Topo

A jornada de Marcia Targino na construção da Rede e do Banco Comunitário Alegrias em Paraty

Matéria publicada em 12 de novembro de 2025.

Em meio ao isolamento e às incertezas da pandemia, uma musicista recém-chegada em Paraty encontrou na Rede Alegrias muito mais que um refúgio: encontrou um propósito. Marcia Targino, que chegou à rede para ajudar voluntariamente na organização de um grupo que crescia rapidamente, tornou-se uma peça fundamental na estruturação e consolidação do Banco Comunitário Alegrias, um projeto que fortaleceu, e fortalece, a economia local e alimentou corpos e almas durante um dos períodos mais desafiadores recentes. Agora, após um ciclo de intenso trabalho, ela se desliga da operação, deixando um legado que transcende a sua pessoa: uma equipe capacitada e uma rede madura o suficiente para seguir adiante com seus propósitos.

A trajetória de Marcia com a Rede Alegrias começou de forma orgânica. “A chegada na Rede Alegrias foi muito importante. Acho que foi uma virada de chave aí”, relembra. Com sua experiência prévia em gestão e trabalho remoto, ela se dispôs a organizar o grupo, que saltou de 50 para 150 famílias durante a pandemia. “A Rede Alegrias me proporcionou a possibilidade de autonomia e de estar fazendo alguma coisa por mim e pelos outros”, afirma, destacando que a rede foi um apoio essencial, inclusive quando ela própria contraiu Covid-19.

Marcia Targino

“Acho que a vida inteira eu procurei por isso e é isso que eu quero: essa ideologia, essas crenças e valores que me atraíram. E eu me disponibilizei, me dispus a prestar um serviço voluntário para organizar o grupo. Fui me envolvendo mais e mais, porque cada vez que eu via o quanto era importante o relacionamento e também trabalhar em grupo, um ajudando o outro. Olhando para o outro mesmo, como ser humano, isso foi me atraindo mais”. Marcia Targino – Rede Alegrias

Da moeda complementar ao Banco Comunitário

Percebendo que as trocas solidárias e a moeda complementar (não lastreada em real) poderiam perder força com o fim do período mais crítico do isolamento social, a rede investiu na qualificação. Um ponto fundamental na evolução da Rede Alegrias aconteceu durante a participação no encontro mundial de bancos comunitários, em Fortaleza, em 2023. Marcia e a cofundadora da Rede Alegrias, Mônica Calderón, apresentaram um relatório detalhado e transparente de um ano de atividades ao idealizador do Banco Palmas, Joaquim Melo. Durante todo o processo de formalização do Banco, foram acompanhadas de Hamilton Rocha, da Rede Paulista de Bancos Comunitários, que as treinou, qualificou e trabalharam juntos durante alguns anos. Outra parceria importante foi com Vani Caldas, gerente do Banco Comunitário Padre Léo, que as acolheu e ajudou em todo processo de adaptação e implementação do Banco Alegrias, em Paraty.

“Ele ficou encantado na hora”, conta Marcia. O resultado foi a abertura imediata da conta institucional do Banco Comunitário Alegrias, formalizando a parceria com a Rede Nacional de Bancos Comunitários. A moeda social “Alegrias” passou a ser lastreada em reais, permitindo maior integração com a economia formal e atraindo outros comércios locais, como postos de combustível, loja de produtos de limpeza e distribuidoras de gás, que viram no banco uma oportunidade de ampliar sua carteira de clientes e participar de um projeto social.

“A estrutura da Rede Alegrias sempre foi muito organizada. Mônica é uma pessoa muito organizada nesse sentido. E ela sempre fez questão de transparência. Eu acho que é uma das primeiras palavras que vem depois de banco comunitário, que é a transparência”.

Marcia Targino – Rede e Banco Comunitário Alegrias

Marcia comenta que no início do processo de construção da Rede Alegrias, a necessidade de implantação da filosofia e de ‘fazer acontecer’ acabou ficando muito personificada em suas lideranças. Mas “a Rede Alegrias não é só isso. A Rede Alegrias é uma associação que tem uma equipe grande. A gente tem hoje um número expressivo de 6 a 10 pessoas trabalhando, diretamente ou indiretamente. Então, nunca foi um trabalho feito só por uma ou duas pessoas. O trabalho em equipe, parceria, sempre foi muito importante”.

