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Além dos algoritmos: por que o futuro do jornalismo é colaborativo

Na coluna de julho, Flávia Campuzano, do #Colabora – Jornalismo Sustentável, parte da experiência coletiva da Casa do Jornalismo Socioambiental na COP30 para propor que o futuro do jornalismo independente não está na associação aos algoritmos, mas na confluência criativa de saberes, de redações colaborativas, e de águas que se encontram sem deixar de ser rios.

Reflexões sobre como a união em rede e as práticas coletivas geram sustentabilidade e diversidade no jornalismo independente.

          Ao pensar no convite para escrever um texto livre para o portal Saúva, me peguei refletindo sobre o que me trouxe até aqui. Como jornalista, em um tempo no qual os fazeres da profissão ganharam novos caminhos, e também na construção do meu percurso acadêmico no mestrado, muitas indagações vieram à tona. As reflexões apontaram para um tema comum: o da colaboração em rede. Essa tendência surge como uma resposta possível para o futuro do jornalismo e o desenvolvimento de projetos que nascem da convergência de ideias e confluência de saberes.

O jornalismo que praticamos hoje já não cabe em silos. Em tempos de economia da atenção e de caos informacional, o impacto das histórias que precisam ser contadas é maior quando tecido coletivamente.

Minha trajetória, trabalhando em projetos especiais no #Colabora – Jornalismo Sustentável, tem sido um aprendizado constante sobre novos caminhos possíveis para o jornalismo. Nos muitos desafios colocados para o campo da comunicação atualmente, percebo que a inovação no nosso ofício não é apenas sobre como atuar com algoritmos que capturam nossa atenção nas redes sociais, mas sim da capacidade de unir saberes e fazeres, de ouvir e construir com o outro.

Essa percepção se materializou no final de 2025 com o projeto da Casa do Jornalismo Socioambiental durante a COP30. Ao longo de um mês em Belém, a iniciativa reuniu 21 plataformas de jornalismo de diferentes portes e regiões do país, mobilizando 45 profissionais, entre repórteres e editores de 13 estados, além de garantir apoio direto de infraestrutura para 23 jornalistas. Esse esforço coletivo resultou em 196 reportagens, com 78 versões para o inglês, além de um feed ao vivo que somou mais de 173 mil visualizações. Éramos jornalistas de realidades distintas compartilhando fontes e ângulos sobre a crise climática, confirmando que a colaboração pode ser um motor de inovação e complementaridade. Isso nos permitiu narrar a complexidade das questões ambientais trazendo sempre a perspectiva social e local, assim como nossas próprias visões e linhas editoriais. Além de dividir um espaço físico em Belém, criamos um ecossistema de colaboração na prática e de apoio mútuo entre diferentes jornalistas e redações.

Outra iniciativa que traz essa mesma perspectiva de construção conjunta é o programa de formação #Colabora com Inclusão e Diversidade. Ao criá-lo, o propósito foi além da produção jornalística tradicional: a ideia era gerar um impacto real no ambiente do jornalismo digital, ampliando vozes e dando visibilidade a narrativas periféricas para promover um ambiente mais diverso. Nessa costura de projeto com propósito, percebi que a inovação e o impacto muitas vezes acontecem em nível local, mas trazem resultados que ecoam para outros cantos. E assim vamos ouvindo novas histórias, conhecendo realidades e trazendo outros saberes para o centro da narrativa.

Nessa confluência, inspirada por Nêgo Bispo e sua potência ao mencionar a força dos rios que se encontram, meu caminho chegou à pesquisa acadêmica no mestrado. O que, inicialmente, seria uma investigação sobre novos modelos de negócio para a sustentabilidade no jornalismo independente, confluiu para o mesmo tema. Resolvi pesquisar a colaboração em rede como o motor que une saberes na construção de novos modelos coletivos de trabalho no jornalismo. Na minha pesquisa, faço um paralelo entre a colaboração na produção jornalística e a diversidade de espécies em uma agrofloresta. O agricultor e pesquisador suíço Ernst Götsch, que introduziu e disseminou o modelo de agrofloresta sucessional no Brasil, é o criador do conceito de agricultura sintrópica, um sistema de cultivo que replica a dinâmica natural dos ecossistemas para acelerar a regeneração do solo, otimizar o ciclo da água e ampliar a biodiversidade por meio de interações benéficas entre as espécies.

