Matéria publicada dia 20 de Agosto de 2026.
O recém reformado Pier Mauá sediou em agosto a 6ª edição do Rio Innovation Week, uma das maiores conferências globais de inovação, tecnologia e negócios. O evento reuniu empresas, startups, investidores, especialistas, representantes do setor público e da academia em uma programação extensa e diversa entre os dias 4 e 7 do mês de Agosto. Com o tema “Simbiose: o futuro não acontece isolado”, a edição de 2026 propõe a colaboração entre setores, pessoas e países como alternativa para pensar na construção do futuro a partir de ações presentes. O conceito orientou o roteiro do evento que contou com eixos temáticos como inteligência artificial, agronegócio, sustentabilidade, economia criativa, marcas, saúde e geopolítica.
Com um público que somou mais de 200 mil visitantes, os cerca de 40 palcos reuniram conferências onde 3 mil palestrantes vindos de mais de 20 países diferentes propuseram debates dentro das muitas áreas de abordagem. A tecnologia surge como um índice da inovação evocada pelo evento, que parece querer se traduzir em objetos concretos que possam estar sempre ao alcance de um espectador. Os 100 metros lineares de painéis que exibiam artes criadas por IA, dividiam a atenção do público com humanoides, ventiladores holográficos 3D, óculos de realidade virtual, um foguete brasileiro lançador de Satélites, e ainda, atracado no píer, o inescapável NAM Atlântico, maior navio de guerra da América Latina que entrou na programação ao hospedar palestras e exposições pelo segundo ano consecutivo.

Situado em frente aos armazéns do pier, o Galpão Kobra exibe nas paredes externas a arte “Etnias” feita em grafite pelo artista Eduardo Kobra em 2016. A obra exibe cinco representantes de povos originários de diferentes etnias, cada uma vinda de um continente. Na manhã do primeiro dia de evento, o galpão sediou a conversa “Inovação Ancestral”, na qual o líder indígena e Imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), Ailton Krenak falou sobre a idéia de ancestralidade como a essência para a construção do futuro.

“Contar histórias é uma tecnologia humana que nós estamos perdendo. E ela está relacionada com o que nós chamamos de passado. Nós chegamos a um presente em que a ideia de ancestralidade transcende as narrativas étnicas, e alcança outras observações sobre os humanos.”, diz o escritor. “É a humanidade. Não é uma questão minoritária, não é uma questão identitária. É uma questão que diz respeito à nossa espécie. É o sapiens. O sapiens precisa ser capaz de contar histórias”
Futuro Ancestral, além de ser título de um dos livros de Krenak, também compõe o nome de um dos Fundos de Investimentos criado pela gestora financeira Jataí para apoiar populações indígenas brasileiras, com um direcionamento de recursos administrado por um conselho deliberativo formado por indígenas. Trata-se da mobilização de uma “tecnologia financeira” contemporânea, sendo utilizada para fomentar “tecnologias ancestrais”. O fundo Jataí Futuro Ancestral rompe com a lógica tradicional dos fundos de investimento ao incluir, em seu próprio regulamento, o compromisso de repassar a maior parte da sua taxa de administração para comunidades indígenas brasileiras, o que torna a proposta única no Brasil.

O sonho de Malala
Diante de uma multidão de espectadores que ouviam “Uma conversa com Malala”, entrevista mediada pela repórter e apresentadora da TV Globo, Lilian Ribeiro, a liderança paquistanesa se dirigiu às jovens mulheres da plateia para dar um conselho: “Mantenham seus sonhos muito irrealistas”.
A trajetória política e de vida de Malala Yousafzai, dão contexto à sua fala. Aos 15 anos, foi vítima de um atentado do Talibã por defender o direito das meninas à educação na região do Vale do Swat, no Paquistão. Depois do ataque, sua luta ganhou visibilidade e a transformou numa referência no movimento pela democratização da educação feminina. “Quero que vocês saibam que duvidar de si mesmas. Sentir-se sozinhas e isoladas ou simplesmente frustradas, como se nada estivesse avançando, são sentimentos normais que experimentamos quando temos grandes sonhos para um mundo melhor para todas as pessoas.”
Mas Malala também alerta que o caminho para mudar o mundo e construir um futuro melhor, exige antes um olhar sobre a realidade do momento presente. A luta feminina por direitos vem sofrendo retrocessos diante da ascensão do discurso conservador e misógino no cenário político global. Mesmo em meio a esse contexto desestimulante, Malala lembra que a luta por direitos não se encerra diante dos retrocessos e que a ação coletiva é o que mantém a esperança a longo prazo.
