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Ativista pela integração e diversidade para crianças com Síndrome de Down agora faz parte da Rede Saúva Jataí

Matéria publicada em 7 de fevereiro de 2025.

O ano era 2015 quando, aos 40 anos, após uma gravidez de alto risco, Gabriela Laborda deu luz à Maíra, que foi diagnosticada com Síndrome de Down, também conhecida como a Trissomia 21. “Você recebe o diagnóstico e fica meio perdido”, conta Gabi, que se indignava ao perceber que os médicos que a atendiam não eram pais de crianças com Down, e, portanto, não sentia a propriedade que só a experiência pode dar. Ela sofria a falta de uma rede de apoio, de ouvir dicas de outras pessoas que estavam passando pelas mesmas circunstâncias e poderiam auxiliar nessa caminhada. 

Dois anos depois, em um laboratório de inovação social do Social Good Brasil, juntamente com outra mãe, Gabriela criou o CHAT21, uma plataforma de informação e acolhimento para famílias de pessoas com a T21. Sua expectativa, inicialmente, era atender por volta de 10 pessoas, mas logo no primeiro dia já surgiram mais de 150 interessados. Assim, ela percebeu que havia uma demanda real por esse grupo de apoio, ampliou e estruturou seu negócio social para poder acolher melhor essas pessoas.

Gabriela Laborda e sua filha Maíra

A primeira dificuldade surgiu da diversidade de necessidades dentro desses grupos, que iam desde mães de recém nascidos até a vida adulta. Para não interferir nos processos individuais trazendo preocupações futuras para as famílias, decidiram não misturar estágios diferentes. Dessa forma, a logística passou a funcionar da seguinte maneira: o acesso é 24 horas, online, com 8 pessoas disponíveis para atender. A partir do cadastro, o primeiro acolhimento é feito em um grupo de pronto atendimento, e dali a pessoa é transferida para um grupo do estado onde ela mora, se conectando com uma rede de pessoas reais com quem pode tirar suas dúvidas.

Hoje, já são 22 grupos espalhados por todo o país, do Rio Grande do Sul ao Amazonas, conectando e informando mais de 3.000 famílias. Além da divisão regional, existem também os grupos temáticos que tratam de questões específicas, como gestantes, amamentação, crianças na UTI, diagnósticos de West (outra síndrome comum na T21 que é caracterizada por convulsões constantes), famílias que vivem no exterior, entre outras. O intuito é dar referência e orientação para que essas famílias não se sintam sozinhas. 

Gabriela relata que ao descobrir a condição de sua filha, sentiu como se tivesse a maternidade roubada: “Você se sente menos mãe, porque não tem parâmetro. Quando você entra dentro desse grupo, vê que não é a única, que tem várias crianças que andaram, que falaram, que se tornaram adultos que dirigem ou até viraram atletas olímpicos. Você percebe que é mais sobre as oportunidades e dificuldades de cada um, porque nada que a criança com Síndrome de Down tem é exclusivo, tudo isso a pessoa pode ter sem a T21”. Além de fundadora da plataforma, ela também integra a rede de lideranças em prol da educação inclusiva no Rio de Janeiro e participa da rede de associações de síndrome de Down. Em 2024, durante o evento “Potência é a Mãe”, recebeu uma moção de reconhecimento na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro pelas atividades como ativista, realizadas em conjunto com a maternidade.

Gabriela conta que a maior dificuldade para as crianças é o preconceito e falta de oportunidades, portanto, o grande objetivo do Chat 21 é desenvolver autoestima dos gestores e genitores para que essas crianças tenham a firmeza de desbravar a sociedade, ter o apoio necessário para descobrir o mundo com as próprias pernas. “Não é o filho que veio errado, é a estrutura social que está errada. Se as pessoas que te cuidam, acreditam em você e te falam que você é capaz, você se empodera.”, diz em entrevista. 

Considerando o bem-estar social, premissa principal da Rede Saúva Jataí, como uma ideia que permeia tudo, inclusive a integração entre as pessoas, Gabriela acredita que existem muitos caminhos possíveis para trocas. Enquanto ativista da Rede em 2025, ela pretende colaborar na educação, na diversidade e na interlocução entre família e escola a partir da disponibilização de guias de boas práticas para o pertencimento, de oficinas e outras atividades reflexivas, assim como levar as crianças para eventos da Rede. “A gente quer acertar, mas muitas vezes temos vergonha de perguntar, queremos acolher e acabamos expondo demais. A medida é difícil, então pessoas que já passaram por isso podem ajudar a entender a melhor forma de lidar. O desafio é desconstruir os pais, porque as crianças ainda vão ser construídas, então é uma oportunidade constante.”, declara a fundadora. 

Neste ano, o Chat 21 pretende relançar alguns cursos, abrir uma turma para a pré-adolescência, criar conteúdo para as redes sociais e realizar encontros virtuais. Além do apoio da Saúva Jataí, a plataforma é mantida a partir de contribuições voluntárias, possibilitando que o serviço se mantenha gratuito para as famílias. Acesse o site https://www.chat21.com.br/ para saber mais. 

Por Luana Abreu – estudante de jornalismo da UFMG

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