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Carta ao Gestor

Na coluna do mês de novembro, Pedro Valente Barone, Diretor de Gestão na Jataí Investimentos, homenageia os 35 anos de cartas de Howard Marks, revelando como a sabedoria do investidor transcende finanças ao transformar incerteza em clareza. Com olhar reflexivo, Pedro mostra como os ensinamentos sobre paciência, humildade e pensamento contracíclico moldam uma filosofia que conecta capital e consciência, tempo e valor.

Introdução

Há alguns anos, passei a registrar o que me desperta curiosidade ao longo do dia. Costumo anotar frases, pensamentos e reflexões que encontro em textos, livros e podcasts, além de resumir todas as reuniões e ligações de trabalho em um caderno escrito à mão. Nele, desenho setas e faço marcações, criando parâmetros próprios (como o uso de cores para catalogar diferentes assuntos), evitando me perder no meio de tanta informação.

E a diversidade é grande: do cotidiano ao empreendedorismo, passando por alimentação, exercício, neurociência e mercado financeiro. No universo dos investimentos, poucos autores me marcaram tanto quanto Howard Marks, da Oaktree Capital (gestora americana de crédito e investimentos alternativos).

Descobri Marks quando comecei a ler sobre Warren Buffet, ainda na faculdade. Os memos, como são conhecidas as cartas escritas por Marks, eram leitura obrigatória para o investidor de Omaha e, assim, fui convencido a começar a acompanhá-lo desde então. De lá para cá, foram centenas de leituras, entrevistas e dois livros que considero leitura essencial para quem quer aprender mais sobre mercado financeiro: O Mais Importante para o Investidor e Dominando os Ciclos de Mercado.

Nesse tempo, o que mais me chama a atenção é que, em um universo complexo como o mercado financeiro, ele consegue manter um estilo direto, sem jargões técnicos desnecessários e com foco em clareza e utilidade. Em 2025, completam-se 35 anos desde a primeira vez que escreveu ao mercado, e resolvi homenageá-lo nesta carta.

Espero que gostem!

Tempo, Valor e Perpectiva

Escrever é uma forma de pensar devagar. Talvez por isso Howard Marks tenha feito disso um hábito por mais de três décadas, e também por isso continuemos a lê-lo. Suas cartas não são apenas crônicas de mercado, mas o registro de um processo mental que transforma a incerteza em clareza. A leitura de sua obra é como acompanhar alguém que pensa em voz alta, disposto a revisar suas próprias conclusões. E talvez resida aí o verdadeiro valor de sua obra: a coragem de refletir, sem a pretensão de ter razão.

Desde o primeiro memo, nos anos 1990, até o mais recente The Calculus of Value, Marks repete um princípio simples, mas profundamente contraintuitivo: investir é menos sobre prever e mais sobre compreender. Compreender os ciclos, compreender as pessoas, compreender a si mesmo. Ao descrever o balanço entre euforia e medo, ele fala tanto sobre psicologia quanto sobre finanças. Enquanto, na vida real, os ativos estão entre o “bem” e o “não tão bem”, na mente dos investidores os ponteiros passam do “impecável” ao “desesperador”. Isso mostra um pensamento quase que binário funcionando na mente das pessoas, com menos nuances do que a realidade indicaria.

Seus ensinamentos mais duradouros nascem dessa observação. Os mercados não se movem em linha reta, mas oscilam em um pêndulo constante entre otimismo e pessimismo. O investidor que entende esse ritmo aprende que precisa de disciplina para ser cético, quando o mercado está em euforia, e coragem para ser paciente, quando todos estão com medo. Essa é a essência do pensamento contracíclico, que exige não apenas análise, mas também controle emocional.

Marks sempre insistiu que o risco verdadeiro não está na volatilidade dos preços, e sim na possibilidade de perda permanente de capital. Sua filosofia é a do investidor resistente, não do herói de ocasião. Como ele escreve em “O Caminho para Performance”, que o sucesso vem menos dos grandes acertos e mais da ausência de grandes erros. Ser consistente é mais importante do que ser brilhante.

Entre as lições mais sutis, e talvez as mais humanas, estão aquelas sobre aceitar a incerteza. O conceito em você não pode prever o futuro, mas pode se preparar para ele”. Essa frase, repetida em diferentes momentos por ele, resume a sabedoria de quem entendeu que o mercado é um jogo de probabilidades, não de certezas absolutas. Marks convida o investidor a construir portfólios flexíveis, preparados para o inesperado, conscientes de que a sorte e a aleatoriedade desempenham papéis maiores do que nossa vaidade admite.

E essa consciência se traduz em humildade. O verdadeiro inimigo do investidor não é o mercado, mas o próprio ego. O risco de acreditar demais em si mesmo, de confundir sorte com habilidade, é o que leva à ruína. Marks chama isso de “pensamento de segundo nível”. E aqui está um dos meus ensinamentos preferidos: refletir além do óbvio, questionar o consenso e desconfiar do conforto ou desespero coletivo. Bons investimentos não nascem de boas histórias, mas de boas assimetrias.

Essa semana, ao revisitar seus textos, percebi o quanto eles moldaram uma geração de investidores, e o quanto suas ideias inspiram nossa forma de pensar alocação dentro da JATAÍ. Além disso, acreditamos que o capital é mais do que um instrumento financeiro. Ele é uma ferramenta de construção de valor duradouro para o cliente e sociedade. Buscamos ativos com propósito, que resistam ao tempo e aos ciclos. Valorizamos a paciência, a análise profunda e a capacidade de investir mesmo quando o consenso se mostra contrário.

Assim, o curto prazo é um inimigo do pensamento claro. A velocidade do mercado pode ser fascinante, mas é o tempo quem separa o ruído da realidade. Permanecer fiel aos princípios quando todos se desviam é a verdadeira vantagem competitiva. Talvez por isso Marks ainda escreva, e por isso nós continuemos lendo. Porque investir, no fim, é aprender a pensar em público, com serenidade e convicção. É aceitar a imperfeição do que sabemos, resistir à pressa e entender que sabedoria, assim como o valor, não se revela de imediato.

Conclusão

Ao longo desses trinta e cinco anos de cartas, Howard Marks nos ensinou algo que vai além de finanças: investir é, antes de tudo, um exercício de lucidez. É sobre entender o mundo e, ao mesmo tempo, aceitar que ele jamais será totalmente compreendido. Seus textos são lembretes de que a boa gestão não nasce da pressa, mas da ponderação; não surge do consenso, mas da observação silenciosa; e não depende de genialidade, e sim, de coerência.

Rever Marks é revisitar a própria essência do investimento: buscar o equilíbrio entre razão e emoção, entre coragem e prudência, entre convicção e humildade. É isso que tentamos praticar diariamente na Jataí. Investir com propósito vai além da geração de retorno: é conectar capital e consciência, decisões e consequências, tempo e valor.

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