Compromisso para além do lucro
No segundo dia do evento, a palestra “Ética empresarial na prática: o compromisso que vai além do lucro”, foi mediada pelo Cofundador e Presidente do Instituto da Criança, Pedro Werneck. A conversa entre a advogada na Conexão Talento, Ana Carolina Bastos, o advogado da Machado Nunes, Daniel Marinho, e o diretor executivo do Instituto Cyrela, Aron Zylberman partiu de uma análise sobre como empresas podem assumir compromissos éticos com o objetivo de gerar impactos positivos que vão além de resultados financeiros.
Com a frase “o improvável não é impossível” estampada na camiseta cinza, Werneck resgatou em sua fala o termo “capitalismo consciente”, que critica as limitações do modelo tradicional de potencialização de lucro e busca estratégias mais responsáveis na geração de valores e impactos sociais. Esse conceito seria, na avaliação do mediador, uma alternativa que representa um avanço no pensamento econômico, por abandonar a lógica do “capitalismo selvagem”, conceito que marcou um período de exploração dos trabalhadores devido à falta de direitos trabalhistas antes da criação de leis de proteção ao trabalho.

Em entrevista à Saúva, Zylberman afirmou acreditar em um sistema capitalista que coloca o ser humano no centro das ações. Apesar de concordar com Werneck na idéia de que a sociedade caminha para um lugar melhor, questionou o otimismo do colega.
“Na sociedade brasileira, apesar de terem excelentes exemplos de empresas de fato preocupadas com a sociedade, ainda é muito pouco. Como é possível absorver, abraçar essas novas tecnologias tão disruptivas, sem ter no centro o respeito fundamental pelo ser humano. É isso que a gente não pode perder.”, comenta o empresário e professor. “Eu acredito que estamos caminhando para uma sociedade melhor, mas o gap entre a sociedade que nós temos e a sociedade que a gente gostaria de ter, está diminuindo muito devagar”
Da boca pra dentro
A varanda montada com vista privilegiada para a Baía de Guanabara, deu espaço ao palco Palavras e Encontros onde o cineasta e Presidente do instituto Terra, Juliano Salgado, mediou a conversa “Sistemas alimentares, mudança de hábitos e valores associados aos alimentos, intrínseco e concretos”. Ao seu lado, a culinarista e escritora Bela Gil e a CEO da Raízes do Campo, Carla Tatiane Guindani, levantaram debates sobre alimentação, agroecologia, e a crise climática.
A culinarista contou que no início da pandemia decidiu transformar o campo de futebol do sítio dos pais em uma agrofloresta. Essa decisão exigiu dela uma prática que, em pouco tempo, se transformou em prazer. Diante do público, buscou alguém que partilhasse essa afinidade, mas nenhum dos espectadores se manifestou quando ela perguntou por um agrofloresteiro(a) na plateia nem quando questionou se era um senso comum a relação entre a crise hídrica que ameaçou São Paulo em junho deste ano, e a cadeia de produção, consumo e descarte de alimentos.
Bela Gil voltou algumas casinhas no seu pensamento para explicar conceitos base e situar sua pauta para aquela plateia, que não mostrava tanta familiaridade com os temas que eram abordados. A culinarista falou sobre a relação entre o organismo humano e o organismo do ecossistema, aproximando os processos que acontecem dentro do corpo daqueles que orientam o funcionamento no ambiente externo.
“Somos miniaturas do cosmos. Não se esqueçam disso. Acho que essa talvez seja a mensagem para a gente entender que sustentabilidade não é algo muito distante. Talvez essa analogia possa fazer com que a gente se conecte e entenda que pensar em um meio ambiente saudável, próspero, generoso e com vida, vai ser importantíssimo para nossa permanência aqui na terra durante mais um tempo.”

A fala de Carla Guindani começou com uma imagem: as colheitadeiras de soja que avançam em formato de V pela lavoura, funcionam por meio de um molinete (carretel com hastes giratórias) que empurra as plantas em direção às navalhas, que as cortam rente ao solo e vão deixando a terra arrasada e seca para trás. Com o público devidamente ambientado, a empresária refletiu sobre como a falta de vida presente no processo de cultivo de monocultura acompanha toda a cadeia do alimento, até à mesa de quem o consome.
“A soja que foi colhida ali vai se transformar em commodity, ou vai se transformar em metanol, em combustível, em ração, que vai alimentar os bichos e que depois vai chegar na gente. Mas é tudo uma coisa morta, sem vida.”
Guindani, por sua vez, lembra que o acesso a alimentos de qualidade e a liberdade de escolha sobre o que consumir não são recursos que estão igualmente disponíveis para toda a população. “Como é que a gente vai falar pras pessoas que comer o ultraprocessado que está na bancada do supermercado é errado, quando a gente tem 80% da população que mal tem condições de ter acesso a esse ultraprocessado? A gente não pode individualizar os problemas. Isso é política pública, é tarefa de governo”, criticou a empreendedora, chamando atenção para a proximidade das eleições, época do ano em que escolhas individuais têm impactos coletivos.
