Há alguns dias tenho pensando bastante a respeito da prática da monotonia Agroalimentar e seus desdobramentos: como consequência, a monotonia política, alimentar e cultural.
Entendo ser um assunto extremamente complexo. É um tema para ser tratado de forma multidisciplinar, a fim de dar conta de tantos desequilíbrios psicopedagógicos, econômicos e sociais que envolvem o assunto. Porém, gostaria de compartilhar meu sentimento sobre isto, pois minha profissão de cozinheira, há mais de treze anos, sempre me fez refletir para além da cozinha de trabalho, nos caminhos que os alimentos percorrem até chegar a mim e os impactos que a produção destes geram na natureza e nas pessoas que os produzem.
A humanidade tem conhecimento de pelo menos sete mil espécies de plantas comestíveis, das quais quatrocentas são cultiváveis e, deste cultivo, 75% são de apenas seis plantas: trigo, milho, soja, batata, cana e arroz.
40% destas seis plantas são destinadas à alimentação animal de corte e leiteiro. A outra parte é destinada à fabricação de produtos ultraprocessados e para o consumo humano. Sem falar na quantidade absurda de agrotóxicos utilizados, pois este cultivo é feito em áreas imensas, derrubando florestas e todos os biomas possíveis. Esta prática tem responsabilidade em grande parte nos desequilíbrios dos ecossistemas, da vida animal, dos recursos hídricos, da qualidade do ar e do superaquecimento do planeta.
Isto torna, no Brasil, os interesses políticos também monótonos: este país que defende o lucro acima do bem-estar e saúde do planeta e promove um super apoio ao agronegócio em detrimento dos agricultores familiares que têm cada vez mais dificuldades em conseguir qualquer tipo de apoio do poder público.
Isso se desdobra na monotonia Alimentar quando percebemos que, há muito tempo, a alimentação das pessoas de um modo geral é composta por trigo, milho, soja, batata, cana de açúcar e arroz (que quando está em sua forma integral, menos mal). O problema é quando estes alimentos são modificados pela indústria dos ultraprocessados: é importante dizer que as pessoas que mais sofrem com a monotonia alimentar são as vulneráveis economicamente. O direito ao acesso à comida agroecológica ou orgânica é uma realidade muito distante para esta população, uma vez que muitos ultraprocessados são mais baratos que a comida de verdade. Por outro lado, as pessoas com um poder econômico mais estável têm mais oportunidades para acessar informações e alimentos saudáveis de qualidade.
O que talvez esteja passando de forma despercebida seja o apagamento das culturas alimentares: aquelas que muitos de nós devem ter na lembrança quando as nossas mais velhas e mais velhos preparavam comida de verdade no café da manhã, almoço, lanche da tarde e jantar, com alimentos variados. Hoje, talvez, tudo esteja reduzido àqueles poucos alimentos citados anteriormente. Cultura alimentar também é o modo de fazer, o modo como se come, em geral: se come junto com alegria.
O que conforta de certa maneira é saber que existem muitos movimentos a favor da vida, como a Rede Saúva Jataí, que muito honradamente faço parte. Pessoas que estão pensando e fazendo decolonização o tempo todo: através de fomento e apoio aos saberes em agrobiodiversidade, agroecologia, agricultura dos povos originários, de terreiro, quilombolas, ribeirinhos, da periferia, etc., possibilitando a existência e a manutenção dos modos de viver e interagir com o mundo de forma integrada, diversa e equilibrada.
É preciso coragem para viver em combate contra a colonização, a favor da decolonialidade do poder em uma sociedade que valida, o tempo todo, um pensar e agir hegemônicos que desequilibra a vida.
Sigamos existindo e resistindo juntes!
AXÈ