
Entre os dias 11 e 16 de julho de 2026, tive a oportunidade, através as Saúva, de participar do 1º Encontro dos Líderes dos Clãs Ye’pá Mahsã, em São Gabriel da Cachoeira. Trago comigo algumas sementes de pensamentos entremeados com os afetos que se misturaram durante a convivência. Fui contagiada pelos encontros. Implicaram todos os sentidos. Uma riqueza de conversas, imagens, sons, luzes, cores, sabores, odores, vapores, que entraram pelos ouvidos, por todos os poros e papilas, estimularam as retinas, e arrepiaram até a flor da pele. Uma experiência amazônica com todos os seus superlativos, seus espantos e seus encantos, com espaço pra rito, rio e riso, com tempo pra divagar com margem. Foi muito intenso, muito imenso. Voltei fertilizada, e me pus a escrever pra tentar plantar nesses canteiros de linha, algo que se possa colher, se alimentar e, quem sabe, semear os caroços que restarem na boca.
Foram vários encontros motivados por um Encontro, em que constelações foram sendo tecidas, encontros pra dentro de mim e também pro verso, mundos afora. Deixo aqui o que consigo traduzir em palavras. Procuro adubar o relato com o contexto, para que ele aflore. Mas, preciso ser honesta: algumas coisas são impalavráveis. E é bom que continuem assim, pois é a parte indescritível que faz da presença um valor, e que torna os encontros indispensáveis para a geração de mundos abundantes, trans-bordantes.
No aeroporto de Manaus, antes de entrarmos no pequeno avião que nos levou para São Gabriel da Cachoeira, um grupo de não indígenas se formou com o mesmo destino: a casa de cerimônias Uhtã Bo’ó Wi’í. Eramos eu, Perfeito Fortuna, Ana Paula Abreu, Kasia Mich, Daniel Correia, Verena Barros e Luiz Davi Gonçalves, cada um com uma relação diferente com o povo Ye’pá Mahsã e com a Saúva.

Uhtã Bo’ó Wi’í fica no sítio Uhtã Perí Pa’á, de propriedade da família do xamã e artista plástico Bu’ú Kennedy, uma liderança respeitada pelos Ye’pá Mahsã. Por sua vez, Ye’pá (criador) Mahsã (gente) é a autodenominação do povo conhecido pelos não indígenas como Tukano. Eles habitam aldeias e pequenas cidades espalhadas nas bordas do Alto Rio Negro, se entrelaçando com os Desana, Tariana, Tuyuca Kubeo e tantos outros povos trazidos no ventre encantado da Pamuri Gahpiru ou Pamuri Yu’ku’su, a cobra-canoa da transformação.
Do porto de São Gabriel da Cachoeira, embarcamos juntos pelo Rio Negro. Suas águas escuras espelham o céu, e nadar por elas se torna um voo margeado por florestas. Assim, a voadeira que nos conduziu a Uhtã Perí Pa’á flanava como um tapete mágico pelo rio, até chegarmos a Uhtã Bo’ó Wi’í, onde aconteceu o 1º Encontro dos Líderes dos Clãs Ye’pá Mahsã.
Mas antes, bem antes, o mundo não existia.

São Gabriel da Cachoeira fica no extremo noroeste do estado da Amazônia, naquela parte do mapa que parece uma cabeça de cachorro. É conhecida por ser a cidade mais indígena do Brasil, com 4 idiomas oficiais, e por abrigar o ponto mais alto, o Pico da Neblina. Trata-se do terceiro maior município do país em extensão territorial, quase todo coberto por florestas, rios e montanhas, onde moram 24 povos indígenas e mais uma miríade de outros seres que fazem desta região a de maior biodiversidade do planeta. Ou, dito de outra perspectiva, a região com os recursos naturais mais disputados do globo. Por estar na fronteira com a Colômbia e a Venezuela, tem forte presença do Exército, dos quartéis, dos soldados e da mentalidade militar. Aqui, a fronteira é bastante rígida entre um suposto “nós” bem restrito, e um “eles” continuamente desqualificado.
A dinâmica social recebe também uma expressiva influência da ocupação messiânica cristã. Os primeiros aldeamentos jesuítas e carmelitas foram seguidos pela fundação do forte de São Gabriel, em 1761, para garantir o domínio territorial português. O início do século XX foi marcado pela atuação dos Salesianos, imprimindo elementos e valores europeus como escolas e internatos, separando as crianças de suas famílias, impedindo o uso das línguas nativas em benefício do português, além de atendimento médico e assistência sanitária com referencial ocidental. Nos anos 1950 cresceu a presença de missões protestantes e pentecostais, provocando reconfigurações profundas nas praticas e crenças tradicionais. Junto com as disputas pela alma indígena, seguiram também as pressões pela terra e pelo subsolo da Amazônia.
Além da exploração da madeira e do próprio solo para expansão agropecuária, a biopirataria continua movimentando um mercado lucrativo que enriquece com a extração de recursos biológicos da fauna, flora e microorganismos e com a apropriação indevida (sem autorização) dos saberes tradicionais. A exploração de minério também é bastante significativa nesta região, e combina a atividade comercial regular com o garimpo ilegal e a busca por minerais críticos. Uma das principais reservas de nióbio do mundo está localizada na Terra Indígena Balaio, do povo Ye”pá Mahsã, liderada por Álvaro Tukano. Apesar da Terra Indígena do Alto Rio Negro estar homologada e regularizada pelo governo brasileiro, a força do capital ameaça sem trégua fazer a boiada passar.
Portanto, conflitos fundiários, interesses na exploração da fauna, flora, minérios, e o projeto de evangelização e catequese dos povos indígenas, mantêm vivo o projeto colonizador desde a invasão. E as gentes que adiam o fim do mundo dentro da floresta, na beira do rio, são feitas dessas e de outras histórias, desde antes, quando o mundo não existia.
Chegamos na “Casa de Pedra de Quartzo Branco”, ou Uthã Bo’ó Wi’í, em Ye’pá Mahsã. Trata-se de uma grande construção tradicional, com cerca de 30 metros de comprimento e 10 metros de altura, feita de madeira com cobertura de palha Caraná, onde nos reuníamos no corredor central durante o dia, e dormíamos em redes enfileiradas nas margens, embalando nossos sonhos durante a noite.
Muito além de um abrigo, esse tipo de maloca é um marco bastante relevante no resgate da cultura desses povos. Trata-se de uma casa de cerimônias, de rezos, onde se cultiva a memória. Nas palavras da Daiara Tukano, no Instagram:
“Chamamos de Casas de Transformação nossos sítios sagrados, e é nas Malokas que sempre nos reunimos para celebrar os grandes Dabucuri[1]. Nossas casas são vivas porque são o lugar legítimo da passagem do conhecimento dos avós para os netos e netas, é onde acontecem os ritos de iniciação, os cantos e as rezas”.

Portanto, o que acontece no interior dessas casas é o que sustenta a ancestralidade que, por sua vez, não está fixada no passado, precisa ser alimentada regularmente para se manter viva. A memória, assim como a ancestralidade, precisa ser cultivada pelos laços sociais que conectam essas comunidades. Esse cultivo se dá pelos encontros nessas casas de cerimônia, pelas conversas tecidas nesse ambiente coletivo, pelos cantos, pelas danças e pelo uso de substâncias cerimoniais, como o kahpi (ayahuasca), o rapé (pó feito da mistura do tabaco com cascas de árvores ou ervas medicinais), o ipadu (pó feito a partir de folhas de coca) e o tabaco, todas elas substâncias que também são cultivadas nos quintais e nas roças ao redor. Plantas-gente que conversam com gente-planta, que contam as histórias de antes de nós, quando o mundo não existia:
Pela cosmologia dos povos do Alto Rio Negro: “Enquanto não havia nada, apareceu uma mulher por si mesma. Isso aconteceu no meio da escuridão. Ela apareceu sustentando-se sobre seu banco de quartzo branco.”[2] Ela se chamava Yebá Buró, a “Avó do Mundo”. “No seu quarto de Quartzo Branco, ela comeu ipadu, fumou tabaco e se pôs a pensar como deveria ser o mundo”[3]. E foi a partir do seu pensamento que surgiu a grande esfera, a “Maloka do Universo”. Essa é a origem de tudo.
Essa é a dimensão da importância desse tipo de construção. Uhtã Bo’ó Wi’í é a “pedra fundamental”, um marco no resgate da cultura Ye’pá Mahsã.
Foram 6 dias convivendo em Uhtã Bo’ó Wi’í. Em terras de superlativos, o tempo também se estende sem entediar, a experiência não cabe no relógio, e cada dia ganha a intensidade de uma semana inteira, sem acelerar. Sem pausa e sem pressa.
