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Do plantio ao prato: agroecologia, música e aprendizagem viva para crianças

Matéria publicada dia 06 de Março de 2026.

Como o alimento chega ao prato? Que caminhos ele percorre entre o solo, o cultivo e a mesa? E o que acontece quando esse percurso vira também uma experiência sensorial, musical e coletiva?

Essas são algumas das perguntas que orientam “Do plantio ao prato – passeando pela música”, um itinerário formativo que propõe aproximar crianças da agroecologia por meio de atividades práticas, lúdicas e artísticas. O projeto será realizado no Sítio Urutau – educação agroecológica e bioconstrução, espaço dedicado há mais de 17 anos à educação popular, à agroecologia, à economia solidária e às tecnologias sociais.

A iniciativa parte de três inquietações principais: a necessidade de ampliar a promoção da agroecologia e da bioconstrução, o potencial de trabalhar esses temas com crianças — consideradas um “terreno fértil” para novas aprendizagens — e a percepção de que o lúdico ainda é pouco explorado na educação formal. “É muito comum as pessoas interromperem e corrigirem a criança o tempo todo. E as correções, hoje eu percebo, são agressivas. Na minha formação era igual e eu nem percebia. Mas é uma forma muito dura de lidar com o processo de aprendizagem”, explica o educador Luiz Felipe Lopes Cunha, criador do itinerário.

A partir dessas questões nasceu a proposta de um percurso educativo que privilegia a experiência. Em vez de priorizar conceitos abstratos, os encontros partem da prática: plantar, colher, experimentar, escutar e criar.

“O desafio é ir mais para a prática do que para o conceito”, conta Luiz. Mestre em educação pela UFMG, filósofo de formação e agricultor agroecológico, ele conduz o projeto em parceria com a musicoterapeuta, cantora e educadora Laura Mansueta.

Aprender fazendo

O itinerário, fomentado pela Saúva em 2026, está organizado em oito encontros, realizados sempre às sextas-feiras, com duração de três horas cada. Ao longo desse percurso, os participantes passam por diferentes “estações do conhecimento”, nas quais agroecologia, cultura alimentar e música se entrelaçam.

Entre os temas trabalhados estão o manejo ecológico do solo, a preparação de canteiros, o plantio consorciado, o controle biológico de pragas e os ciclos de produção e consumo dos alimentos. As crianças também entram em contato com discussões sobre saúde e alimentação, explorando a classificação dos alimentos proposta pelo Guia Alimentar Brasileiro: in natura, minimamente processados, processados e ultraprocessados, além de ingredientes como sais e óleos.

Para além de compreender essas categorias, elas são convidadas a experimentá-las. Os diferentes alimentos são colocados sobre a mesa para que os participantes possam provar, comparar e conversar sobre sabores, origens e modos de preparo. O projeto será conduzido de forma complementar às matérias de Geografia e Ciências nas salas de aula das escolas. No entanto, Luiz propõe que no sítio as professoras se abram também para aprender: “a gente quer que elas sejam alunas também durante o processo aqui no campo”.

A experiência prática continua também no campo da música. Os encontros incluem exercícios de escuta sensorial, exploração dos sons da natureza, improvisação e criação musical. Materiais naturais — como sementes e elementos do ambiente — podem se transformar em instrumentos, estimulando a criatividade e a experimentação sonora.

Natureza como sala de aula

Todas as atividades acontecem em meio à paisagem do Sítio Urutau, localizado no bioma Cerrado e composto por diferentes ambientes, como áreas de roça e hortas agroecológicas, bananal agroflorestal e trechos de vegetação nativa. O espaço também abriga construções em terra crua e bambu, técnicas de bioconstrução que fazem parte do universo pedagógico do projeto.

A expectativa é que, até abril, o sítio conte também com uma cozinha de apoio, ampliando as possibilidades de atividades ligadas à cultura alimentar e ao preparo coletivo dos alimentos. Sobre o apoio da Saúva Jataí ao projeto, Luiz compartilha: “Trabalhar com vocês é uma realidade muito boa para poder executar isso”.

O itinerário busca promover experiências que integrem corpo, sensibilidade e reflexão. Ao plantar, colher, cozinhar e cantar, as crianças entram em contato com diferentes dimensões da alimentação: ambiental, cultural, social e afetiva.

Entrevista e edição: jornalista Luana de Abreu.

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