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A fome dói

Na primeira coluna de 2026, Simone Filomena, resistência negra, liderança do quilombo Mato Dentro e poeta, traduz em versos o que conheceu do sofrimento de seu falecido pai, o líder quilombola Narciso. Ela narra “eu via o que ele passava, o que ele sentia quando não tinha nada pra dar pra gente; e o que eu fiz foi escrever em forma de poesia essa dor”

Trabalhei o dia inteiro,
sem ter o que comer,
resisti até o fim
para meus filhos não morrer.

Chegou o fim da tarde,
recebi só um cruzeiro,
meu trabalho do chão ao teto
foi de peixeira a carpinteiro.

Quanto tinha o que comer,
numa lata carregava,
não tinha hora pro termino,
o trabalho escravizava.

Ao meio-dia hora marcada,
do sol quente minha comida azedava,
lágrimas caiam no rosto
ao suor se misturavam.

Crianças com muita fome
de longe me gritavam,
eu fazia o que podia
sofrimento aumentava

Eu trazia em meu ombro
saco de açúcar e fubá do moinho
lágrimas e farelos
se misturavam no caminho

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