Antes de tentar mudar, é preciso entender o que se é. Com essa premissa, a Rede Saúva Jataí conduziu em 2025 seu primeiro Censo de Diversidade e Representatividade – um levantamento inédito que mapeou quem são as pessoas que constroem a rede: suas identidades, origens, condições socioeconômicas e posições de liderança. O resultado foi uma fotografia detalhada de 40 iniciativas e 462 respondentes, numa taxa de adesão voluntária de 40% – número que, segundo os organizadores, já é, por si só, um sinal de saúde da rede.
Flávia Gribel, gestora da Saúva, conta que a ideia de fazer o Censo surgiu logo depois da sua participação no Congresso do PRI, principal conferência global de investimento responsável apoiada pela ONU, realizada em São Paulo no final de 2025. “O congresso conecta anualmente investidores institucionais e líderes financeiros para debater a integração de critérios ambientais, sociais e de governança nas suas decisões de investimento. Observamos que os critérios de diversidade estavam cada vez mais presentes, não só nos debates nas plenárias como também passou a fazer parte dos relatórios institucionais das empresas”, explica Flávia.
O raciocínio era simples: era preciso entender o cenário antes de tentar resolvê-lo, até para saber onde focar os esforços. “O objetivo central era ter um retrato da rede”, explica Samir Caetano, do núcleo de comunicação da Saúva Jataí, que liderou o processo de coleta e análise dos dados.
O formulário, 100% anônimo e estruturado com base nas metodologias do IBGE e em manuais da ONU, cobriu doze dimensões: de localização geográfica e faixa etária a raça, religião, deficiência e pertencimento a povos tradicionais. Das aproximadamente 1.128 pessoas em empregos diretos nas iniciativas da rede em 2025, 462 responderam espontaneamente. “Em geral, os censos que têm uma taxa de resposta de 20% já é considerada um grande sucesso. Chegar a 40% com participação voluntária mostra um alto grau de mobilização dentro da nossa rede”, diz Samir.
Os dados que surpreenderam
Entre os achados que mais chamaram atenção de Samir Caetano está o perfil de liderança racial da rede. “Achei que teríamos menos pessoas negras nas posições de liderança do que temos. Ainda é algo a ser trabalhado, mas foi uma surpresa boa encarar esses números de quase igualdade.”
Nos dados brutos, 50% dos responsáveis máximos pelas iniciativas são pessoas não brancas – proporção que, após correção estatística por peso relativo para eliminar distorções de tamanho entre organizações, se estabiliza em 42%. Já nas chamadas iniciativas coletivas – aquelas com modelo de gestão compartilhada, como a Equipe Saúva Jataí, INOV, Mato Dentro Mundo Afora, Muda Outras Economias e Teia da Terra -, esse número sobe para 70%, com 45% das lideranças ocupadas por pessoas pretas, mais do que o triplo do registrado em iniciativas de gestão individual.
“Pessoas não brancas em iniciativas coletivas representam 70% das lideranças. Isso nos dá a entender que a forma de gestão contribui diretamente para maior representatividade”, afirma Samir.
Outro dado de destaque é o da liderança feminina. Considerando todos os níveis hierárquicos, 71,21% das posições são ocupadas por pessoas que não se identificam como homens cisgêneros. Nos conselhos, após normalização dos dados, mulheres cisgêneras respondem por 85,92% das cadeiras de governança. E, ao contrário do recorte racial, essa presença feminina é uma constante independente do modelo de gestão — coletivo ou não, a proporção se mantém entre 63% e 65%.
No recorte racial geral, a rede apresenta uma divisão próxima do equilíbrio: 51,73% de pessoas brancas e 48,27% de pessoas não brancas — sendo 24,46% pardas e 21,65% pretas. No nível operacional, porém, a proporção se inverte com clareza: 62,39% das pessoas são não brancas, o maior índice entre todos os estratos da rede.
Perfil socioeconômico e diversidade de crenças
O censo revelou também um perfil de alta escolaridade: 83,12% dos respondentes têm ensino superior completo ou pós-graduação. A distribuição de renda, porém, é heterogênea — 22,07% vivem com até dois salários mínimos, enquanto 35,72% recebem acima de cinco salários mínimos. Geograficamente, a rede se concentra no Rio de Janeiro (51,73%) e em Minas Gerais (36,80%), com presença em mais seis estados.
Na dimensão religiosa, a diversidade é visível: 28,35% declararam não ter religião, 20,13% são católicos, e uma parcela significativa pratica religiões de matriz africana — 8,01% de umbanda e 4,98% de candomblé. Outros 14,29% se identificaram com crenças variadas, incluindo daimistas, budistas e indígenas.
Metodologia e próximos passos
Um dos desafios centrais do censo foi a interpretação dos dados. “O ponto de atenção foi justamente a forma de interpretar os resultados — trabalhar com pesos para não ter leituras dissonantes da realidade”, explica Samir. Foram aplicados três métodos analíticos complementares: cruzamento bruto, peso relativo (w = 1/n) e análise estratificada por modelo de gestão.
O censo se encerra como ponto de partida, não de chegada. “O No Coreto de junho é parte do processo. Abrir para a rede os resultados e discutir: e agora, o que fazemos com essas informações?”, diz Samir Caetano.
“Estava na hora de conhecer melhor quem somos e fortalecer nosso compromisso com equidade e inclusão. E ficamos bastante satisfeitos com os resultados”, declara Flávia.
O levantamento inaugura uma prática que a rede pretende consolidar: olhar para dentro com rigor, para poder avançar com mais consciência sobre onde estão os gargalos e como direcioná-los. Como diz o próprio documento que apresenta os dados, o censo foi concebido como um instrumento de conhecimento e aprendizado coletivo e, por ora, cumpriu sua primeira função.
Confira o censo completo: