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Viver o Tempo

Na primeira coluna de 2025, Tainá Brito relata suas recordações singelas com sua avó e como essa vivência íntima lhe ensinou sobre a preciosidade do tempo

Tenho pensado muito sobre o tempo, algo que não damos muito valor enquanto a correria da
vida nos obriga a ligar o piloto automático. Tem hora que de tão presa à rotina, você nem percebe
que ela passou, e ela é cruel, ela não retrocede.

Temos pensado ultimamente que tempo ocupado é tempo aproveitado, que tempo corrido é
significado de relevância, de primeiro lugar numa corrida que nem existe. Essa busca
constante por desempenho e utilidade não permite apreciar os momentos singelos da vida, os
momentos vividos com calma, sem muita grandeza, que também constroem nossa vida e
quem nós somos. O café da manhã que você tomou sem correr, o tempo que você dedicou
para criar memórias com sua família, o caminho para o trabalho que você começou a reparar,
enfim, a vida também se faz em fogo baixo.

O tempo foi uma das coisas que aprendi a lidar melhor, nos últimos anos de vida de minha
avó, depois de seu quarto AVC, debilitada e necessitando de ajuda para realizar qualquer
movimento. A vida nos obrigou a parar e a dedicar nosso precioso tempo a ela. Eu, fazendo
faculdade e trabalhando, passava o dia todo fora, e muita das vezes não tinha tanto tempo de
dedicação a ela, até que um dia fui pega por uma frase do Mario quintana, de seu poema, “O
Tempo”, que diz: “A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais
voltará.”

Lembro que isso me impactou e pensei: que lembranças estou criando desse tempo?
O que vou lembrar quando ela não estiver mais aqui? Que sentido tenho dado a esse tempo?
A partir daquele dia, resolvi fazer diferente, e isso foi minha melhor escolha, dedicar tempo a
minha vó criou uma das mais bonitas memórias que tenho desse período.

Quando era pequena minha vó adorava fazer para lanchar uns biscoitos fritos, que nós
comíamos em frente à TV, bebendo chá de capim-limão. Lembro de todo o processo, ela
fazia a massa, pedia ajuda para enrolar os biscoitos e, enquanto ela fritava, sempre pedia para
que eu fosse ao quintal buscar umas folhas para o chá.

Baseado nessa lembrança tão boa, resolvi criar memórias com ela: um dia sentei ao seu lado, e
pedi que me explicasse a receita do biscoito. Com um pouco de dificuldade na fala, deixei ela
levar o tempo que precisava para me explicar todo passo-a-passo. Assim eu fiz. A cada passo
eu pedia orientação, perguntava se estava correto, e no fim deu tudo certo! Fiz o chá e sentei
ao lado dela para fazer o que ela mais gostava, assistir novela. Nesse dia, vi a felicidade dela
em me ajudar com aquilo e de ter companhia para fazer o que mais gostava.

Depois desse dia, virou rotina esse momento, tardes e noites assistindo novela com minha vó,
fazendo ela me contextualizar, falando o que eu tinha perdido.

Passar por tudo isso moldou a forma que olho para esses momentos, hoje, toda vez que penso
em correr, lembro-me desse tempo, das memórias que tenho dele, de perceber que as coisas
singelas, porém importantes, também constroem nosso caminho, a vida exige fogo baixo, às
vezes, tempo de atenção, dedicação e cuidado, com um momento que não volta mais!

Espero que você reflita sobre sua pressa, e que tempo ela está te fazendo perder.

Por último, deixo aqui o poema que me impactou nessa jornada de valorização do tempo
presente.

O Tempo – Mário Quintana


A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado…
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das
horas…
Seguraria o amor que está à minha frente e diria que eu o amo…
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

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