Topo

A Sombra da Água – filme apoiado pela Saúva e Jataí é reconhecido pela ONU

Matéria publicada dia 15 de Novembro de 2026.

Uma jovem de 16 anos que queria reaprender a língua dos mais velhos, uma ilha cercada pelo Rio Negro e um pôr do sol esperado por dias. Foi com isso que “A Sombra da Água” (The Shadow of the Water), mini documentário de 04 minutos gravado na comunidade de Duraka Kapuamu (Camanaus), em São Gabriel da Cachoeira (AM), chegou ao PLURAL+ 2026. O festival é uma iniciativa da Aliança de Civilizações das Nações Unidas (UNAOC) e da Organização Internacional para as Migrações (OIM).

O filme recebeu o Reconhecimento dos Parceiros (Partner Recognitions) de três instituições: o Italian Movie Award, da Itália, o CHINH International Film Festival, da Índia, e o Festival de Cine Africano de Tarifa-Tánger, de Espanha e Marrocos. A cerimônia oficial aconteceu na sexta-feira (9), em East Hampton, Nova York, em parceria com o Hamptons International Film Festival. O curta é uma realização Desire, Wa’v’aW e Instituto Uhtã Bo’ó Wi’í, iniciativa apoiada pela associação Saúva e pela gestora de investimentos Jataí.

Uma sombra que só cabe dentro do rio

O filme nasce de uma inquietação de Nanayo: a distância entre os jovens da sua geração e os conhecimentos tradicionais. Na comunidade, a língua materna resiste sobretudo entre os mais velhos, que conduzem cerimônias em palavras que muitos jovens já não compreendem. A influência de fora também pesa. “Tem mais funk e músicas de São Paulo do que músicas culturais daqui mesmo”, conta.

Por isso, o público que ela tinha em mente era o próprio povo. “Pensei nessas histórias querendo contar para o meu povo mesmo, e não para as pessoas de fora. As pessoas de fora têm interesse, mas nós mesmos não sabemos da nossa própria cultura.”

A jovem Nanayo

O título partiu de uma imagem do diretor Taira Yūji. Ao entrevistar Nanayo, ele percebeu que as questões dela não vinham do externo, mas das suas inquietações pessoais, da vontade de reaprender a língua esquecida e de pertencer. “O rio não dá sombra para os lados. Se ele fosse alto o suficiente para isso, transbordaria. A sombra da água é projetada só dentro dela”, explica.

Um roteiro refeito e um único pôr do sol

A decisão de inscrever o filme veio a pouco mais de um mês do fim do prazo. Yupuri, que gravaria o filme, precisou viajar e deixou a câmera com Nanayo. Quem a assumiu foi Caiçaró Carneiro, tia da jovem e estudante de Audiovisual na Universidade de Brasília (UnB), que fez a direção de fotografia. “Ela me chamou: tia, vamos filmar comigo. É para mandar para a ONU”, lembra.

O tempo estava fechado, e as duas decidiram esperar o sol. “Já que fala da sombra da água, vamos trazer mais a parte das águas, inclusive o pôr do sol, que é muito bonito ali na comunidade”, diz Caiçaró. Quando o céu abriu, a uma semana do fim das inscrições, tudo foi gravado em um só dia.

O argumento e enredo criado por Taira foi mantido, mas o roteiro, escrito por Yupuri, foi refeito do zero e aprovado por Taira, que, mesmo a distância, colaborou na direção em todo o processo. Nanayo escreveu o texto narrado com a mentoria da avó; Caiçaró pensou a estrutura de começo, meio e fim. “Foi difícil encontrar as palavras certas. Foi um trabalho em conjunto mesmo”, conta a jovem. Essa mudança fez com que o filme tivesse ainda mais o protagonismo indígena e feminino: roteiro, fotografia, texto, narração, atuação, tudo partiu delas. Allan, montador do filme, elogiou a organização e empenho delas em todo o processo, mesmo com prazo apertado.

O filme abre numa casa de frente para o rio e segue a vida que acontece nele. A ilha, onde vivem mais de 50 famílias, é cercada pelo Rio Negro, e tudo passa pela água: crianças que se banham depois da aula, gente que sai para buscar peixe no cacuri, armadilha tradicional de pesca. “A fotografia, para além de ser uma imagem, também é uma poesia. E essa poesia ligada ao lugar onde a gente mora, onde a gente nasceu, é melhor ainda”, afirma Caiçaró.

Comunidade de Duraka Kapuamu (Camanaus), em São Gabriel da Cachoeira (AM)

Do grão de areia ao Rio Negro

“A Sombra da Água” é o capítulo mais recente de uma trajetória que começou em 2024, no litoral paulista. Taira Yūji, designer de formação que trabalhou com diretores de arte como Guto Lacaz e Mario Cafiero, gravou naquele ano “Ninguém Respeita a Areia”, média-metragem feito na aldeia Piaçaguera, em Peruíbe (SP), com recursos da Lei Paulo Gustavo. Na exibição na biblioteca da cidade, quase 80 pessoas lotaram a sala, que em outras ocasiões não chegava a ocupar nem 5 cadeiras.