A programação do Encontro foi organizada a partir de alguns temas:
- Dia 1: O Dia da Abertura
- Dia 2: O Dia da Origem
- Dia 3: O Dia das Mulheres Sábias da Região
- Dia 4: O Dia do Futuro
- Dia 5: O Dia do Fechamento
- Dia 6: Retorno
Assim, a cada manhã e cada tarde, Bu’ú, como anfitrião, xamã e mestre de cerimônias, servia kahpi para todos os presentes, depois convidava alguns homens e mulheres ao centro da casa para se sentarem em pequenos banquinhos tradicionais para falarem sobre o assunto do dia, sem qualquer restrição de tempo. Aliás, no documento recebido previamente tratando da programação, já vinha o aviso:
“As lideranças dos clãs poderão falar e contar a história. Essas histórias não tem como prever o tempo. Dependendo do velho, ele pode contar por uma hora ou mais, porque é a memória dele, é a palavra dele, é o tempo dele.”
A experiência do tempo na maloca fertiliza o convívio, a atenção e a imaginação coletiva, e contrasta com a velocidade estéril das cidades, que nos condiciona a um estado de ansiedade e esgotamento infrutíferos. Nos tornamos tão automatizados e atomizados pela aceleração, que somos levados a acreditar que o mundo se resume a um presente curto, fragmentado e sem sentido. O tempo cria laços. Viver sem tempo é o que desfaz os vínculos que podemos tecer entre humanos e para além de nós.
O Encontro reuniu, aproximadamente, 60 pessoas, apenas umas 15 eram não indígenas, como nós, da Saúva. Por isso, praticamente todas as falas indígenas foram feitas na língua Ye’pá Mahsã, com uma tradução pontual e resumida para os não indígenas ora feita pelo Bu’ú, ora pelo Álvaro. Sim, porque todos ali falavam português, mas nenhum dos brancos sabia falar ou entendia Yepá Mahsã.
Ao longo do dia, além do kahpi, outras substâncias cerimoniais e medicinas tradicionais eram oferecidas, como rapé, ipadu, cigarro de tabaco, sananga (colírio à base de raízes da família das apocináceas) e, nos momentos mais festivos, também o caxiri (bebida fermentada à base de mandioca ou cana-de-açúcar). O uso dessas substâncias cerimoniais foi estimulado pelo Bu’ú, especialmente entre os Ye’pá Mahsã, como um meio de acessar a ancestralidade que une esses povos do Alto Rio Negro. O afastamento dessas práticas tradicionais – seja pelo esquecimento induzido pela opressão do colonizador, ou por medo dos desdobramentos – facilitou o espalhamento do alcoolismo e da internet, apontados como heranças do encontro com o povo branco. O contato com o mundo ocidental fez com que os Ye’pá Mahsã fossem perdendo o contato com o seu próprio mundo.

O desterro cultural se tornou uma pratica valorizada entre nós, brancos. Trabalhamos pelo des-envolvimento com a história coletiva, com os laços sociais, com o ambiente, com tudo que for além do nosso umbigo. E fomos eficazes em transmitir nossa tecnologia narcísica distribuindo nossos espelhos mundo afora. A disciplina do capital e da burocracia é transmitida com heroísmo, formando semelhantes por onde passa. É aterrador perceber como a cultura ocidental fez outros mundos deixarem de existir. Mas é extremamente transformador testemunhar mundos emergindo.
O 1º Encontro de Clãs selou uma aproximação entre os Ye’pá Mahsã, depois de mais de um século sem se encontrarem. Sim, faziam mais de 100 anos que as lideranças desses clãs não se reuniam. Ficaram sem ouvir a própria história, sem cantar nem dançar juntos. Neste contexto de degradação do tecido social e do sentido de ancestralidade, a estratégia de promover um encontro foi um jeito de fazer política que funciona como antídoto para o des-envolvimento. A partir da re-união dessas lideranças na grande maloca, eles puderam reconstituir sua cosmologia sustentada pela memória e pelos ensinamentos transmitidos pelos mais velhos e pelas mais velhas, ensaiar seus cantos, reviver as danças. Celebrar com orgulho. Sem dúvida alguma, um momento histórico. Portanto, as falas, as trocas, os festejos, o que se consagrou dentro de Uhtã Bo’ó Wi’í durante esse tempo não foi da ordem da representação ou da demonstração de uma cultura. Foi ela se fazendo, se erguendo diante de nós.
O mundo Ye’pá Mahsã voltou a existir.