Tanto na comunicação quanto na cultura da agrofloresta, o trabalho em rede demonstra caminhos mais orgânicos de construção coletiva. Colaborar na comunicação significa transformar a competição em cooperação, para que a informação circule, chegue mais longe, com o impacto de que a sociedade precisa. Nessa perspectiva, a existência de redes como a Saúva Jataí é fundamental. É esse tipo de suporte que permite que projetos saiam do papel e ganhem sustentabilidade, funcionando como o solo fértil onde a cooperação se desenvolve e gera frutos duradouros. A união com a rede Saúva trouxe novos elementos, permitindo conhecer projetos e iniciativas que potencializam causas locais, onde o impacto do coletivo vai além, apontando novas possibilidades de apoio mútuo.

Nesse fluxo de repensar o fazer jornalístico, o conceito de sintropia surge como uma boa metáfora. Enquanto a entropia¹ nos leva ao caos e à dispersão de energia, a sintropia, que é o princípio fundamental dos sistemas agroflorestais, trabalha na direção oposta: ele organiza, acumula energia e gera vida a partir da complexidade.

¹ Entropia é uma medida de desordem, aleatoriedade e dispersão de energia de um sistema. Simplificando: é a tendência natural do universo de ir da organização para o caos. Sem energia extra, as coisas não se arrumam sozinhas; elas sempre se espalham e se desgastam com o tempo.

No mundo hiperconectado, a comunicação concentrada nas redes sociais muitas vezes nos satura com o que nem queremos saber: o caos informacional, a desinformação e a perpetuação de desigualdades. Afinal, os algoritmos operam na lógica da competição pela nossa atenção, reforçando métricas de engajamento, conquistas individuais e meritocracia.

Em contrapartida, a comunicação em rede de que falo propõe novos caminhos; nosso olhar deve se voltar para a leitura atenta e profunda e para o consumo de conteúdos que nos inspirem à ação.

Tem sido um caminho feliz o de trazer o propósito da colaboração para o jornalismo, acreditando na potência da sintropia e na união de propostas em busca de uma sociedade mais justa. Como uma otimista nata, mas com os dois pés firmes na realidade, sigo apostando na construção coletiva como resposta ao pessimismo e como uma tecnologia para adiar o fim do mundo, como propõe Ailton Krenak.

Essa angústia diante do apocalipse, aliás, acompanha a humanidade há tempos, ora como tragédia, ora como sátira.

Na cultura pop, por exemplo, ela virou o principal combustível para o humor dos irredutíveis gauleses: “Por Tutatis! O céu vai cair sobre nossas cabeças!”. Essa frase clássica é repetida recorrentemente nos quadrinhos de Asterix, de Goscinny e Uderzo. Nas histórias, os bravos e valentes aldeões só têm medo de uma única coisa: que o firmamento desabe. O chefe Abracurcix costuma completar a frase assim: “…mas como sempre digo, isso não vai acontecer amanhã!”.

Em tempos de emergência climática, já não temos a mesma certeza de Abracurcix…  Porém, como bem nos lembra Ailton Krenak, o medo não deve ser da queda do céu. Para ele, “suspender o céu é ampliar o nosso horizonte; não o horizonte prospectivo, mas o existencial”. O autor defende que contar histórias também é uma forma de suspender o céu. Para ele, “desde que o mundo é mundo, os humanos cantam, dançam e contam histórias para adiar o fim do mundo.”

Por fim, volto a saudar Nêgo Bispo. Quando o líder quilombola diz que “um rio não deixa de ser um rio quando ele conflui com outro rio”, ele nos ensina que a vida é confluência e que nem tudo que se ajunta se mistura: “Quando a gente confluencia, a gente não deixa de ser a gente, a gente passa a ser a gente e outra gente.”

É nessa confluência de redes, projetos e iniciativas, nesse ponto de encontro entre o local e o coletivo, que o fazer jornalístico ganha novos sentidos, unindo propósitos para manter o céu no lugar e seguir contando boas histórias.

Referências:

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