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Haverá festa com o que restar

Na coluna de março, Luana Abreu, membro da comunicação da rede Saúva Jataí, retoma o seu pensamento sobre a extinção da humanidade. A versão 2, ou o retorno depois do fim, aponta uma descoberta não necessariamente fácil ou otimista, mas, ao menos, fluida como frevo.

Acordo com o som do meu despertador que imita pássaros cantando pela manhã. Desbloqueio a tela e sou bombardeada de informações, invasões, explosões, previsões. Não mais me abala a certeza do fim do mundo, deixou de ser um medo do futuro e passou a ser algo que já está acontecendo. As notícias, por mais assustadoras que sejam, agora tomam a mesma importância de um dump no feed do instagram. Me sinto anestesiada, amargurada, impotente.

Passo meu café, bombas no Irã, como uma torrada, adolescentes estupradas, escovo meus dentes, cidades tomadas por enchentes, vou à academia, textos escritos por IA, saio da garagem, rompe mais uma barragem. Já não consigo identificar o que é real e o que é ficção. Tudo parece absurdo, sem sentido ou razão. Líderes mundiais pedófilos fazem pronunciamentos que parecem retirados de uma série de comédia muito absurda, surge o primeiro deserto do Brasil na Bahia, metade dos meus amigos tomando remédios psiquiátricos, e na tentativa de parar de pensar, passamos nossos dias derretendo o cérebro em feeds infinitos de vídeos de 15 segundos que não rendem absolutamente aprendizado nenhum. Afinal, para que mais informação? A ignorância é uma benção! Inclusive, você viu aquele vídeo do macaco que te mandei logo depois daquele reel sobre uma receita com batata doce que apareceu em seguida das imagens do Oriente Médio em chamas que não consegui assistir até o fim?

Tudo isso me lembra o que Franz Kafka registrou em seu diário no dia 2 de agosto de 1914: “A Alemanha declarou guerra à Rússia. — À tarde, natação”. A vida continua acontecendo em meio aos grandes acontecimentos da história. O planeta está em colapso e ainda tenho que passar fio dental. Os homens estão nos matando nas ruas e preciso sair correndo para não enlouquecer de vez. Mais uma guerra que não consigo assimilar o motivo, se não a sede insaciável por poder, e no Brasil fazemos Carnaval.

Quando, 3 anos atrás, assumi meu desespero por conta do fim do mundo, eu convidei (leia-se intimei) minha avó para morar comigo. Já fazia uma década desde que ela havia se mudado para a Serra da Moeda, onde vivia sozinha com 3 cachorros e uma perna. Ao longo de seus dias, ela acendia um cigarro e observava a montanha à sua frente. Depois de ler meu texto lamentando a velhice que eu não teria e a ameaça de tudo em chamas, ela decretou: não abro mão da minha vista. Mesmo que não pudesse fazer passeios no parque, ir ao cinema ou receber visitas para um café no meio da tarde, a paz conquistada no fim de sua vida era inegociável. Esbravejei, afinal, era de fato uma loucura uma senhora de 70 e tantos anos, cadeirante e com histórico de infarto e quedas morando sozinha a mais de uma hora de distância de um hospital. Ela, teimosa como sempre, insistia que não iria abrir mão da vida de cada dia pelo medo do inevitável fim. Como o cigarro, um trago de cada vez. Ela gostava do comprometimento das suas visitas, tinham que ir para ficar, partilhar um vinho, ter longas conversas, dormir, tomar café pela manhã. Era tudo ritualístico – a presença inteiriça era a maior preciosidade que tinha e provocava em nós.

Alguns meses depois dessa discussão, a Serra da Moeda pegou fogo. As chamas chegaram a entrar dentro do lote de minha avó e a vista se tornou turva. Pela primeira vez, a velha deu o braço a torcer: “achei que você estava exagerando, achei ao menos que eu não iria viver pra ver o fim, mas agora está acontecendo na frente dos meus olhos!”. Ela lamentava minha desilusão enquanto recordava como era grande e bonito o sonho da revolução na sua juventude. As pessoas realmente acreditavam que existia um futuro, e ele era melhor! Agora, o futuro parece uma propaganda enganosa que nos venderam na quinta série e chegou pelo correio com defeito, sem garantia de troca ou devolução.