Embora o Brasil tenha reduzido sua taxa de subnutrição, estabilizada abaixo de 2,5% da população, cerca de 25 milhões de pessoas vivem em áreas afetadas por “desertos alimentares”, onde há grande dificuldade de acesso local a frutas e vegetais frescos a preços acessíveis. A disparidade no acesso financeiro e geográfico obriga populações de menor renda a recorrerem aos alimentos ultraprocessados.
É nesse cenário que se insere a Raízes do Campo, marca de alimentos focada na produção agroecológica que busca conectar cooperativas da agricultura familiar ao consumidor final. Em 2020, a marca formou uma sociedade com a Jataí que rendeu à empresa IS – Investimentos Saudáveis, que investe em cooperativas de agricultores familiares e camponeses, ligados à reforma agrária. O objetivo é gerar capital de giro às cooperativas e fortalecer a produção, o beneficiamento e a comercialização de alimentos saudáveis dentro da perspectiva das ações do FINAPOP (modalidade de financiamento popular da agricultura familiar).
Seguindo a conversa, Juliano Salgado defendeu a importância de desenvolver um sonho em comum que sirva de combustível para repensar nosso sistema de valores. O cineasta refletiu sobre os conhecimentos que os povos originários guardam sobre como conviver com a floresta e explorá-la de forma sustentável. Na obra “Tempos do Equinócio: Oito Mil Anos de História na Amazônia Central” do arqueólogo brasileiro Eduardo Neves, o autor estima que até 10 milhões de pessoas viviam na Amazônia há 8 mil anos, com diferentes línguas, culturas e formas de interagir com o ambiente. Por meio da agroecologia, essas populações indígenas não apenas aproveitaram as características naturais da região como modificaram de forma sustentável o hábitat.
“Essa sociedade, que viveu isolada do resto do mundo, experimentou a agricultura e decidiu não seguir nessa direção.(…) Quando olhamos para essa sociedade desse passado, o interessante é perceber que ela não é uma sociedade utópica. Ela existiu durante dois mil anos aqui no Brasil em cima de valores que correspondem aos que são ainda hoje valores dos povos indígenas. Quando a gente observa os quilombos, a gente vê que a relação com a natureza e com a comunidade é muito similar. (…)” comenta Salgado. “Temos hoje a oportunidade de olhar para uma sociedade que construiu outro corpo de valores que correspondem aos nossos valores intrínsecos, aquilo que percorre entre nós todos, e que existiu no Brasil. (…) Então eu acho que a agroecologia, a transformação, essas novas alavancas que nós vamos estar operando para poder se salvar do colapso climático, são uma oportunidade para repensarmos tudo. Absolutamente tudo”
Para pensar sobre um problema sistêmico, que vai muito além das responsabilidades individuais, Bela defende soluções que considerem esse contexto multifatorial. Para propor essa reflexão, ela elegeu cinco acessos básicos considerados fundamentais para a democratização da alimentação: o acesso à informação, o acesso físico a alimentos saudáveis, o acesso financeiro, o acesso a ferramentas como água, gás, saneamento, utensílios de cozinha, que são imprescindíveis para fazer comida, e, por fim: o tempo. Sem ele, é impossível pensar em uma rotina alimentar que não escape a praticidade dos ultraprocessados. Esse recurso nos obriga a repensar nossa dinâmica social, ainda marcada pela individualização do trabalho doméstico, que continua a recair sobre a mulher. Entra também em pauta a sobrecarga da jornada de trabalho que, apesar de ter impulsionado o debate em torno do fim da escala 6×1 com um projeto de emenda à constituição, continua a tramitar no Senado desde maio deste ano.
O ambiente digital em disputa
Na tarde de quinta-feira, o palco 26 do armazém Kobra deu espaço à palestra “Encontros Urbanos: arte, tecnologia e territórios” que reuniu diferentes perspectivas para discutir como arte, cultura, inovação e inteligência coletiva podem contribuir para enfrentar desafios urbanos contemporâneos. A produtora e artista multilinguagem Ana Maria Bonjour mediou uma conversa entre a professora de arquitetura da UFRJ e artista, Iazana Guizzo, a professora e doutora em comunicação, também da Federal, Ivana Bentes Oliveira e a gestora da Muda outras Economias, Flavia Macedo. As soluções propostas por cada projeto apresentado, observam o ambiente digital como um território em disputa e trabalham com a tecnologia para ocupar esse espaço com propostas sustentáveis e coletivistas.
