Topo

A bailarina Dudude Herrmann potencializa talentos através de vivências e cursos em Brumadinho/MG

Matéria publicada em 20 de dezembro de 2022.

Dudude Herrmann é bailarina, coreógrafa, diretora de espetáculos e professora de dança há mais ou menos 50 anos. É reconhecida por sua resistência e persistência nesta área das artes em que vem trabalhando a linguagem da improvisação na dança. Ela é da geração formada pelo TransForma Centro de Dança Contemporânea: primeiro como aluna e, posteriormente, como bailarina, professora, coreógrafa e diretora artística do grupo. Trabalhou como professora e coreógrafa também para o Grupo Galpão, Cia Burlantins, Grupo de Dança 1° Ato, Companhia de Dança do Palácio das Artes, Grupo do Beco e Oficinão Galpão Cine Horto. Mais tarde fundou e dirigiu a Benvinda Cia de Dança no intuito de aprofundar e inventar uma dança conectada  aos anseios brasileiros. Com seu trabalho, Dudude investiga a dança dentro de uma linguagem contemporânea, construindo lugares fomentadores e transformadores na questão do pensar, tendo um corpo que escuta, registra e escreve a dança que o habita.

Dudude conta que “está artista de dança e seus desdobramentos, sou uma artista de coisas e derivantes”. Ela tem um Atelier na própria casa, num condomínio em Casa Branca – Brumadinho, na Grande BH. A coreógrafa e ativista diz que o sentimento de pertencimento a uma Rede (Saúva Jataí), de se sentir valorizada e ver que não está sozinha, é uma ficha que foi caindo aos poucos. Ao receber o apoio da Bolsa Ativista da Saúva, percebeu que existe um rede onde todos estão nessa empreitada da invenção. “E são tratados assuntos tão importantes e essenciais pra qualidade da formação de um ser: a arte, cultura, meio ambiente, educação, tudo isso enriquece cada um de nós nessa qualidade de existência”, conta Dudude.

O Treino em Movimento acontece mensalmente aos sábados, aproveitando o estúdio do Atelier e a parte externa da casa

A Bolsa Ativista fez com que ela ganhasse confiança e começasse a ousar em suas propostas artísticas e culturais porque há um terreno fértil para prover e propor ações em seu Atelier. Dudude produz e é propositora da vivência Treino em Movimento, que tem o objetivo de ativar as células do pensamento, do corpo e do desejo através do movimento, é direcionado para a pessoa comum, independente do ofício que esteja lidando; no Café da Tarde, convida artistas em sua maioria das artes da cena viva, como do teatro, dança, artes visuais, literatura e filosofia para um bate-papo virtual, que é postado como Podcast no link https://open.spotify.com/show/3jksTSkHVOTrpvAz1LzH1F?si=a5c2c6a7b98e402a; realiza as Trocas Colaborativas onde artistas que trabalham em parceria e processos de colaboração criativa, incentivando conversas sobre os modos operantes onde a colaboração é fundamental. Herrmann também promoveu um experimento com o Concerto para a manhãs, que tem o desejo de esperançar e acontece nos domingos pela manhã. São convidados artistas de teatro, música, poesia e dança para se apresentarem no formato Pocket Show, esse projeto piloto terá duas versões em cada semestre de 2023. Em janeiro acontecerá o Mergulho Treino Intenso com Morena Nascimento e Dudude Herrmann, que promoverá um mergulho, de treino, vivendo a intensidade do encontro. Confira a matéria completa no link: https://sauvajatai.com/estao-abertas-as-inscricoes-para-mergulho-treino-intenso-no-atelier-dudude/. A coreógrafa conta com a ajuda de vários colaboradores, que recebem um pró-labore mensal para a produção, artes visuais, redes sociais, alimentação e jardinagem. Para o ano que vem, planeja também trazer para as Trocas Colaborativas artistas que tiveram papéis importantes no avanço da linguagem em suas áreas.

A cada Café da Tarde, uma artista de dança é convidada para conversar sobre seus trabalhos e processos criativos

“Eu tive a sensação de que ter aliados que confiam no meu taco e dizem ‘vai, produz e faz’, é de uma importância genuína. Porque eu tenho fragilidades por estar dentro de um condomínio. Mas eu fiz vários eventos e ações, como o Encontro Prático, em que chamo estrangeiros, não só de além-mar, mas que não convivam em Minas Gerais, que venham de outro lugar fomentar (a arte aqui)”.

