Matéria publicada em 8 de julho de 2025.
Aos 29 anos, Bianca Nascimento Lopes Martins, a Bianca Paraty, une duas realidades em seu trabalho: a tradição Caiçara de seus avós pescadores e as oportunidades que encontrou em projetos sociais na infância. Ex-aluna de um projeto social de iniciativa náutica, ela agora comanda o Na Vela Paraty, escola onde ensina adolescentes a velejar usando barcos pequenos e métodos tradicionais de navegação. Sua trajetória – que passou pelas artes cênicas e capoeira, antes de retornar ao mar – ganhou novo impulso com o PAFE (Programa de Apoio à Formação de Educadoras e Educadores), onde buscou formação para profissionalizar sua atuação como skipper.

Da infância em Projeto Social à sala de aula
Bianca descobriu a vela aos 12 anos no INP (Instituto Náutico Paraty), projeto social que mudou sua relação com o mar. “Foi uma formação muito importante da minha infância, porque me aproximou do meu território, das ilhas e dessa geografia de Paraty que vai além da cidade, que chamamos de ‘maretório’”, conta. Anos depois, após participar de vários projetos sociais, trabalhar com teatro e criar uma websérie durante a pandemia, voltou a atenção para a área náutica. “A gente fez uma websérie chamada Crônicas Caiçaras, que retrata a vida dos Caiçaras de forma cômica, em mini episódios. E aí começamos a nos relacionar com o PAFE para dar seguimento a esses projetos em audiovisual. Foi assim que conheci de fato a instituição”, relembra.
Em 2024, fundou o Na Vela Paraty na Praia do Jabaquara. “Ano passado abri meu próprio projeto, que foi uma conquista muito grande”, diz sobre a escola que usa barcos monotipos – pequenas embarcações para uma ou duas pessoas e usada para esporte, lazer e aulas. Bianca reflete que foi um grande passo parar de trabalhar só para os outros e começar a investir nos seus próprios sonhos e objetivos.
Formação que valoriza conhecimentos tradicionais
Pelo PAFE, Bianca fez uma formação curta (um final de semana), mas intensa. Em Ubatuba, o tio Spinelli é famoso por fazer a travessia Brasil-África e África-Brasil, e ministrou o curso de navegação à moda antiga. “O tio Spinelli tem uma navegação que não depende só de eletrônicos, usa métodos mais antigos, com carta náutica e bússola”, explica sobre o instrutor que a inspirou. “Não depender só de eletrônicos é um ponto positivo, que dá mais autonomia.”


Para ela, que está se profissionalizando em skipper (profissional autônomo contratado para conduzir o barco — principalmente em translados — , e responsável pela navegação segura de todos os envolvidos), a localização por bússola, latitude, longitude, carta náutica e sextante (que observa as estrelas), vai ajudá-la a tirar suas cartas. E seus sonhos não param por aí: “Estou buscando agora Mestre Amador e Capitão Amador, que aumentam meu limite de navegação”.
Pelo PAFE, Bianca ofereceu um curso de quatro meses com aulas semanais. A proposta mesclava teoria e prática, com uma abordagem que valoriza a navegação tradicional. A surpresa é que sua aposta em um público adolescente deu certo, eles apareceram e tiveram o primeiro contato com a navegação em si. Ela conta que “muitos já tinham contato comigo pela capoeira, eu dava aula para eles”. As aulas foram bem didáticas e ela confessa que além da teoria, se empolgou um pouco e resolveu ir para a prática também.



“Tivemos aulas teóricas usando o espaço do ITAE (Instituto Trilha da Arte e Educação), que cedeu sala de aula equipada. Das teorias, aplicamos na prática, porque, à princípio, era só teoria, mas vendo a turma, entendi que se continuasse falando, não ia dar em nada. Então, fizemos as teóricas como prometido ao PAFE, mas as quatro últimas foram totalmente práticas, no barco. Cada um começou comigo, mas foi ganhando autonomia e navegando sozinho – foi muito bacana”.
Bianca Paraty – proprietária do Na Vela Paraty.
“Bianca é muito comprometida com o que faz. Ela poderia ter cumprido sua ação socioeducativa somente com as aulas teóricas, como havia proposto em sua inscrição e aprovação no PAFE. Mas, sentindo que a turma precisava de mais inspiração, ela rapidamente planejou e executou as aulas práticas”, conta Fabíola Guadix, coordenadora do PAFE.
Bianca nunca quis dar aula, apesar de sua mãe e avó serem professoras. Mas ela descobriu, sem modéstias, “uma facilidade muito grande para ensinar e isso me incomoda, porque sempre tentei fugir”. Seu sonho é que um dia seus alunos deem aula e sigam com o projeto, para que ela possa ter mais autonomia nas travessias que demandam mais tempo.

Desafios e objetivos
Reconhecendo que a vela ainda é um esporte de custo elevado, Bianca criou uma “Bolsa Atleta” no Na Vela Paraty. “Pessoas que têm uma renda maior ou empresas estão investindo nesses alunos”, comenta. Atualmente, dois jovens são beneficiados.
Seu objetivo é ampliar o acesso: “Como fui impactada por um projeto social, nada mais justo do que correr atrás desses patrocinadores”. Outra meta é conseguir apoio da prefeitura para oferecer aulas gratuitas.

Enquanto prepara novos cursos e busca as certificações de Mestre Amador e Capitão Amador, Bianca reflete sobre o impacto do trabalho: “Ter autonomia para entender como um barco funciona é algo que você leva para a vida”. Ter acesso a esses conhecimentos numa fase de amadurecimento, por ser transformador e abrir horizontes, pois eles montam o barco, estudam seus rumos e navegação, se planejam para as suas aventuras e ficam responsáveis, ou seja, eles estão no comando.

Para os jovens de Paraty, suas aulas representam mais que técnicas de navegação – são uma forma de ressignificar a relação com o mar que cerca suas vidas.
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