No dia 3 de agosto de 2026, o Mutirão Agroflorestal completou 30 anos. A data marca o primeiro encontro de um grupo de estudantes que, em 1996, após contato com o agricultor-experimentador suíço Ernst Götsch decidiu, aprender fazendo, e fazer junto. “Quero trabalhar com isso!”, lembra Denise Amador, uma das integrantes do grupo desde o início, sobre o momento em que a agrofloresta deixou de ser teoria acadêmica e virou vocação coletiva.
Uma comunidade de aprendizagem
O movimento nasceu como uma escola sem professores fixos, ou melhor, com Ernst Götsch como referência e um grupo de jovens decidido a aprender entre si, na prática. Cresceu rápido. Em 1998, já reunia mutirões de cem pessoas, vindas de diversas universidades públicas . Não havia muitos movimentos sobre agrofloresta no Brasil naquela época, nem cursos, nem literatura consolidada. O grupo se tornou, segundo Denise, uma referência para o país.
Patrícia Vaz, hoje moradora de São Lourenço, em Minas Gerais, e uma das fundadoras do movimento, chegou à agrofloresta por um caminho paralelo. Trabalhava ha anos com sistemas agroflorestais, passou pela REBRAF (Rede Brasileira de Agrofloresta) e depois pela AS-PTA (Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa). No início dos anos 1990 participou de um seminário sobre agrofloresta e Mata Atlântica onde conheceu Ernst Götsch. “Eu me encantei com o arcabouço teórico”, conta. A ideia de que todos os seres vivos caminham na direção do aumento de vida no planeta se tornou, para ela, um princípio orientador que atravessa os 30 anos de trabalho.

De movimento à instituição
Nos primeiros anos, os mutirões eram quase mensais, gente se juntando de forma autogestionada em torno de um propósito comum. Em 2001, o grupo original começou a se dispersar geograficamente — pessoas terminando mestrados, mudando de cidade, seguindo a vida. A pergunta que restou foi como aproveitar o acúmulo de conhecimento e afeto construído até ali. A resposta veio em 2003: formalizar uma ONG que permitisse ao grupo continuar trabalhando junto, ainda que espalhado pelo Brasil.
Assim nasceram os núcleos: a Fazenda São Luíz, em São Joaquim da Barra (SP), sede histórica do movimento; Brasília; Mantiqueira (MG); e, mais recentemente, no Pará e no Rio de Janeiro. Cada núcleo toca seus próprios projetos e se reúne com os demais ao menos uma vez por ano, mas os mutirões seguem sendo, em todos eles, a ferramenta comum — tanto pedagógica quanto de manejo das áreas agroflorestais. Em Brasília, o núcleo trabalha hoje numa parceria com a Fiocruz em hortos agroflorestais biodinâmicos dentro de unidades básicas de saúde. No Pará, a atuação se volta a fortalecer redes de mulheres agroflorestais. Na Fazenda São Luíz, foram realizados muitos mutirões e atualmente são realizadas vivências pelo menos duas vezes por ano, além do trabalho constante junto aoAssentamento de reforma agrária vizinho, o Sepé Tiaraju, e a Rede Agroflorestal da região de Ribeirão Preto.

A cola que segura o grupo
Perguntada sobre o que fez o Mutirão Agroflorestal durar trinta anos, Denise resume num princípio: “A gente tem muito orgulho de ser muito horizontal. Não tem presidente, não tem hierarquia nas nossas relações. Nosso funcionamento se baseia na natureza onde todos os seres têm imensa importância, cada um realizando sua função” O grupo hoje conta com cerca de quinze pessoas ativas — os “efetivos”, na divisão que a própria organização usa para diferenciar de um círculo mais amplo de “afetivos”, que se aproximam e se afastam ao longo dos anos. Seis integrantes seguem desde a fundação em 1996.
Patrícia, uma dessas seis fundadoras, aprofunda essa reflexão a partir de um lugar mais filosófico. Para ela, o que sustenta o mutirão não é a lógica que costuma unir organizações convencionais. “Aqui é diferente. O sentimento que une é de confiança profunda, e isso é revolucionário: ter um sentimento de amor genuíno como cerne de uma organização.” Ela reconhece que o grupo está longe de ser perfeito — “tem defeitos, tem problemas que precisam ser superados” —, mas insiste que esse princípio de partida é o que torna possível imaginar uma sociedade que funcione de outro jeito.
Essa reflexão se conecta a algo que Patrícia vem estudando há décadas: o paralelo entre os princípios da agrofloresta sintrópica — em que a vida tende a se espalhar e a se multiplicar — e os princípios de uma economia. “Na sintropia, a energia se acumula para se expandir. Já na nossa economia capitalista, tudo acumula e fica concentrado em poucos, espalhando pobreza e exploração — das pessoas e do planeta.” A pergunta que ela carrega, sem resposta fechada, é como sustentar um sistema regenerativo dentro de uma economia estruturalmente degradante. “Dentro de uma economia entrópica, um sistema sintrópico e promotor de vida não cabe. Isso é caro — você tem o ônus de recuperar o que os outros degradaram.” A dúvida é o que ela levará à mesa de Economia que vai coordenar no Plante Rio, ao lado de Rodrigo Junqueira.

