Apoio da Saúva e Jataí fortalece a expedição de povos indígenas pelo Alto Rio Negro
Matéria publicada dia 14 de Novembro de 2025.
Organizada pelo Instituto Ʉhtã Bo’ó Wi’í, o projeto Pamurĩ Yʉ’kʉsʉ – Canoa da Transformação se propôs a ser uma viagem cultural, espiritual e política para fortalecer os sonhos dos povos do Alto Rio Negro, suas tradições, modos de vida e saberes. Entre os dias 4 e 16 de Outubro, o grupo partiu de São Gabriel da Cachoeira e passou por Serra do Mucura, Pirarara Poço, Pari Cachoeira, e Comunidade São Pedro, e outras comunidades presentes na região. O projeto nasceu da necessidade de atualizar o diagnóstico sociocultural, ambiental e econômico das comunidades indígenas, por meio da escuta ativa com os líderes tradicionais da região, fortalecendo alianças entre os clãs do povo Tukano, e outros povos, e construindo, de forma coletiva, diretrizes para políticas públicas e projetos que valorizem os modos de vida tradicionais e a sociobioeconomia da região.


A expedição é uma experiência que busca abrir caminhos para diversos projetos, como o turismo de povos não-indígenas na região. Um dos grandes motivadores para a iniciativa é Geraldino Tuyuka, líder da comunidade São Pedro, que pediu ao Bu’ú Kennedy, presidente do Instituto Ʉhtã Bo’ó Wi’í, para que criassem projetos que viabilizassem a entrada de brancos nos territórios localizados no Noroeste da Amazônia, região fronteiriça do Brasil. Depois de várias viagens a Brasília, finalmente conseguiram aprovar com a FUNAI visitas de convivência nas comunidades indígenas. Esses intercâmbios culturais, para além da valorização do território e disseminação da cultura, são importantes para a geração de renda por meio da comercialização de artesanatos e da promoção de rituais. “Buscamos projetos que tenham algum retorno para nós também, não vale vir só para fazer oficina, pegar o conhecimento e ir embora”, confessa Bu’ú em entrevista – este foi o ponto de partida para a criação do Instituto.
A aventura inicia no município de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, de onde os participantes pegam uma voadeira até a Casa de Pedra de Quartzo Branco – Uhtã Bo’ó Wi’í, um local construído pelo Instituto para promover esse tipo de encontro. A casa foi construída em um ponto estratégico, fora de territórios indígenas demarcados e próxima ao município, facilitando a chegada dos turistas e evitando excesso de burocracia. O documentário disponível no Youtube conta sobre o processo de construção do espaço, um marco para a preservação cultural e o fortalecimento da identidade indígena na região do Alto Rio Negro. https://www.youtube.com/watch?v=1AtvViiAOuk

Inaugurada em junho de 2024 no sítio Uhtã Peri Pa’á, é um centro vivo de conhecimento, cura e intercâmbio de saberes. Recebe curandeiros de diversas etnias e visitantes de todo o mundo, reafirmando sua importância como um farol das tradições Ye’pá Mahsã. “Hoje em dia todo mundo adoece o tempo inteiro, antes não tinha disso – para cada dor tinha um chá. Então essa casa foi construída para lembrar a sabedoria dos sábios antigos, promover encontros entre os jovens e os velhos para partilhar informações. Quem passa por lá sai agradecido, se sente conectado com seus avós, tataravós. Recebem respostas, abrem as mentes. A casa vem para fortalecer e lembrar quem somos”, explica Bu’ú. O local promove retiros, encontros, atendimentos, cerimônias e rodas de conversa. Remonta a tradição e apresenta para quem é de fora. Dentro das paredes construídas a várias mãos, guarda-se um Tambor Trocano, um idiofone da família dos tambores de fenda, conhecido em diversas tribos brasileiras, que serve para a comunicação à distância – é um dos poucos que ainda existem no território, um símbolo de esperança e tradição.


Antes de iniciar a viagem pelas águas do Rio Negro, a natureza já dava seu recado: há que se respeitar seus tempos e limitações. A seca no Alto Rio Negro impediria a passagem do barco previsto para a viagem fluvial. A solução foi alugar barcos menores, chamados “bongos”, o que garantiria maior mobilidade e segurança durante a travessia. Bu’ú confessa que essa grande alteração se deve à emergência climática: “normalmente não está nada muito cheio nem muito vazio, mas ultimamente tem ficado sempre lá pra baixo”. O grupo inicialmente contava com 22 pessoas, entre elas Kasia Mich, diretora do documentário Nhemongarai. Próximo ao evento houve a soma de mais algumas figuras indígenas da região e militares, que apoiaram com a liberação de voadeiras com grandes motores para auxiliar no transporte, além de um sargento que acompanhou a tripulação garantindo a segurança. O General Glauco Corbari Corrêa colocou o exército brasileiro à disposição, firmando a importância desse tipo de expedição.
O encontro entre o povo Tukano e a Saúva se deu por intermédio do Biraci Nixiwaká Yawanawá, parceiro da Rede há anos, que sugeriu que Bu’ú escrevesse uma carta pedindo financiamento para a expedição: “Palavra de índio para índio”, brinca o líder. Assim, a Associação Saúva entrou como apoiadora da expedição, arcando com os custos logísticos como deslocamento, alimentação e despesas do sítio. O mais valioso proporcionado por esse apoio, no entanto, foi a vinda dos parentes Iawareté, os irmãos mais velhos do clã Doé, do povo Yepá Mahsã, que não se encontravam há mais de um século.


Álvaro Tukano, um dos mais importantes pensadores e lideranças indígenas do Brasil, chamado carinhosamente de Avô Álvaro por Bu’ú, relata como foi a vinda dos parentes: “Foi muito difícil e caro para trazer os nossos maiores do Rio Papuri/ Distrito Iawareté. Eles saíram da última Aldeia Melo Franco, desceram pelo Rio Papuri, que separa o Brasil com a Colômbia, passaram por Acaricuara, Piracuara e Monfort que ficam no lado colombiano. O Rio Papuri tem muitas corredeiras e cachoeiras, sem dúvida, os transportes fluviais batem nas pedras e, até, alagam. Depois, os nossos maiores chegaram em Iawareté, prosseguiram a viagem e pararam na Aldeia Urubucuara e percorreram numa estrada de 4km para chegar na Aldeia Ipanoré. A Cachoeira Ipanoré é grande e perigosa, por lá aconteceram muitos desastres. É o nosso território sagrado. Os nossos parentes conheceram o Rio Tiquie que não tem cachoeiras, até em Pari Cachoeira. Depois, passamos por Jabuti Cachoeira por onde aconteceram os alagamentos. Passamos pela cachoeira Caruru e você viu que não foi mole desembarcar toda carga/gasolina e carregar tudo nas costas. Depois, esperar e subir para chegar na Aldeia São Pedro/ Centro de Saberes dos Tuyuka. Depois, as Cachoeiras de Pedra Curta e Cachoeira Comprida”.

O encontro entre clãs antigos foi importante para pensar juntos como atravessar o presente e construir o futuro. O reencontro histórico entre lideranças antigas, a escuta das populações locais e a construção, de forma coletiva, de diretrizes para políticas públicas e projetos voltados à valorização dos modos de vida indígenas e à consolidação da sociobioeconomia na região. Os parentes vindos da Colômbia partilharam cantos e saberes. “Esse reencontro nos abençoou e fortaleceu, direcionando nossas vibrações para que futuras gerações tenham uma visão bem clara, que eles possam conhecer o ponto forte, o ponto negativo para poder caminhar nesta terra.”, conta Bu’ú. A força do encontro e dos cantos fez a chuva cair, o rio encher e o barco passar.
O relato de Álvaro segue: “Para coordenar a nossa expedição, também, não foi fácil. O Bu’ú trabalhou muito e montou uma equipe competente para tudo. Para nós foi a viagem mais importante: pela primeira vez, os descendentes do Doethiro se encontram. Vimos os lugares cheios de histórias vivas, o Bu’u que falava conosco e com os espíritos. Tomamos muito Kapi e a Andrea cozinhava rápido para nos alimentar.”

“Por lá, vocês não viram o gado, a monocultura de soja e nem as guerras como acontecem em outros do mundo. Vimos muita água e floresta. Eu agradeço o Bu’ú que curou muita gente. Agradeço ao primo João Bosco Marinho que, apesar de ouvir pouco me ensinou muitas coisas. A nossa conversa de chefes durante toda viagem foi incrível”, finaliza o Tukano.
Trabalhando em muitas frentes, Bu’ú tem grandes sonhos. Nessa semana da COP 30, ele vai representar a linguagem e a presença dos povos indígenas dentro das artes cênicas em Belém. O líder planeja organizar em livros e sites o idioma Tukano, assim como seus cantos, saberes das ervas e outras medicinas ancestrais para que sejam passadas para as próximas gerações.

“Esse apoio da Saúva fez o sonho dos velhos acontecer, isso pra nós é muito gratificante. A gente sonhava com essa possibilidade, então foi uma realização. Esperamos poder seguir essa aliança com história, disciplina, respeito e ética. Muito Añû!”, agradece Bu’ú.
Matéria produzida pela jornalista colaboradora Luana Abreu.
Fotos de: Taira Yuji Karaí Jekupé
Agradecimento especial: Lucas Derobertis