O título trata cada grão de areia como uma pessoa, uma imagem que a diplomata indígena Samira Minduá, estudante de Relações Internacionais e responsável pela mediação com lideranças e comunidades, ajudou a construir. “Um grão sozinho não tem muita força. Mas, quando a gente olha para as dunas, elas são tão visíveis. Nós precisamos estar sempre unidos, porque sozinho não se consegue nada”, diz. O arquivo do filme, infelizmente, se perdeu, mas ele segue, nas palavras de Samira, como um documentário que existe espiritualmente e impulsionou os que vieram depois.

Foi o produtor executivo Paulo Brianez quem viu a chamada do PLURAL+. Como o festival aceita vídeos de até cinco minutos, a equipe gravou curtas centrados em jovens mulheres da aldeia, cada um inscrito em uma faixa etária. “Mundos Cruzados”, protagonizado por Suri e gravado com um celular durante uma caminhada pela aldeia, foi reconhecido pelos parceiros do festival em uma edição anterior.

Em outubro de 2025, a equipe acompanhou a Canoa da Transformação, uma expedição pelo Alto Rio Negro que teve a Saúva e a Jataí como apoiadoras. A jornada tinha como objetivo reunir parentes do Rio Negro após cem anos, e registrou o encontro em um documentário de meia hora protagonizado por Álvaro Tukano e Daiana Tukano, e narrado por Bu’ú Kennedy. Foi nessa viagem que conheceram Nanayo. No mesmo ano, dois filmes do grupo, “União dos Povos” e “Coparente”, foram exibidos na COP30.

Uma voz entre jovens do mundo todo

O PLURAL+ seleciona vídeos feitos por jovens de dezenas de países sobre migração, diversidade e inclusão social, e a escolha leva meses. Para o editor Allan Magno, o reconhecimento mostra que não são precisos grandes recursos. “Elas são exemplo de produção. Com um celular, alguém com vontade e uma ideia na cabeça, dá para se inscrever na ONU de novo”, diz. O Ministério dos Povos Indígenas apoiou a ida de integrantes da equipe à cerimônia com uma carta ao consulado dos Estados Unidos.

Para Nanayo, o passo seguinte é levar o filme para casa. “Esse vídeo tem que ser transmitido principalmente nas comunidades do baixo Rio Negro, para falar sobre esse apagamento. Para além da transmissão para fora, tem que ser uma transmissão para dentro.”

Nesse caminho, a rede Saúva Jataí se aproxima articular o filme com outros projetos de distribuição. Para Taira, o apoio vai além do financeiro.

“Muitas vezes tratam a gente como números. O que vocês estão fazendo me aquece o coração. O dinheiro é importante para que as coisas aconteçam, mas depende também desse olhar, que é muito bonito.”

Uma corrente que continua

A ideia é que cada edição do PLURAL+ traga uma nova protagonista, para que outras meninas vejam que têm chance de falar. Para Samira, Nanayo agora precisa ser reconhecida também pelo próprio povo. “Muitos jovens têm talento, mas não têm a oportunidade de alguém chegar e falar: olha, você quer? Eu vou te ajudar”, diz.

Para 2027, o grupo prepara um projeto aprovado pela Lei Rouanet e em fase de captação. Uma pesquisa no Brasil, no Japão e na Irlanda vai comparar como povos originários constroem casas, preparam alimentos e se vestem. Dela sairá uma série de 20 episódios, cada um com um protagonista e um saber, como os banquinhos tucanos, as canoas e as constelações, além de uma exposição fotográfica. Um grande nome do setor alimentício já demonstrou interesse em participar. A pesquisa prevê ainda a compra de objetos levados para a Europa, para devolvê-los aos povos de origem.

O modo de filmar seguirá o mesmo: roteiro aberto e atenção ao que acontece em volta. “As melhores fotografias que existem são as que você pega no momento. É o olhar do fotógrafo com aquilo que a pessoa do lado não enxerga”, resume Paulo.

A cerimônia de premiação do PLURAL+ 2026 aconteceu na sexta-feira (9) no Guild Hall de East Hampton, em Nova York. O evento integrou a programação do 34º Festival Internacional de Cinema de Hamptons (HIFF) e foi organizado pela UNAOC em parceria com o HamptonsFilm, com transmissão ao vivo pela UN Web TV. Na ocasião, foram exibidos e premiados curtas de realizadores de até 25 anos sobre migração, diversidade, inclusão social e combate à xenofobia.

Assista ao filme completo no site oficial do PLURAL+:

Ficha técnica

A Sombra da Água (The Shadow of the Water), com Nanayo Taliaseri. Mini documentário, 4 min.

  • Taira Yūji: direção, enredo e direção de fotografia
  • Nanayo Taliaseri: narração, roteiro e produção
  • Caiçaró Carneiro: cinegrafista, roteiro, produção e direção de fotografia
  • Allan Magno: edição e montagem
  • Roberto Causo: legenda e tradução
  • Bu’ú Kennedy: direção musical, consultoria, pesquisa e produção executiva
  • Paulo Brianez, Juliana Valbert e Samira Minduá: produção executiva
  • Desire, Wa’v’aW e Instituto Uhtã Bo’ó Wi’í: realização

Reportagem: Luana Abreu.

Fotos: Taira Yuji e Caiçaró Carneiro.

Compartilhar: