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Dilemas da Vida

Na coluna do mês de maio, Isabela Borges, do projeto Beija-flor, compartilha a vida de quem acorda às 4h30 para equilibrar maternidade, casa e educação, e encontra, nas escolas, nos territórios e nos delicados momentos com os filhos, a convicção de que existem formas mais profundas de viver.

Acordar todos os dias cedo — e digo cedo mesmo. Às 4h30 o despertador toca e, antes do sol nascer, a casa já precisa estar funcionando. É organizar mochila, café, roupa, rotina e pensamentos. É preparar a família inteira para viver mais um dia. Existem dias bons, dias difíceis e dias que simplesmente passam. Mas, no meio de toda essa correria, existe algo que ainda me move: trabalhar com educação.

É nas escolas, nas comunidades tradicionais, nos territórios e na natureza que encontro um pouco de esperança em um mundo tão bagunçado. Trabalhar com pessoas, ouvir histórias, construir possibilidades e acompanhar processos me faz lembrar que ainda existem formas mais humanas de viver. Por algumas horas, parece que o mundo desacelera e respira diferente. É nesses momentos que sinto que estou no caminho certo. Não quero me perder na lógica de um mundo que exige produtividade sem fim, alimenta disputas silenciosas nos ambientes de trabalho, desvaloriza constantemente as pessoas e faz com que a gente sinta a necessidade de provar o próprio valor o tempo inteiro.

Mas a verdade é que dar conta de tudo pesa.

Sou mãe de dois filhos e não tenho rede de apoio. Somos eu, meus filhos, meu companheiro e o mundo. Existe a casa, o trabalho, os filhos, os imprevistos, as contas, o cansaço acumulado e as noites mal dormidas. Existe a preocupação em lembrar das consultas médicas, acompanhar febres, acolher emoções, resolver problemas e continuar funcionando mesmo quando, por dentro, tudo parece desabar. Porque ser mulher também é carregar sobrecargas silenciosas que quase ninguém vê.

Apesar de tantas discussões sobre igualdade, ainda recai sobre muitas mulheres a responsabilidade invisível de manter tudo em pé: a rotina da casa, os cuidados, a organização emocional da família e o esforço constante para não deixar nada faltar. E isso cansa.

A maternidade é intensa. É bonita, mas também atravessada por dúvidas, culpa e exaustão. Tenho certeza de que meus filhos são minha maior alegria e vieram para me transformar e me completar. Ainda assim, me questiono diariamente se estou conseguindo ser tudo o que eles precisam. Será que estou presente o suficiente? Será que eles conseguem sentir, no meio da correria, o tamanho do meu amor?

Talvez essa seja uma das maiores loucuras da vida adulta: nunca ter certeza de que estamos realmente no caminho certo.

Sempre existe alguém dizendo que deveríamos agir diferente. Trabalhar mais. Descansar mais. Ser mais firmes. Mais leves. Mais organizadas. Mais produtivas. E, no meio de tantas cobranças, às vezes eu mesma me perco nos meus próprios pensamentos. Não sei mais para onde ir. Cidade ou natureza? Trabalhar mais ou desacelerar? Persistir nos meus sonhos ou escolher uma vida mais simples? Permanecer ou recomeçar? Largar tudo e viajar pelo mundo ou continuar aqui?

Educar, brincar, limpar, ouvir, acolher, trabalhar, cozinhar, resolver conflitos, organizar a casa, cuidar das emoções dos filhos e ainda tentar cuidar de mim — tudo isso em um tempo curto demais. É muita coisa para carregar.

E o mundo ainda espera que a gente faça tudo com leveza. Quando tentamos agilizar o processo, falhamos, cansamos ou demonstramos vulnerabilidade, rapidamente surgem os rótulos: “ansiosa”, “sensível demais”. Como se sentir profundamente fosse um defeito.

Mesmo assim, sigo tentando me descobrir enquanto caminho. Tentando encontrar equilíbrio sem deixar de ser quem sou. Às vezes, me sinto como um prego fincado na areia, tentando permanecer firme enquanto tudo ao redor muda o tempo inteiro. E talvez seja exatamente isso a vida adulta: seguir mesmo sem certezas.

Mas, apesar do caos, ainda existe beleza.

Ela está no café da manhã demorado do fim de semana com meus filhos e meu companheiro. No fim da tarde em volta da fogueira. Nas conversas simples, nas risadas cansadas, no cheiro da mata, no sol entrando pela janela, nos momentos em família observando as estrelas, nos dias de praia ensolarados e no abraço apertado dos meus filhos depois de um dia difícil. São nesses pequenos momentos que o barulho das dúvidas diminui e eu consigo lembrar por que continuo.

E talvez também exista força em pertencer a lugares que nos acolhem e nos lembram por que seguimos. Estar em uma equipe como a Saúva, que acredita na educação, no cuidado, nas relações humanas e na construção coletiva, faz diferença nos dias difíceis. Porque, às vezes, tudo o que a gente precisa para continuar é sentir que não está caminhando sozinho.

Talvez a vida não seja sobre ter todas as respostas ou encontrar o caminho perfeito. Talvez seja apenas sobre continuar caminhando — mesmo cansada, confusa e com medo — sem perder a capacidade de sentir, amar e recomeçar todos os dias.

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