A professora Ivana Bentes apresentou o trabalho desenvolvido pelo Laboratório de Inovação Cidadã da UFRJ, o Labic, que coordena desde 2017 e chamou atenção para o sentido das palavras “inovação” e “tecnologia”:
“Eu me pergunto quais tecnologias aumentam a capacidade de recomposição da cidade? (…) Afinal, quem inova? Quem inova é a sociedade, nós somos os inovadores. Os povos indígenas e quilombolas são grupos inovadores. A tecnologia também precisa ser discutida. Uma festa é uma tecnologia, um mutirão é uma tecnologia. A gente tem que ressignificar esses dois conceitos, principalmente em um evento como o Rio Innovation Week, que tem uma linha dominante já muito pré programada.’’
Essa ideia se resume no conceito de “comunitarismo digital”, que busca contrapor a lógica puramente mercantil das gigantes de tecnologia ao promover espaços virtuais baseados em afetos, descentralização e colaboração em rede. O digital passa a ser visto como um ambiente de troca que pode assumir outras lógicas de funcionamento dependendo de como e por quem é ocupado.

Um exemplo dessa proposta é a Muda Outras Economias, uma das iniciativas fundadoras da rede Saúva Jataí e que recebe incentivo desde sua criação, em 2017. Estruturada como rede de fomento, a plataforma propõe ressignificar a idéia de valor em trocas monetárias.
No sistema financeiro tradicional, o valor atrelado à moeda se baseia, principalmente, na fé na estabilidade e força econômica do país que a emite. Na contramão dessa lógica, a Muda propõe uma moeda social digital, lastrada na confiança e na colaboração, com capacidade de gerar impacto real e engajar pessoas em ações concretas, com uso intuitivo da tecnologia blockchain. Baseados nas práticas e pensamentos das economias solidárias e circulares, a comunidade conjuga de forma interdisciplinar arte, educação, agroecologia e tecnologia e está ancorada na plataforma digital da Cambiatus. Apesar de fazer uso de recursos modernos criados para o ambiente digital, Flavia Macedo explica que a tecnologia da rede é, na verdade, ancestral.
“O nome Muda ‘Outras’ Economias, é justamente reconhecendo que o que a gente tá fazendo não é algo novo. Porque existe um movimento forte de falar em novas economias, mas aqui, reconhecemos que o que estamos fazendo por meio da moeda social, criando uma rede de fomento, não é algo novo. Essa tecnologia é antiga, ela é ancestral. O que estamos fazendo é um resgate”, pontua a gestora.
Novos normais
A programação do último dia de evento iniciou às 10:30h. Porém, desde a madrugada do dia anterior, o Centro de Operações do Rio disparou mensagens de alerta a moradores da capital fluminense devido à previsão de ventos fortes que atingiram o Estado. Às 13h, o Rio entrou no Estágio 3, o terceiro nível em uma escala de cinco, que indica que uma ou mais ocorrências já impactam a cidade, afetando a rotina de parte da população.
Diante dos alertas, a organização do Rio Innovation Week emitiu um comunicado pelo Instagram, informando que a programação seria mantida, mas que as medidas preventivas de segurança tinham sido reforçadas. O dia de encerramento pautou muitos temas ligados ao futuro e aos desafios enfrentados pelas novas gerações diante do colapso climático. As idéias de inovação que foram propostas ali, esbarraram involuntariamente no contexto atípico do dia, que com o passar do tempo vem se desenhando como um novo normal que exige a adaptação de todos.
Desde sua criação, em 2022, o Rio Innovation Week funciona como um ponto de encontro entre setores que nem sempre dialogam entre si. Nesta edição, o evento reforçou a ideia de que pensar o futuro exige aproximar essas diferentes perspectivas e reconhecer a responsabilidade que compartilham na sua construção. Nesse contexto, a capacidade de produzir novas tecnologias parece cada vez menos impressionante do que a escolha de como e para o que serão utilizadas. Em um mundo que prioriza a produtividade, a otimização, e o desenvolvimento a qualquer custo, o exercício de refletir sobre a ancestralidade, a esperança nas juventudes, a ética nas relações de trabalho, a democratização da alimentação e a disputa do ambiente digital são formas de escrever uma nova história sobre o nosso tempo. Mas, assim como observamos nos formigueiros e colméias, a construção do futuro não acontece de forma isolada. Ela depende da colaboração entre indivíduos que, de acordo com suas capacidades e com as necessidades do coletivo, encontram no presente as condições para construir o amanhã.
Matéria e fotos de Joana Stewart, estudante de jornalismo.
Joana esteve no RIW como repórter e escreveu esta matéria em colaboração com a rede Saúva Jataí.