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Sinergias do campo à merenda: como quatro iniciativas da rede tecem uma cadeia alimentar viva

Matéria publicada dia 20 de Maio de 2026.

Toda terça-feira pela manhã, Daniel Novaes percorre o caminho entre Florestal e Belo Horizonte (MG) com o carro carregado de cestas. Dentro de cada uma: alface americana, almeirão roxo, mostarda roxa, berinjela, mandioca, mexerica, rúcula, cebolinha. Legumes, verduras, frutas e temperos que saíram diretamente da terra chegam na cantina do Instituto Ouro Verde / INOV. 

Daniel é um dos fundadores da CSAA Confraria da Horta, iniciativa de agricultura agroecológica sediada em Florestal, no interior de Minas Gerais, e fomentada pela Saúva. A relação com a escola INOV e com a Ujima – cantina gerida por Gislene Santos Lima que abastece estudantes, professores e a comunidade do entorno – vem de antes mesmo da Saúva existir como rede formalizada. “A sinergia vem de antes de sermos apoiados pela Saúva”, conta Daniel. Num evento chamado Manifesta Capital, que aconteceu no INOV, organizado por Walter Cavalcante e Izabel Stewart, a conhecida Gi (como Gislene é carinhosamente chamada) fez a primeira conexão de Daniel e Carol (casal responsável pela Confraria da Horta) com o que viria a ser a rede Saúva Jataí. O que potencializou o antigo desejo de Gislene de unir o plantio e a cozinha. A Ujima, antes nomeada como PRIMO (ONG Primatas da Montanha), tomou forma a partir desses alimentos que chegavam semanalmente vindos de Florestal.

O cardápio da Ujima que vai alimentar as crianças, adolescentes, pais e funcionários da escola não é escolhido por acaso. Gislene define o cardápio a partir do que chega. Não o contrário. “É confiar na vontade da natureza, do que ela tem para entregar. Dá para fazer bastante coisa, basta o cozinheiro querer.” Essa premissa – aparentemente simples, na prática bastante exigente – orienta toda a operação da Ujima. A cantina, que funciona dentro do INOV e está aberta também para quem estiver na região e quiser almoçar, prioriza insumos agroecológicos, de agricultura familiar, orgânicos sempre que possível. Cerca de 60% do que entra na cozinha vem de três parceiras da rede Saúva: a Confraria da Horta, a Teia da Terra e a Amanu. Os outros 40% são de produtores locais parceiros. Quando a quantidade de algum produto não fecha, Gislene recorre ao sacolão convencional, mas sempre respeitando a sazonalidade. “Não tá na época do brócolis, eu não vou comprar brócolis. Vou pensar no almeirão selvagem, que tem tanta vitamina, proteína e minerais quanto o brócolis.”

Com as crianças, a sazonalidade vira também pedagogia do sabor. “Às vezes a criança fala que não gosta de abóbora cozida, mas assada ela gosta, no bolinho ela gosta. A gente vai trabalhando as texturas.” O cardápio não é fechado, é construído junto com os desejos e limitações das crianças, as estações do ano, as comunidades quilombolas do Serro, os quintais de Florestal e os sítios de Jaboticatubas.

A Teia da Terra é uma associação sediada no Serro, Vale do Jequitinhonha, que há 5 anos organiza a compra e a logística de alimentos em três comunidades quilombolas: Ausente, Baú e Fazenda Santa Cruz. Toda semana, a Teia passa por uma das comunidades e compra 50 sacolas verdes: raízes, mandioca, mamão, banana, folhas, o que a época oferece. Cada sacola custa R$ 35. As sacolas chegam ao Centro de Referência em Assistência Social do Serro, de onde são distribuídas quinzenalmente para 100 famílias em situação de vulnerabilidade cadastradas no centro de referência. “Esse ano serão duas mil cestas de alimentos entregues”, explica Bruno Mallmann, da Teia da Terra. É exatamente aí que entra o apoio da Saúva: no financiamento dessa frente, garantindo que o alimento produzido nas comunidades quilombolas chegue a quem mais precisa.

Paralelo à sacola verde, a Teia desenvolve a venda de produtos não perecíveis – arroz, feijão, fubá, canjiquinha, rapadura – reunidos sob um selo único: Teia da Terra. São 30 agricultores participantes. O desafio atual é alinhar o padrão de qualidade entre eles para ampliar a comercialização. “A gente precisa manter um nível de qualidade do produto para poder vender para a Ujima, para outros clientes”, diz Bruno.

A Raízes do Campo, experiência de comercialização da Associação Amanu, também em Minas Gerais, nasceu no interior do processo educativo. Há 12 anos, dentro de turmas de EJA coordenadas pelo Instituto Paulo Freire em áreas rurais do município, emergiu a necessidade de criar caminhos de comercialização para famílias com produção agroecológica que não se enquadravam no CEASA – e que produziam muito, diversificado, sem acesso ao mercado. Arroz vermelho, fava branca, óleo de coco macaúba, três tipos de amendoim, paçoca de pilão, bolinho de feijão miúdo feito no pilão. Produtos tradicionais que as famílias mantinham, mas não conseguiam vender.

Daí surgiu a Feira Raízes do Campo, e depois o Armazém Raízes do Campo – hoje uma loja-entreposto que recebe e entrega cestas em Jaboticatubas, Santa Luzia, Belo Horizonte e Nova Lima (MG). O sistema funciona por ciclos semanais: a cada sexta o ciclo abre no site, fecha na segunda, e as cestas são montadas e entregues na quinta.

O aumento da demanda veio na pandemia – momento de maior preocupação de saúde individual e coletiva – Amanu passou de entregas quinzenais para semanais e, quando as feiras voltaram, manteve a frequência semanal. Mas o pós-pandemia trouxe queda nas compras: as pessoas voltaram ao supermercado, o home office acabou, as contas ficaram difíceis. “Se não fosse essa parceria com a Ujima, o armazém não tinha chegado até hoje”, afirma Daya Vellasco, da Amanu. A Ujima compra semanalmente com uma lista fixa, fora do site – uma logística que a Amanu desenvolveu especialmente para essa parceria e que passou a usar com outros clientes. A cantina funciona como um Grupo de Compra Aberto: os pais da escola que ficam sabendo encomendam também.

A parceria com as pessoas que plantam é muito cara à Ujima. A ecologia a partir do prato é uma premissa fundamental da iniciativa. “A gente tem que valorizar quem trabalha na contramão do sistema. Queremos que o dinheiro que entra na Ujima seja direcionado com negócios ecologicamente saudáveis para o ser humano e para o planeta”, revela Gislene. Quando a cantina compra 20 kg de frango caipira da Amanu, está escolhendo fortalecer um produtor que sente a diferença desse volume. Quando pega 10 kg semanais de queijo de uma agricultora, está garantindo que ela tenha demanda programada, algo que a feira, às vezes, não consegue oferecer com a mesma regularidade. “Para ela é muita coisa vender 10 kg semanais. Ela tem uma parceira que quer comprar dela sempre, então já tem programado para produzir, e aí os pais da escola que sabem que eu pego o queijo e o leite vão pegar com ela também.”

É uma rede de prosperidade, como a própria Gislene nomeia: “É desafiador, não é romântico, mas é um desafio que, para mim, faz muito sentido. Então eu não abro mão.” A comida tem essa materialidade: a semente que é plantada, a família que cuida, o tempo que faz crescer, as pessoas que unem, as mentes que criam, as mãos que cozinham, as bocas que comem. Tudo unido em um só corpo – existe aí certa magia. 

A associação Saúva entrou nesse processo não como criadora dessas relações, mas como catalisadora – financiando onde a lógica de mercado não chega, conectando onde a distância geográfica isola, tornando visível o que já estava acontecendo na prática.

A Teia da Terra quer levar jovens quilombolas para visitar a Confraria em Florestal. A Confraria quer entender como a Teia consegue distribuir alimentos para famílias vulneráveis. A Ujima quer conhecer o CEM, no Rio de Janeiro. A Amanu quer fazer dias de feira presencial com os Grupos de Compras Abertas para que consumidores e produtores se encontrem de frente. São desejos em rede e soluções que só podem ser firmadas quando acreditamos nesse poder de seguir juntos. “A Saúva tem chamado a gente para entrelaçar mais. Por mais que a distância seja grande, é uma intenção verdadeira de estar mais perto”, conta Bruno.

Justamente para fortalecer a potencialidade dessas trocas com a terra, na próxima semana, no dia 26, 27 e 30 de maio, a Saúva mobilizará um Encontro Regional em Minas Gerais entre as iniciativas que conseguirem estar presentes. Os encontros e trabalhos acontecerão na Associação Amanu (Jaboticatubas), no Instituto Ouro Verde (Nova Lima), na Confraria da Horta (Florestal) e vai contar com oficinas, mutirões, trocas e rodas de conversa. Em breve mais informações sobre a programação. 

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