Para tanto, antes, em 2025, Bu’ú organizou uma expedição para percorrer a região do Alto Rio Negro, conversando com os parentes nos entrepostos de Pari-Cachoeira, Taracuá e Iauretê, visitando as comunidades de Pirarara Poço, Serra do Mucura, Caruru, São Pedro, São Domingos, São Paulo e Balaio, para mobilizar as lideranças para participarem do Encontro de Clãs. São lugares de difícil acesso e com alto custo de deslocamento, pois toda a locomoção precisa ser feita pelo rio, e a gasolina, sabemos, está cada vez mais cara. Foi possível vislumbrar um pouco desse esforço e dos deslumbres dessa expedição através do mini-documentário “Um encontro após 100 anos” do cineasta guarani Taira Yuji Jekupé, e do documentário “Memórias de uma viagem pelo Alto Rio Negro”, da Kasia e do Daniel, ambos exibidos durante o Encontro.
É preciso dizer que tanto a realização do Encontro em Uhtã Bo’o Wi’í quanto os filmes, receberam o apoio e recursos da Associação de Fomento Saúva. Por isso eu, Perfeito, Ana Paula estávamos lá, representando a Saúva e testemunhando a (re)existência do mundo e a cosmologia Yep’pá Mahsã re(x)istindo.
Embora o foco primordial do Encontro fosse reunir as lideranças dos clãs Ye’pá Mahsã, outros parentes e parceiros também foram chamados como Josimara Baré do CIB (Conselho Indígena de Boa Vista), Bruno Rocha da FUNAI (Fundação Nacional dos Povos Indígenas), Helio Monteiro da FOIRN (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro), Gilson Gois (advogado), entre outros. Foram convidados ainda representantes de instituições financeiras, investidores e captadores como o Philippe Greier, o Marcelo Cwener da Amazon Investor Coalition, e a própria Saúva, na condição de “apoiadores”, para “pensar soluções reais, alianças e estratégias de fortalecimento dos territórios.”[4] Tarefa nada fácil pra quem vem de um mundo repleto de distopias.
A presença das “rainhas das formigas”, que foi a forma como eu, Ana Paula e Kasia fomos apelidadas pelo Bu’u, despertou certa curiosidade. Mesmo que a programação já destacasse a participação das mulheres indígenas, nossa atuação como mulheres não indígenas identificadas com a Saúva, foi notada, demandada e avaliada por todos. Mulheres com voz e poder de decisão ainda são incomuns em qualquer mundo. A importância de reconhecer o que nos une como mulheres, nutriu e encorajou a participação de todas nós num ambiente predominantemente masculino.
As mulheres, mães, parteiras e curandeiras, falaram sobre seus conhecimentos com ervas medicinais, cultivo e manipulação de remédios tradicionais, sobre cuidados no parto, arte em cerâmica, artesanato, e também sobre os desafios em casa e a sobrecarga de trabalho. E quando o assunto chegou na governança e no dinheiro, não pouparam palavras para denunciar os abusos que sofriam e exigiram mudanças dentro de suas próprias comunidades. O Encontro proporcionou que a voz delas tivesse lugar e que fosse ouvida com respeito.

Durante a programação, para apresentar a Saúva para aquele público alimentado pela própria cosmologia, contada, cantada e dançada pelos mais velhos e mais velhas, recorri a dois paradigmas que me parecem pertinentes para colocar em perspectiva dois mundos. Um é o paradigma da escassez, baseado na falta, que induz a competição pela convicção de que nunca haverá o suficiente para todos. Essa é a sociedade ocidental, pautada no individualismo, na rivalidade e na crença de que o capitalismo é a única realidade possível. A outra perspectiva é a da abundância, dos que se dedicam a praticas colaborativas, valorizando a criatividade e a partilha como meios de prosperar em comunidade. Para esses, existem muitos mundos possíveis concomitantes, entremeados. E era isso que estávamos tendo a oportunidade de testemunhar: pessoas com audácia para assumir o risco de conceber uma forma diferente de viver, buscando descolonizar o encontro, não apenas resgatando a memória ancestral Ye’pá Mahsã, mas também procurando estabelecer uma relação com os não indígenas que seja emancipatória, não subordinada. Falei sobre o interesse da Saúva em tecer redes de alianças que viabilizem a circulação econômica não acumulativa, buscando um caminho de abundância por dentro de um mundo de escassez. Falei do dinheiro como uma energia poderosa que desafia nosso senso ético e nossa espiritualidade. Quando o dinheiro entra numa relação, pode facilmente corromper os envolvidos a agirem pela lógica da escassez. Não há como escapar disso sem arriscar e confiar em outros modos de viver e se relacionar. Acredito que este encontro indica uma disposição para cocriação de outro mundo, onde o capital já faz parte, mas pode não dominar as relações.