A “mágica” da circularidade

Um dos pilares do sucesso da Rede Alegrias é o que se chama de “a mágica da circularidade”. Diferente do real, que tende a ser acumulado, a moeda social tem como objetivo circular incessantemente dentro da rede. “O rendimento da moeda social é exatamente a circularidade, o empoderamento, o fortalecimento da economia local”, explica. Ela mesma vivenciou isso ao comprar um micro-ondas com a moeda social, um fato que inicialmente surpreendeu seu filho, que brincava chamando-o de “dinheiro de mentirinha”, mas que depois pôde constatar os resultados concretos.

“Porque a moeda complementar é aquele dinheiro que você cria. Na Rede de Alegrias, tudo tem valor: seu trabalho, seu produto, seu serviço, seus dons e suas habilidades. Se eu faço pão e você faz agenda. Quantos pães você quer por uma agenda? Ah, vamos trocar ‘elas por elas’, eu quero um pão assim e dou uma agenda assim. Então a gente precificou e valorou esses produtos”, explica Marcia.

Desligamento com cuidado e compromisso coletivo

Marcia trabalhou durante 20 anos como líder de negócios e empreendedorismo da Natura, com gestão de equipe e de pessoas focadas em resultados, mas um “trabalhar mais humanizado”. E uma das partes mais emblemáticas da jornada de Marcia pode ter sido a forma como conduziu seu desligamento. Consciente de sua inquietude e de que o trabalho, em grande parte voluntário, não supria todas as suas necessidades financeiras, e entendendo que a sustentabilidade da Rede dependia da descentralização do conhecimento e das funções, ela iniciou um meticuloso processo de transição.

“Eu não quero carregar ninguém nas minhas costas, nunca quis”, reflete. A solução foi dividir suas múltiplas funções entre diferentes pessoas. Chegaram novos integrantes como Álvaro Veloso, que trouxe ferramentas para análise de dados; Priscila Romão e Érica Mota, que assumiram a abertura de contas; e Lisa Cordeiro, responsável pelo pagamento de boletos. Marcia treinou cada um, não para serem sua réplica, mas para compreenderem seus papéis específicos e a interdependência entre as funções.

“Eu gosto de trabalhar bem, eu espero que as pessoas compreendam a riqueza que é trabalhar assim. Porque aí você nunca vai estar sozinho e nem sobrecarregando demais alguém. Você pode dividir esse estado, esse peso, essa preocupação”.

Marcia Targino – Rede e Banco Comunitário Alegrias

Marcia foi destrinchando todas as suas funções e sistematizações dos processos. Ela também orientou a própria Mônica, para que, mesmo sem executar todas as tarefas, entendesse o fluxo e pudesse orientar a equipe em caso de necessidade. O resultado foi uma saída tranquila. “Quando eu saí, as pessoas já estavam realizando o papel que tinha que desempenhar tranquilamente”.

Toda essa condução e metodologia transparecem e colocam em prática os princípios da autogestão à luz da sociocracia, quando as funções e propósitos são colocados acima das pessoas que os executam, despersonificando-os. Ela complementa: “É um estímulo para que o outro entenda o processo do companheiro, para poder fazer bem o trabalho dele”.

Hoje, Marcia segue como uma consultora eventual, “em processo de desmame”, como brinca. Seu maior desejo para o futuro é “assistir, assistir mais do que participar”, confiante no “potencial incrível” de cada pessoa que compõe a Rede Alegrias. Sua história na rede é um testemunho de que as maiores conquistas coletivas são aquelas que, no fim, não dependem de uma única pessoa, mas de uma comunidade organizada, qualificada e unida por um propósito comum.

Siga a Rede Alegrias no Instagram ; https://www.instagram.com/redealegrias/

E visite o site da Rede Alegrias : https://www.alegrias.org/

Compartilhar: