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Saberes e Fazeres Regenera Rio Doce para o marco dos 10 anos do rompimento da barragem

Na coluna do mês de outubro, Hauley Valim, ativista Saúva, compartilha a tessitura coletiva do Regenera Rio Doce, movimento que brota da dor e da potência dos territórios atingidos pelo rompimento da barragem de Fundão. Com olhar atento e escuta sensível, Hauley revela como a articulação entre saberes populares, práticas regenerativas e políticas públicas transforma o luto em luta, e a paisagem em jardim

Neste pequeno artigo, pretendo descrever de forma objetiva algumas características metodológicas do Regenera Rio Doce, movimento que surge de diálogos diversos que se confluíram na Foz do Rio Doce após o rompimento da barragem de Fundão (MG) no ano de 2015. 

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Nossa produção cultural é de base comunitária e procura responder aos desafios que o rompimento da barragem de Fundão impôs à cultura dos territórios atingidos. Atualmente temos realizado ações formativas continuadas através de intercâmbios e pequenos encontros com oficinas no nosso espaço cultural, o Jardim Regenera Rio Doce, organizamos anualmente pelo menos um encontro ampliado com a rede por afinidade temática e realizamos pelo menos uma expedição pelo território da foz do Rio Doce e Planície Costeira (Aracruz, Linhares, São Mateus e Conceição da Barra), com finalidade de fortalecer os laços afetivos e planejar relações de cooperação voltadas às políticas culturais, sociais e de saúde que possam ser encaminhadas pela rede.   

Estas ações são orientadas por diagnósticos participativos realizados nas expedições. COM BASE nos saberes da cultura popular – EM DIÁLOGO com coletivos artísticos, grupos de pesquisas acadêmicos, poder público e movimentos sociais – TEMOS PRODUZIDO NARRATIVAS E AÇÕES em Artes Plásticas, Dança, Cerâmica, Rodas de Saberes, Encontros de Cultura, desenvolvimento de protótipos regenerativos, etc. COM OBJETIVO de fortalecer a cultura de regeneração, cooperação, finanças regenerativas e educação popular em saúde, além de incidir nas políticas de reparação dos danos nos territórios atingidos. Uma das nossas atividades estruturantes é a Trocas de Saberes, espaço fértil para que mestres e mestras dos saberes tradicionais possam nos ajudar a olhar para os desafios atuais que enfrentamos.

Outra ação importante é a articulação de diálogos entre os saberes populares e acadêmicos com interesse de influenciar as políticas públicas. Um bom exemplo está nos projetos Ciclo da Aroeira e Práticas Regenerativas, que faz parte do eixo Cultura e Educação Popular em Saúde do nosso coletivo. Com base nos desafios mapeados, ocupamos, em 2024, duas cadeiras no Conselho Municipal de Saúde, onde demandamos políticas populares, através de Práticas Integrativas Complementares ao SUS (que reconhece saberes tradicionais) e vigilância popular em saúde nos territórios atingidos pela barragem, em Linhares. Até então, após 9 anos do rompimento da barragem, nenhuma demanda de saúde tinha sido apresentada ao referido conselho. Através da mobilização social das comissões de atingidos nos territórios localizados no município de Linhares, firmamos participação e controle social das políticas de reparação. Somente em dois municípios em toda bacia do Rio Doce aconteceram diálogos entre a população e Poder Público no planejamento das políticas. Com isso conseguimos incluir demandas importantes no campo da educação popular em saúde, ferramenta fundamental para criar autonomia em saúde com as populações no longo prazo.  

Nesta mesma lógica, junto com a Associação de Surf de Regência e a ONG Mapas, desde 2018 mobilizamos interesses pelos Direitos da Natureza através da legislação municipal, organizando espaços de debate sobre o tema. Depois de 5 anos conseguimos consolidar o projeto de lei que reconhece os direitos intrínsecos das Ondas da Foz do Rio Doce, aprovado no ano de 2024, com apoio do Vereador Professor Antônio Cesar. A Lei Municipal Nº 4.225/2024 é uma inovação reconhecida como boa prática de cultura oceânica pela ONU e por universidades na Europa e EUA.

Ao longo deste histórico, no exercício de função de antropólogo, mobilizador social e artista, me dediquei a observar, organizar e sistematizar os conteúdos tratados e aprimorados por este processo. Uma interpretação destes saberes estão pedagogicamente disponíveis no Jardim Regenera Rio Doce, espaço coletivo sociobiodiverso de 700m2, com mais de 200 espécies vegetais, com protótipos regenerativos como captação e filtragem de água de chuva, destilação de óleos essenciais, agrofloresta aromática e medicinal, abelhas sem ferrão, processos alquímicos, cultura oceânica, cerâmica artesanal, espiritualidade ecumênica e inter-religiosa, educação popular em saúde. Também dispomos de acervos museológicos, com amostras vegetais e minerais, acervo em áudio, vídeo, livros, bandeiras, jogos, biblioteca, viveiro de mudas, etc.  

 Em relação a acessibilidade, mantemos parceria com a Associação de Surdos de Linhares (ASURLIN), garantindo espaço e tradução em libras nas atividades que desenvolvemos. A linguagem predominante em nossos espaços é popular e mantemos apoio de tradução quando encontradas dificuldades de compreensão de linguagens acadêmicas. Além disso, o Jardim Regenera está em processo de melhorias em suas instalações para melhor atender necessidades específicas de acessibilidade, como rampas, iluminação, saberes sensíveis e banheiro acessível.

Nós fortalecemos nossa rede com pequenos apoios para escrita de projetos, ajudas de custo de logística para os intercâmbios e pequenos cachês. Munidos de acervos culturais, sensitivos e técnicos, facilitamos processos de criação, cooperação e produção de conteúdos e projetos culturais. Ampliamos nossas ações criando vínculos diretos entre coletivos diversos e as comunidades interessadas, visando trocas de saberes e atividades diversas com autonomia e descentralização em rede.  

Entendemos que ainda há muito que fazer nos territórios atingidos, apenas 40% dos rejeitos de mineração chegaram à foz. Enquanto toda lama não chegar à foz os índices de contaminação não se estabilizarão. Atualmente eles aumentam ano a ano. Isso significa que estamos somente no início do desafio. Importante agora é focar nos protótipos de regeneração da saúde, já que iniciaremos em novembro o segundo ciclo de dez anos. Os aprendizados até hoje acumulados serão de suma importância para encarar os próximos desafios no tempo.  

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