Uhtã Bo’ó Wi’í é também o nome do Instituto criado por Bu’ú Kennedy (Presidente) e pela artista, mestra em Direitos Humanos e ativista Daiara Tukano (vice-presidente), respectivamentes sobrinho e filha de Álvaro Tukano, juntamente com Lucas Derobertis, Verena e Luiz Davi, que compõem a equipe administrativa. O Instituto Uhtã Bó’o Wi’í, através de seus membros e colaboradores, foi responsável pela realização do Encontro, e mostrou-se extremamente hábil ao fazer conviver o mundo tradicional e o mundo de burocracias dos brancos. Uma certa organização imprecisa, um foco dilatado, com a destreza de quem sabe viver na beira. Além de registros em áudio e vídeo de todo o Encontro, um relatório escrito também foi produzido para atender às demandas de povos que guardam a memória em arquivos. Faz pensar que, depois de décadas de opressões e abusos sofridos pelo Estado brasileiro, os Ye’pá Mahsã aprenderam não apenas o português como também a língua da burocracia, conferindo a este povo um conhecimento sobre os códigos, usos e costumes da sociedade branca, que permite que hoje possam manejar essas ferramentas com desenvoltura, para lutar pela integridade dos seus modos de viver.
Durante o Encontro, Bu’ú propôs a criação de um Conselho de Sábios e Sabias, com representantes de todos os clãs, homens e mulheres, não apenas para cultivar as relações, mas para tomar decisões colegiadas e deliberar sobre a distribuição de recursos captados. Entre os principais pontos de compromisso estão a união territorial; a paridade política das comunidades entre si, assim como a igualdade de gênero; a busca pelo consenso; a transparência no gerenciamento das verbas; e o respeito aos saberes técnicos e ancestrais. Este Conselho recebeu o nome de Associação Regional Indígena e deverá ter reuniões regulares online, além de encontros presenciais quando for possível. A Saúva foi convidada a fazer parte, como membro consultivo, podendo contribuir com sua expertise no mundo financeiro, mas sem interferir nas tomadas de decisão. O documento de criação do Conselho foi formalizado pelo advogado Gildo e firmado por todos os integrantes no último dia.

Tudo isso aconteceu dentro da grande casa de cerimônia Uhtã Bo’ó Wi’í, na força do kahpi, com ipadu e rapé, sob o cheiro do breu queimado, os sopros de tabaco, os pés descalços e o suor escorrendo pelo corpo. Entre mirações e peias, mundos confluíram do que sobrevivia apartado. Um encontro com tempo, com espaço, com floresta, com rio, com ritmo, com canto, com dança, com sono compartilhado, sonhos embalados, alimento comungado, com trabalho, com frustrações, com insistência, com paciência. Um encontro com.
A estratégia do encontro é uma política envolvimentista, pactuada por festas em trabalhos de encantaria, muito praticada pelos povos tradicionais para desbloquear futuros. Uma política experimental que investe nas misturas, no entre-mundos e na trama do tempo. Esse modo de viver e nutrir as relações não entende de progresso e nem se prende ao passado, pois se interessa pela coexistência. São nessas condições que um futuro ancestral se faz presente, a partir do cultivo de alianças das mais diversas, redescobrindo a potência do coletivo.
Depois de uma semana de sol com noites absurdamente estreladas, no fim da tarde do último dia, um vento forte chegou anunciando uma chuva amazônica. Da Maloka a gente avistava as árvores balançando lá fora. Ali dentro um grupo de homens começou a dançar e cantar, batendo grandes bastões no chão ritmadamente, como se afirmassem “ainda estamos aqui”, enquanto um grupo de mulheres se aproximava para dançar junto. O céu escureceu e a chuva se derramou intensa, fartamente. O vento e a luz da tarde entravam trêmulos pelas duas grandes portas de Uhtã Bó’o Wi’í. Uma cena de cinema…
Não. A vida se dando com outra dimensão.
Um outro mundo acontecendo, bem aqui na Terra, no meio da floresta.
Añu.
[1] Dabucuri é um ritual dos povos do Alto Rio Negro para celebrar a fartura e a união por meio de trocas de alimentos.
[2] LANA. Firmiano Arantes. LANA, Luiz Gomes. Antes o mundo não existia: mitologia Desana-Kèhiripõrã, p.11.
[3] Idem. Ibdem.
[4] Proposta descrita no documento preparatório que foi encaminhada aos participantes.
Acesse através do link abaixo o vídeo documentário produzido pela equipe de comunicação da Saúva e Jataí: