O melhor lugar do mundo
É dentro de um abraço
Pro mais velho ou pro mais novo
Pra alguém apaixonado, alguém medroso
O melhor lugar do mundo
É dentro de um abraço
Pro solitário ou pro carente
Dentro de um abraço é sempre quente
Tudo que a gente sofre
Num abraço se dissolve
Tudo que se espera ou sonha
Num abraço a gente encontra
(música interpretada por Jota Quest)
O que é Escola? O que significa, hoje, a Escola para mim, e para você? E, “Qual a função de uma Escola?”, são perguntas muito presentes no cotidiano escolar. Prontamente surgem respostas categóricas sobre o que ela é e o que ela não é. Será que, ao respondermos essas perguntas, respondemos apenas no modo automático ou paramos de fato para pensar sobre elas e respondê-las do mais profundo da nossa alma?
Será que o significado que tem a Escola para nós tem relação com o significado que uma Escola foi para nós? Ou, ainda, será que o significado que tem a Escola tem relação com a Escola que sonhamos? A Escola é um lugar para sonhar? Que sonhos podem ser sonháveis em uma Escola?
Quando cheguei na Escola Comunitária Cirandas, pensei estar chegando na Escola dos meus Sonhos. Quem vive a educação como uma prática para a liberdade não consegue sentir diferente quando conhece a proposta dessa Escola.
Ao longo dos anos, fui sentindo que a capacidade de sonhar no espaço escolar, por mais “diferenciada” que essa Escola possa ser, estava a ficar deficiente. Quando paro para pensar quais motivos nos levam a nos tornamos incapazes de sonhar, são inúmeras as possíveis respostas.
Um lugar que recebe as infâncias e toda a potência criadora de pensamentos não deveria ser um lugar feliz, saudável e de muitas possibilidades de sonhar e tornar sonhos reais? Então, por que temos visto o contrário, crianças e adolescentes perdendo o encantamento com o mundo? Colegas de profissão soterrados pelas demandas diárias atropelando-se na comunicação assertiva e machucando-se nas relações? A Escola, muitas vezes, vista como inimiga? Professores e professoras tratados como prestadores de serviços para atender vontades individuais, sobrepondo as coletivas, perdendo o sentido do trabalho docente como orientadores de aprendizagens?
Por que as “contribuições” não são, em sua maioria, contribuições para sonhar, esperançar, transformar a partir da nossa realidade, mas são em forma de críticas e mais críticas (feitas a partir de uma comunicação, por vezes, violenta), corroborando ainda mais para a desvalorização da classe de professores/as e profissionais da Educação, levando o adoecimento emocional desses profissionais?
No livro Sonho Manifesto, de Sidarta Ribeiro, o autor afirma que, devido à enorme frustração e sofrimento da humanidade, “os sonhos estão mortos”. E “por isso mesmo há que ressuscitá-los. Precisamos reaprender a sonhar”.
Pois justamente porque precisamos reaprender a sonhar que eu não desisto de ressuscitar meus sonhos no lugar que passo mais tempo da minha vida, com as pessoas que convivo mais do que a minha própria família: na Escola. E, mais especificamente, na Escola Comunitária Cirandas.
bell hooks é uma das teóricas da educação que mais me inspira. Em seu livro Tudo Sobre o Amor – novas perspectivas, defende que o nosso ambiente de trabalho também precisa ser um ambiente amoroso, saudável e que alimenta o nosso espírito. Para bell hooks, amor é ação, é prática revolucionária. E em seu livro Ensinando comunidade – uma pedagogia da esperança, nos ensina que uma pedagogia apaixonada precisa gerar esperança em quem ensina, em quem aprende e em todos que compõem essa comunidade de aprendizagem. Para Paulo Freire, em seu livro À sombra desta Mangueira, os sonhos geram esperança.
Ano passado (2024), uma das colaboradoras da limpeza da nossa Escola, Concelita de Jesus nos disse: “é muito difícil o nosso trabalho, porque há muitos afazeres e poucos elogios e reconhecimento”. Respondi a ela que precisávamos mudar essa cultura. Inclusive, com todos e todas na equipe. A partir de então, pensamos dinâmicas em grupo como roda da gratidão, roda do elogio, práticas de autocuidado e de cuidado uns com os outros, além disso, colocamos no calendário letivo o dia de comemoração de cada profissional que atua na Escola, em que as crianças têm feito homenagens ao longo do ano.
Ver a emoção das pessoas ao receberem carinho, respeito e valorização pelo trabalho que realizam me faz sentir que o sonho de uma Escola feliz pautada nos valores do amor, gentileza, cuidado, respeito, valorização, dentre outros, está ressuscitando e tornando-se realidade. E que vale à pena insistir, mesmo quando para alguns ainda não passa de uma prática irrelevante.
Mediante a sonhar com essa Escola que pratica o amor, a esperança e os sonhos, gostaria de citar, de uma maneira especial, uma jovem educadora que diariamente planta e cultiva o sonho de uma Escola que abraça: Karen Mainardes.
Karen chegou em nossa Escola no ano de 2024 com muitas responsabilidades como professora auxiliar. Dentre elas, receber as crianças no portão de entrada da Escola no início do dia. A orientação dada a Karen foi sobre os horários apenas. Até que, certo dia, percebemos algo diferente nesse momento. Karen recebia as pessoas com a pergunta “você quer ouvir uma charada ou uma piada”? No outro dia, com a letra de uma música num quadrinho. No dia seguinte, com uma folha em branco em uma prancheta para um desenho coletivo. No próximo dia, com um instrumento chamado Kalimba para que adivinhássemos a música que ela estava tocando. No último dia da semana, com uma caixinha de som tocando samba e um microfone para que, quem quisesse entrar e cantar uma parte da música, teria seu “palco” simbólico. Além disso, Karen dava e ainda dá bom dia com uma voz doce, um sorriso encantador e um abraço acolhedor, mesmo quando está frágil de saúde ou muito cansada.
Mais de um ano se passou e a criatividade da Karen para nos receber todos os dias foi aumentando. Ela sempre tem uma surpresa para fazer nosso dia começar com um brilho diferente. Essa “ação amorosa” partiu dela mesma. Na Escola Comunitária Cirandas, as/os educadoras/es têm liberdade para criar! Assim como sonham muitos professores e professoras que sejam suas escolas.
Karen é como um sol, que está ali todos os dias, mas, no dia que este sol não aparece, todos sentimos muita falta. Falta um brilho diferente em nosso bom dia! Falta um abraço na alma!
A música interpretada pela banda Jota Quest diz que o melhor lugar do mundo é dentro de um abraço. Quantas maneiras há de se abraçar e de se sentir abraçado por alguém? Será que um dia poderemos dizer que o melhor lugar do mundo é dentro de uma Escola que sonha e que abraça? Ou ainda, de uma Escola que abraça sonhos?
Karen, com seu bom dia iluminado, criativo e afetuoso nos abraça com seu olhar, com seu sorriso e, quando necessário, com seus braços.
Dei-me conta que a Escola dos meus sonhos é uma Escola que abraça. É uma escola que:
Tudo que a gente sofre
Num abraço se dissolve
Tudo que se espera ou sonha
Num abraço a gente encontra
Obrigada, Karen, por nos ensinar o poder de um abraço em uma Escola que está aprendendo a ressuscitar os seus sonhos.