Tudo que vai acontecer já está acontecendo. O futuro não é algo que existe à frente – me ensinou uma vez meu querido professor de espanhol, enquanto questionava, com todo seu brilhantismo decolonial, a quem servia minha descrença na humanidade. A ideia de tempo ocidental que temos é linear, baseada em um relógio, uma ferramenta que inventamos para medir algo imensurável. Acreditamos que o tempo passa adiante, em sentido horário. No entanto, uma crença andina, do povo Aimará, propõe que, por conhecermos o passado, ele se encontra na frente dos nossos olhos, enquanto o futuro, incerto, desconhecido e invisível, está fora do campo de visão, atrás dos olhos. Vagamos pela vida a encarar o nosso passado, tudo que já foi, que já sabemos, enquanto nossos pés tocam o chão andando de costas para o que vai ser descoberto. Os Aimarás esticam os braços para a frente quando falam do passado,
enquanto apontam para trás quando se referem ao futuro.


Olho para frente e posso ver uma versão minha criança correndo e dando cambalhota na grama. Vejo o sorriso da minha avó que já partiu desse plano. Vejo cachoeiras, gargalhadas, céus azuis. Vejo também medo de onda grande, paixões não correspondidas, oportunidades perdidas. As coisas que não levam a nada são de grande importância, como diria Manoel de Barros. Uma senhora atravessando a rua, meu avô cortando maçãs toda noite, o latido insuportável das cachorras da minha irmã, uma criança caindo da bicicleta pela primeira vez, a voz da minha prima cantando aquela do Milton. A filha da minha amiga engatinhando, o bolo de areia do meu aniversário, meu melhor amigo quando descobre uma música nova. Dançar na pista com desconhecidos até suar, deixar uma lágrima cair em uma peça de teatro,
deitar no colo da minha mãe, ficar em silêncio junto com meu pai.

No livro “Sidarta”, Herman Hesse escreve: “Se o mundo é bom ou mau, se a vida em seus confins é sofrimento ou prazer, essa pergunta pode permanecer sem resposta”. Ainda não desvendei o segredo da serenidade, de não sentir culpa, de não sentir raiva, de não querer mudar tudo que acho errado, de não me sentir responsável. Mas tenho buscado aceitar (e amar) o mundo como ele é. Com suas hipocrisias e belezas. É um novo vírus letal junto com a polilaminina de Tatiana Coelho, são ilhas de microplástico e novos fundos de proteção aos oceanos, é o chatgpt consumindo água e a arte recriando emoção, é destruição e construção, tudo ao mesmo tempo. O que aprendi nos últimos anos não mudou em nada o mundo, mas certamente salvou a minha vida. Aprendi a caminhar e dançar. Coisas que não funcionam na
lógica do acerto e erro – são da própria tentativa.

Esse ano passei o Carnaval em Olinda. Sem dúvidas o evento mais apoteótico culturalmente que já presenciei. O céu de todas as cores e o chão inundado de lixo – dicotomias da felicidade. Em conjunto, recém-nascidos, senhoras de idade, caboclos de lança, jovens seminus, pernambucanos, mineiros, franceses, médicos, garis, crentes e flamenguistas, tiramos nossas máscaras para viver a maior fantasia que há na terra: brincar juntos. Deixar o corpo se inundar pela sensação infantil de que nada importa tanto quanto o agora. Nos apertamos em ladeiras lotadas e coloridas, prensados num coletivo que desafia todas as leis da física.

A multidão se torna um, a individualidade cai e por alguns instantes os limites entre eu e o outro não existem. Não sei mais onde eu termino e o outro começa. Num mix de incômodo, desespero e euforia, olho para o lado e vejo meus melhores amigos, em um olhar de cumplicidade, nos perguntamos “estamos gostando disso né?”. Não sabemos para onde estamos indo, e sinceramente, isso pouco importa. Se por um segundo desejarmos sair dali, se colocarmos na mente que não é bom, se torna um pesadelo. Agora, assumindo e abraçando a falta de controle do destino, a sensação é a mais libertadora que já experienciei. O objetivo: sobreviver e se divertir tentando. O planeta em colapso, uma possível Terceira Guerra Mundial, as temperaturas batendo recorde, mas por aqui dançamos frevo, cantamos
alto e caímos na gargalhada.

O frevo nos provoca a ser feliz. Devemos isso a nós mesmos. Procuremos brechas, enganemos o sistema que nos quer tristes e conformados. Entre suspiros e indignações de uma cabeça jovem ansiosa, vez ou outra consigo acessar o que minha avó sentia ao olhar aquela Serra – a vida presta, o agora basta. Nossa revolta é ser feliz. Quando o meteoro vier, vai me encontrar dançando.


“Ouvi dizer que o mundo vai-se acabar
Que tudo vai pra cucuia
O sol não mais brilhará

Mas se deixarem
Um bombo e uma mulata
E um trombone de prata
O frevo bom viverá

Pode acabar o petróleo
Pode acabar a vergonha
Pode acabar tudo enfim
Mas deixem o frevo pra mim”

Trombone de Prata - Capiba

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