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Já Chegou Verão

Na coluna de encerramento de 2025, Helena Stewart, conselheira da rede Saúva Jataí, parte da lua nova de dezembro para relembrar a travessia de um ano marcado por incertezas. Com sensibilidade solar, reconhece o medo e a sensação de fim, mas encontra na metamorfose coletiva o caminho para a renovação. A partir da potência ancestral dos encontros, Helena convoca mulheres, artistas e sonhadores a tecerem juntos redes de cuidado e antídotos de esperança.

No dia 19 de dezembro, às 22h43, iniciou a última lua nova de 2025, e por isso achei bom começar daqui. Aprendi neste ano um tanto sobre os astros, o sistema solar e as influências dos planetas e estrelas aqui no nosso Planeta Azul. Que se reflete nas pessoas, nas plantas, nas águas e nos bichos. Aprendi que a lua puxa as marés, que Júpiter expande o que toca, que tudo está em movimento constante no universo e que nós somos poeira de estrelas. Também passamos pelo solstício, aquele dia mais longo do ano, abrindo as portas do verão, aqui no hemisfério sul: 21 de dezembro, às 12h03

Então, daqui de onde vejo, sinto e percebo, inspirada pelos ciclos, pela possibilidade de recomeço dessa lua nova, digo com certo medo: que ano difícil!

Atravessar um processo de caos político, social, econômico, cultural, pessoal, me trouxe a sensação de que o mundo está à beira do fim. As ameaças ao futuro e à continuidade da vida tal como a conhecemos são muitas e, talvez, nunca tenham parecido tão plausíveis.

Um certo mundo pode, de fato, estar se encerrando. A vida talvez não continue da mesma forma. Estamos atravessando. Estamos reflexivas, buscando compreender o momento histórico que vivemos, para que possamos nos situar e enxergar melhor para poder caminhar com mais consciência. Estamos atravessando. Estamos metamorfoseando, todas, todos, todes, humanes e sobretudo os mais-que-humanes. Estamos em processo, passando de um lugar conhecido, dominado por forças de opressão, para um desconhecido lugar, que também não é lugar, mas tempo e espaço em movimento.

E como temos nos movimentado diante disso? Conseguimos nos mover em círculos? Ou só cada um no seu quadrado? Conseguimos encontrar intercessões? Conseguimos dançar espiralado? Conseguimos ver em 3D? 5D? ou só no plano bidimensional? Conseguimos andar em bandos? Com mulheres negras? Com crianças e jovens? Com as plantas e as águas? Conseguimos enxergar no escuro? As forças de renovação, para além do horizonte distópico que se desenha, não surgirão de fora, mas do profundo de nós mesmas, do mistério que nos habita.

Nós artistas, sonhadores, mulheres, somos chamadas a criar e aprofundar caminhos de integração, assumir a responsabilidade por nossa reeducação pessoal e coletiva e resgatar as sabedorias vitais ancestrais que o imperialismo tentou apagar. Criar e apoiar as comunidades sustentadas por vínculos de cuidado, respeito e afeto, são modos de vida que ajudam a atravessar coletivamente desafios que não são individuais. Acho pertinente e consigo ver caminho nisso: construir, reconstruir, manter, zelar e nutrir.

Para começar, posso colocar meus pés no chão, no chão terra, no chão movente que gira em torno de si e do sol em movimento espiralado e contínuo. Posso sentir o vento, posso escutar os bichos aqui ao meu redor. Posso pegar uma boa quantidade de ar, colocar boas intenções e levar para cada célula do meu corpo, depois deixar o ar sair. Posso imaginar nesse solo fértil mulheres sendo respeitadas, crianças aprendendo livres, bons exemplos de vida em sociedade, amor, respeito, corpo, mente e espírito saudáveis e conectados. Posso sonhar outras tramas de encontros, caminhando a partir de outros paradigmas. Posso acreditar na construção dessa tecitura coletiva, com as diferenças, as convergências, os atritos, os anseios e as maravilhas do fazer junto.  Compreender os ciclos da vida e reconhecer que é por meio deles que podemos construir mais vida.

Avante! Vamos juntas! Vamos com as mulheres e crianças, vamos com a lua, o sol, Vênus, Jupiter e todos os planetas e estrelas! Vamos com os bichos, os oceanos, as árvores, as florestas! Vamos com música, com voz, com dança, com batuque, com ervas! Vamos com as pretas e pretos! Vamos com as mais velhas! Vamos com os micélios! Com as folhas e a fotossíntese! Vamos com a arte da presença e com a mãe natureza. Esses são os antídotos!

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