Os desafios de manter o coletivo
Se a horizontalidade é, para o grupo, uma conquista, ela também traz seus próprios impasses. Patrícia é direta ao falar da dificuldade de manter o coletivo coeso diante da dispersão geográfica dos núcleos: “Cada um quer ter seu próprio sítio, seu próprio jeito de fazer — o individual acaba ficando mais forte que o coletivo.” Ao mesmo tempo, ela reconhece que essa mesma autonomia pode ser parte do motivo pelo qual o grupo resistiu trinta anos sem se desgastar por completo. “Talvez se estivéssemos tudo muito junto, não tivesse durando tanto.”
Outro desafio, apontado por Denise, é geracional: o grupo fundador está hoje na casa dos 50 e 60 anos, e trazer sangue novo para oxigenar o movimento é uma necessidade constante — ainda que uma nova geração já tenha começado a chegar. Soma-se a isso o desafio permanente de captação de recursos: o Mutirão Agroflorestal nunca dependeu de projetos robustos nem teve muito capital de giro.

Uma boa colheita
Essa realidade mudou, em parte, a partir de 2022. Um pesquisador alemão que fazia doutorado na Holanda, Jonas Steinfeld, estudando graus de complexidade em sistemas agroflorestais — dos mais simples, com poucas espécies, até composições com oitenta espécies diferentes —, pesquisou a Fazenda São Luíz e se aproximou do grupo. Foi ele quem indicou o Mutirão Agroflorestal ao Mustard Seed, fundo europeu que, depois de uma série de conversas, decidiu apoiar a organização. Veio um primeiro aporte em 2022; em 2023, depois de o grupo mostrar o que havia feito com o valor inicial, o apoio foi renovado e ampliado. É desse recurso que vêm o documentário em produção — que deve ficar pronto entre outubro e novembro — e o livro, um formato de revista reunindo artigos e registros de conversas acumuladas ao longo dos anos. A própria presença do grupo no Plante Rio 2026 é viabilizada por esse fundo.
Já o apoio da Saúva-Jataí, que entrou na rede do Mutirão Agroflorestal em 2024, tem foco mais específico: um projeto junto ao Assentamento Sepé Tiaraju próximo a Ribeirão Preto, em parceria com a Embrapa, voltado a uma comunidade em situação de bastante vulnerabilidade. Para 2027, a ideia é que o assentamento comece a caminhar com mais autonomia, e que o apoio da Saúva se amplie para financiar a promoção de mutirões em outros territórios da rede — inclusive no Rio de Janeiro, onde Denise e João Portella vêm articulando o núcleo local.
Um dos traços que mais chama atenção no Mutirão Agroflorestal, segundo as próprias integrantes, é ser um coletivo majoritariamente feminino num campo historicamente machista. “Impressiona porque a área rural é um campo muito masculino, muito machista, de forma geral”, observa Denise. “Surpreende quando chega a mulherada, pega a motosserra, sobe na árvore.” O grupo já levou cursos e vivências a seis ou sete países diferentes ao longo de três décadas.

Celebrar, estudar, seguir
As comemorações dos 30 anos se espalham por diferentes momentos e territórios, como tudo no Mutirão Agroflorestal. Já houve um encontro interno na Fazenda São Luíz, que serviu de base para as gravações do documentário. No Rio, a celebração acontecerá dentro do Plante Rio, com exibição dos filmes “Mensageiros da Agrofloresta” e “20 anos do Mutirão Agroflorestal”, além do teaser do novo documentário, na noite de abertura do evento. Em novembro, Brasília recebe outra celebração dedicada especificamente aos 30 anos.
Para Patrícia, essa data redonda é também um convite à reflexão. “Não é só celebrar, é nos inspirarmos, mas também aprofundar e melhorar”, diz. “Porque isso é digno de ser estudado: como um grupo se organiza em torno de um sentimento assim, e como ele pode ser um caminho para melhorar essa espécie que somos.”
Quem quiser ouvir essa história de perto e ver o que trinta anos de mutirão constroem quando um grupo decide, antes de mais nada, fazer junto, encontra o Mutirão Agroflorestal nos dias 18 e 19 de setembro, na Fundição Progresso, dentro da programação do Plante Rio.

Saiba mais em https://mutiraoagroflorestal.org.br/