão para ele sonhar novamente”, explica Cristiane.

O grupo realizou algumas reuniões com a equipe pedagógica para definir necessidades, analisou o que havia dado certo e errado nas construções anteriores, e incorporou todas as objeções e restrições num “olhar mais coeso com a realidade financeira”. O resultado foi um plano de obras completo que define todas as necessidades da escola – desde salas de aula, salas administrativas, até áreas de brincar, quadras e acessos. Porém o detalhamento de cada segmento está sendo projetado por etapas.

A estratégia construtiva de mutirões e tijolos inteligentes

A grande inovação veio na concepção construtiva. O projeto atual prevê módulos quase autônomos: três salas de aula para ensino fundamental, com banheiros, sala de professores e uma sala multiuso, tudo integrado por uma área coberta. Assim a transição de uma sede para a outra será facilitada.

A obra foi estrategicamente dividida em fases que alternam trabalhos especializados com momentos de grande mobilização comunitária. “Esse foi o jeito para conseguíssemos executar a obra com vários momentos de mutirão”, detalha Cristiane. A fundação, com suas 50 sapatas de concreto de 1x1m, foi o primeiro grande mutirão – 63 pessoas concretaram 40 sapatas em um único dia. As próximas etapas, de piso, colunas, telhado e paredes, também serão feitas em mutirão.

Porém, o diferencial do projeto é o tijolo ecológico que será fabricado no próprio terreno. “Nossa equipe do Núcleo de Arquitetura e Construção se juntou para ir buscar a prensa de tijolos e fazer o treinamento para fabricação de tijolos”, comemora Cristiane. Os tijolos, que tem composição aproximada de 30% barro, 60% areia e 10% cimento, serão fabricados no próprio terreno. “Os tijolos têm os encaixes, que funcionam como um grande ‘lego’ que facilitam na construção e permitem a passagem de instalações hidráulicas e elétricas sem necessidade de quebrar paredes”, explica.

“Às vezes você gasta um pouquinho mais de material, mas você economiza praticamente toda a mão de obra”. Esse é o modelo que estão apostando para viabilizar a construção da escola, com baixo custo.

Viabilidade e entusiasmo

O novo projeto para aproximadamente 300m² foi orçado em R$ 270 mil – um valor que, ainda que demande campanha de captação (são necessários mais R$ 100 mil), está na casa das possibilidades. A previsão é que as primeiras salas estejam prontas até janeiro.

O sucesso do processo, que em apenas quatro ou cinco meses o projeto saiu do papel para a execução, mostra que “o engajamento da comunidade acontece quando damos um voto de confiança e definimos as atribuições corretamente” reflete Cristiane.

Os desafios da logística à pedagogia

Enquanto os adultos se mobilizam nos mutirões, as criancas acompanham de longe. Luciana Penafortes, coordenadora administrativa da Quintal Mágico, revela que o processo de envolvimento das crianças tem seus limites e particularidades. “As crianças não participam dos mutirões porque é perigoso – tem cimento, prego, ferragens”, explica.

A solução encontrada pela comunidade foi criar uma rede de apoio: “Algumas famílias oferecem suas casas para receber crianças, possibilitando que mais pais compareçam aos mutirões”. A organização incluiu até mesmo um sistema de identificação por cores de camisetas para designar responsabilidades, garantindo que todos saibam a quem recorrer para cada tipo de informação, como ocorreu em 2017.

O processo, porém, não é livre de obstáculos. A coordenadora administrativa faz uma reflexão profunda sobre a natureza desse tipo de gestão: “Esse processo associativo é muito bonito, mas é muito difícil. Precisamos acolher inúmeras opiniões e formas de pensar que requer tempo e muito diálogo”.

A transição para o novo espaço traz desafios concretos de gestão. “A gente previu no orçamento dois funcionários novos”, revela Luciana. O projeto do nono ano, particularmente, representa um desafio duplo: “Não é um projeto que se pague ainda” financeiramente, e enfrenta a escassez nacional de professores com formação Waldorf para o ensino médio.

A complexa logística da transição

A operação em dois polos exigirá um rearranjo completo. Luciana exemplifica com sua própria realidade: “Eu dou aula de alemão. Preciso dar aula no sexto, sétimo e oitavo anos no mesmo dia para que eu esteja lá e depois consiga voltar para cá”. Os diferentes horários de pausa entre os anos e a distância – “de carro, 5 ou 10 minutos; de bicicleta, talvez 15” – acrescentam camadas de complexidade à transição.

Apesar dos desafios, a equipe mantém o otimismo. “A professora que faz os horários já disse que está sonhando (com as soluções)”, compartilha Luciana. Para a comunidade da Quintal Mágico, cada tijolo fabricado e cada sapata concretada representam mais do que avanço físico da obra – simbolizam a vitória da viabilidade sobre o idealismo, da construção coletiva sobre o desejo inalcançável, e a prova concreta de que é possível, sim, construir o futuro que desejam para suas crianças.

Confira o novo projeto e contribua com este sonho. Acesse o site de captação da Saúva em www.gruposauva.com.

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