Dudude Herrmann – bailarina, coreógrafa e professora de dança

Apoio, reconhecimento e valorização

Dudude conta que, com o suporte da Bolsa Ativista, ela pode trabalhar uma economia de base, fazer concessões para pessoas e estudantes que não têm condição financeira, com bolsas colaborativas ou meia-bolsa. Também ressalta a importância de promover educação financeira com o público: quando são ofertadas aulas, workshops e apresentações, o lado financeiro precisa estar vivo para se bancar. “E se é um ofício que quer ocupar esse lugar de publicações de oportunidades no espaço,  ele  também precisa aprender a pescar; por isso sempre falamos que os patrocinadores dos acontecimentos que aqui se dão são todos que aqui afluem”, explica Herrmann.

Dudude ainda participa de Editais, propõe projetos para prover o seu lado de bailarina e coreógrafa; e também o faz por conta própria e solo, por questão de viabilidade financeira. Ela reclama que todos Editais são “endereçados” e a maioria dos patrocinadores quer interferir nos trabalhos artísticos, o que considera muito desagradável: “desfigura todo o sentido do projeto; e é uma situação que a Saúva não faz, ela te dá liberdade, te dá o alicerce para continuar fazendo”.

Em setembro, Dudude realizou o curso intensivo de Kinomichi nas Montanhas com Christiana Cavalcanti

A sensação que a Bolsa deu para Dudude Herrmann é de respeito e valorização de quem trabalha no campo do sensível, avalia a ativista: uma dignidade de existir e se colocar num lugar de valia que é animador, de que não está só. Ela reconhece que existe um grupo de pessoas que estão na mesma frequência de entendimento, de melhoria de vida, de mundo, de qualidade, de importância e de bem-estar nos sentidos ecológico, humano, ambiental, social, cultural, artístico e nutritivo. “Porque isso é uma cadeia fluida, que passa por como construir uma pessoa de mundo afirmativo, do ‘sim’ enquanto potência. E isso tem a ver com a valia, com a estima; do reconhecer-se com um ofício que é valioso, do campo do sensível, do invisível e do trabalho que altera os nossos modos operantes de existir”, explica.

Planos para 2023

Depois de 14 anos morando em Casa Branca, ela começou a dar aulas regulares de dança em seu Atelier, pois havia um receio pelas questões condominiais. Ela  acredita que este impulso pode ter sido um “efeito Saúva”, de buscar um aumento na renda e trazer pessoas da região para fazer essa transformação, via movências e conexões. A ideia para o ano que vem é planejar um Curso Livre de linguagem da cena viva: “começaremos  a estudar isso, como isso se dá, como eu poderei prover e, à princípio, será um curso híbrido de um ano e meio comigo, na linguagem da improvisação e com vários colaboradores que atuam nesse pensamento vivo de um corpo ativado, ativo, pra cima. Ligando a filosofia à percepção corporal”.

Em janeiro de 2023, será realizado o Mergulho Treino Intenso com Morena Nascimento e Dudude Herrmann. As inscrições estão abertas no link http://linkr.bio/dudude

Dudude destaca também importância da produtora e parceira, Patrícia Matos, que a acompanha há mais de dez anos e lhe dá muita estrutura para entender e acreditar que a Arte pode lhes sustentar. Ela conta que sempre se sustentou com Arte, começou aos 14 anos, tem uma carreira sólida e reconhecida mas ainda está em busca de autonomia. Ela conseguiu se aposentar, o que vários de seus pares não conseguiram, e com isso tem uma renda mínima, que também a ajuda a sustentar o Atelier.

Um outro projeto para o ano que vem se chama Desorganizando Saberes, para ser realizado em Belo Horizonte. A ideia é reunir artistas de áreas distintas e desorganizar os saberes tradicionais. “Ele vai se especializando tanto que para de ter essa visão 360 graus. Então farei essas ações, vou farejando as pessoas que chamarei, mas dando tempo ao tempo, vendo como isso será feito; e todos eventos não são gratuitos porque não podem ser: isso também é educação”, explica.

No Atelier Dudude a dança é para bailarinos e para outros ofícios também

Dudude conta que ama o que faz, que se realizou como professora de dança e continua se realizando em seu Atelier, uma construção familiar que necessita de cuidados, recursos e sustentabilidade. E o desafio é descobrir como isso pode ser feito e o que precisa ser feito. “A missão do Atelier é fortalecer a comunidade sensível do mundo e do planeta, e é isso o que eu faço junto com os colaboradores; porque estamos guerreando o tempo inteiro. E aqui há uma conexão com a terra, com o verde e com a beleza das coisas. O Atelier hoje é ponto de referência no mundo, porque ganhei essa herança como presente”, conclui.

Compartilhar: