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Plante Rio celebra dez anos de plantios

Há dez anos, um grupo de jovens, agricultores e técnicos plantou uma agrofloresta na praça dos Arcos da Lapa. Era o primeiro Plante Rio, em 2016, e daquele gesto nasceria, três anos depois, o Jardim de Chuva que hoje existe dentro da Fundição Progresso. Oito edições depois, o Plante Rio acontece no centro cultural carioca em setembro, num ano de dupla celebração: os dez anos do Plante Rio e os 30 anos do Mutirão Agroflorestal, movimento que o originou e que este ano assina o tema “É tempo de mutirão”.

Uma história que nasce de outra história

Em 2016, a agroflorestora Denise Amador, parceira da Fundição Progresso, propôs comemorar ali os 20 anos do Mutirão Agroflorestal — coletivo iniciado em 1996 a partir de mutirões itinerantes que disseminavam pelo Brasil o conhecimento da agrofloresta a partir da inspiração nas ideias do agricultor suíço Ernst Götsch. A proposta encontrou um momento fértil: a Fundição vivia então uma efervescência ambiental puxada pelo Coletivo Organicidade, jovens que realizavam movimentos de agricultura urbana no espaço. Do encontro entre os dois grupos nasceu o primeiro Plante Rio, com curadoria do Mutirão Agroflorestal com rodas de conversa sobre temas diversos ligados à agrofloresta como: reforma agrária, restauração, educação, legislação ambiental, entre outros.

De lá para cá, o evento se tornou tradição — interrompida apenas pela pandemia, entre 2020 e 2022 — e, desde 2023, conta com o apoio institucional da Saúva-Jataí. A curadoria de hoje reúne Denise Amador e Izabel de Barros Stewart, da equipe Saúva, ao lado da produção da Fundição Progresso. Nesta edição, o time ganhou reforço: Ana Santos, do CEM (Centro de Educação da Serra da Misericórdia), entra para ampliar a diversidade de vozes e visões de mundo na programação, e Angélica, do Grupo de Teatro Anônimo — companhia residente da Fundição —, passa a representar os grupos artísticos da casa.

Dois dias, duas energias

A programação de 2026 mantém o formato consolidado nas últimas edições: uma sexta-feira mais concentrada, voltada a quem já caminha com a causa, e um sábado aberto para todos os públicos, da criança ao avô, como resume a organização.

Nesse ano, porém, uma mudança estrutural: pela primeira vez, todas as atividades ocupam um único piso da Fundição. Nas edições anteriores, a divisão entre dois andares acabava dispersando o público — enquanto uma roda de conversa acontecia embaixo, o segundo piso esvaziava. A concentração em um só espaço busca manter o fluxo de gente circulando entre feira, oficinas e debates ao longo do dia inteiro.

A programação começa, na verdade, antes da abertura oficial. No dia 12 de setembro, uma semana antes do evento principal, acontece uma oficina gratuita de Agrofloresta no  Jardim de Chuva da Fundição, o mesmo que foi plantado na edição de 2019. Na semana seguinte, dois mutirões de plantio itinerantes levam a rede a outros territórios: dia 16, no Escritório da Mata, no Ylê Axé Egi Omin, em Santa Teresa; dia 17, no CEM, na Serra da Misericórdia. No dia 7, o Plante Rio marcará presença na Parada 7, movimento de artistas que buscam promover uma visão crítica sobre a Independência do Brasil.

Sexta-feira: abertura, mística e memória

A sexta, dia 18, abre às 9h30 com a roda de conversa “Clima em pauta: comunicação, afeto e território contra o esgotamento das notícias”, mediada por Cristina Nogueira, da Fundição Progresso, com Dani Moura (FGV), Flávia Campuzano (Colabora) e Grasiela Cordeiro (Observatório de Favelas). Em paralelo, a oficina Nave Memória, com Rona e Efêmero, convida o público a um mergulho sensorial na memória do território.

Às onze horas será lançada a Carta Política da Agroecologia, articulada pela AARJ — documento que candidatos ao pleito eleitoral são convidados a assinar publicamente, formalizando compromissos com a pauta agroecológica. Segue-se o almoço agroecológico com o GT Mulheres da Serramar, e à tarde o teatro “Mistão” abre caminho para a grande roda de conversa do dia.

Às 16h, “Economia para um Planeta Vivo” ganha o palco com abertura de dança afro de Aline Valentim. A mediação é de Patrícia Vaz e Rodrigo Junqueira, fundadores do Mutirão Agroflorestal, com a participação de Laysa Rocha Soares (UFRJ), Leandro Almeida (Saúva-Jataí), Flavia Macedo (Muda), Guilherme Eufrasio Pinheiro (mestrando pela UFRJ) e Francisco Figueiredo (Índica).

O fim de tarde é marcado pelo café agroecológico com o coletivo Mulheres em Ação, do CEM. A noite fecha em celebração aos 30 anos do Mutirão Agroflorestal, com a exibição dos documentários “Mutirão Agroflorestal 20 anos” (2016) e “Mensageiros da Agrofloresta” (2012), seguida de bate-papo.

Sábado: feira, cuidado e ancestralidade

O sábado, dia 19, é o coração do Plante Rio: das 10h às 20h30, o dia inteiro é tomado pela Feira do Plante Rio, com produtos agroecológicos, livros e artesanato. Ao lado, a Mostra Socioambiental reúne, das 10h às 21h, diversas iniciativas e ações que vem sendo realizadas no estado. Seis exposições serão apresentadas: os 30 anos do Mutirão Agroflorestal; a instalação artístico-pedagógica “Arquipélago Educador e Agroecológico”, do CECSA — Centro de Educação e Cooperação Socioambiental do Rio de Janeiro; “Memória Climática”, da Rede Favelas Sustentáveis; “Maré é Mar”, da Ecoa Maré; “TransBordando a Amazônia Azul”, dos coletivos Fio às 5 em Pontos e Linhas da Gamboa; e a Residência Artística Ofá, de Rona Neves.

Estreia neste ano o Espaço de Cuidados, com gestão do GT Mulheres da AARJ, dedicado a práticas integrativas e trocas de saberes. Em paralelo, o Espaço Autogestionado propõe três encontros ao longo do dia: às 10h, “Formiga Verde: o papel das favelas na conservação das florestas urbanas e da resiliência climática nas comunidades”, com o Permalab; ao meio-dia, “Partilhas de experiências em educação agroecológica e ambiental nas escolas”, com Wagner Manoel Junior; às 14h, “Pronto-Socorro Verde: território de cura, trocas e aprendizados”, com Vera Fróes.

As oficinas se dividem em dois turnos. Pela manhã: “Meles Nativos”, sobre a biodiversidade das abelhas brasileiras, com Ana Luiza Bovoy; “Semeando Consciência no Corpo”, com Joana Carelli; “Infâncias na busca dos tesouros da Agricultura Urbana”, com a Escola Popular de Agroecologia do CEM; e “Plantando Histórias”, com a Intrépida Trupe. À tarde: “Mangará — Caminhos da Bananeira”, com a Jornada da Mata; “Compostagem em Espaços Urbanos”, com o Laboratório Terra Orgânica; “Habitar Água: ativando um corpo-bioma para habitar a terra”, com Iazana Guizzo; e “Acrobacia em Família”, com a Intrépida Trupe. Às 13h, a feira ganha um respiro à parte com a troca de sementes.

Duas rodas de conversa dão o tom político do dia. Às onze horas, “Mutirão é mão na máxima — teia de colaboração para o bem viver” abre com o Passinho Carioca e é mediada por Ana Santos, do CEM, reunindo Luiz Felipe Ribeiro (Coletivo BXD), Lunna Normande (Rede Negra Revolucionária), Juliana Coutinho de Brito (Visão Coop) e Roberta Simões Oliveira (Rede Carioca de Agricultura Urbana). O almoço agroecológico do dia é assinado pelo Grupo Mulheres em Ação (CEM) e pelo GT Mulheres da Serramar.

Às 15h, “Mutirão pelo Clima” abre com Mestre Célio e é mediada por Aline Matulja, com Marcelo Motta (PUC-Rio), Aline Marins (Coletivo Martha Trindade), William Cruz (Fórum de Cultura Popular da Baixada) e Helena Maltez, do Mutirão Agroflorestal.

O fim de tarde reúne a apresentação dos 30 anos do Mutirão Agroflorestal, seguida da apresentação das próprias exposições, com Ecoa Maré, Rede Favela Sustentável e Suelen Martins. Às 18h, a exibição de clipes traz “De Caule em Carne” (Solo da Cana), o clipe “Cambiar”, de Monica Besser, e o teaser do documentário sobre os 30 anos do Mutirão Agroflorestal, ainda em produção — trabalho que, segundo a organização, só deve ficar pronto entre outubro e novembro.

O dia se encerra em tom de ancestralidade: Daiara Tukano assina a fala “Mutyrõ — a importância da mobilização coletiva pelo futuro ancestral”, antes do Samba do Plante Rio, com participação de Rita Benedito, fechar a programação às 21h.

O Plante Rio segue sendo, dez anos depois, um convite aberto — para plantar, para trocar, para mobilizar, aprender, articular e  ocupar a Fundição Progresso em comunidade. Nos dias 18 e 19 de setembro, com entrada gratuita, o público carioca é chamado a viver de perto o que o Mutirão Agroflorestal pratica há trinta anos: que se aprende fazendo, e que se faz junto. E, no domingo seguinte, dia 20, a energia do encontro segue rua afora, na Marcha pelo Clima, no Leme.

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