Matéria publicada dia 11 de Fevereiro de 2026.
Em 2026, o Programa de Apoio à Formação de Educadores e Educadoras (PAFE) inicia um novo ciclo dentro da Rede Saúva Jataí, marcado por uma mudança importante em sua dinâmica e pelo fortalecimento das trocas entre iniciativas de diferentes territórios. Criado em 2013, em Paraty (RJ), o programa passa agora a integrar, em um mesmo espaço formativo, educadores e coletivos apoiados pela Rede em diferentes estados.
A principal novidade é a unificação dos encontros mensais, que antes aconteciam de forma separada entre Paraty e os demais projetos da Rede. A partir deste ano, todas as pessoas apoiadas pelo PAFE participam juntas das chamadas mesas de troca, realizadas de forma virtual. A mudança amplia o intercâmbio entre realidades diversas e aprofunda o sentido de rede.
“Pessoas da educação têm necessidade de formação”, afirma a coordenadora do PAFE, Fabíola Guadix. “Essa é uma constante. Às vezes não é uma formação acadêmica, mas cursos, estudos e práticas que ajudam a sustentar o trabalho cotidiano nos territórios.”
Iniciativas da Rede Saúva Jataí em formação conjunta
Atualmente, o PAFE apoia 31 formações: 11 graduações, 6 pós-graduações, 6 formações Waldorf, 5 coletivas, 3 formações práticas. Entre elas, algumas são parte da Rede Saúva Jataí, como o Instituto Ouro Verde (Nova Lima / MG), a Associação Amanu (Jaboticatubas / MG), o Educar + (Complexo do Chapadão, Rio de Janeiro), o Colo da Montanha (Teresópolis / RJ), o CEM (Serra da Misericórdia, Rio de Janeiro), Educação Transformadora Beija Flor, Escola Waldorf Quintal Mágico, Escola Comunitária Cirandas (essas três em Paraty / RJ), além de outros educadores e educadoras também do município Paraty (RJ).
As formações são definidas a partir das demandas apresentadas pelas próprias pessoas e coletivos apoiados, que escolhem os temas, os formatos e, no caso das formações coletivas, os facilitadores convidados. O apoio financeiro da Saúva cobre total ou parcialmente os custos, considerando a realidade de cada iniciativa.
“Não dá para comparar contextos tão diferentes. A avaliação é caso a caso”, explica Fabíola. “A Saúva cobre os apoios, e quando é possível, algumas pessoas complementam o valor. Mas o critério principal é garantir que a formação aconteça.”
Ações socioeducativas e impacto nos territórios
Como contrapartida ao apoio recebido, todas as pessoas participantes do PAFE realizam ações socioeducativas em seus próprios territórios, principalmente em escolas públicas, associações e projetos comunitários. Oficinas de arte, cerâmica, canto, dança, agroecologia, circo, contação de histórias, práticas pedagógicas e atividades culturais fazem parte desse conjunto diverso de ações.
Em 2025, essas iniciativas impactaram mais de mil pessoas, entre crianças, adolescentes e comunidades locais. As ações acontecem em diferentes cidades e contextos, multiplicando o alcance do programa muito além do grupo diretamente apoiado.
“Percebi uma alegria e bem estar nas crianças. O fato de estarem sendo acolhidas e realizarem uma vivência corporal diferente do que fazem no dia a dia e que traz calma, alonga o corpo, harmonia, aumentou minha percepção como gestos que parecem pequenos, mas feitos com amor são de grande valia e fazem muito sentido para a vida.”, conta Thiago Fonseca, que ofertou três encontros de alongamentos e meditação na Escola Municipal Harold Jones, em Nova Lima (MG).

Em muitos casos, as atividades contribuem para fortalecer o vínculo das crianças com seus próprios territórios, garantindo o direito à educação contextualizada, conectada às culturas locais.
Igor foi professor de escultura de cerâmica no Organo Atelier, também em Nova Lima, e relata: “A mais importante questão desse trabalho para mim foi ter gerado engajamento da comunidade. Trazer uma ação artística para circular fora do ambiente das galerias tem sido uma experiência nova para mim e para os moradores do bairro também.”.

Letramento racial como eixo estruturante
Nos últimos anos, o PAFE incorporou o letramento racial como um eixo transversal das mesas de troca. O tema vem sendo aprofundado de forma gradual, passando por estudos conceituais, materiais pedagógicos, propostas práticas e o resgate de histórias e personalidades negras pouco conhecidas.
Em 2026, a proposta é ampliar ainda mais essa abordagem do letramento racial, estimulando que as próprias iniciativas compartilhem experiências e metodologias já aplicadas em seus contextos. A troca com projetos como o EducAR Mais, que atua em territórios majoritariamente negros e acumula uma forte experiência prática, tem sido central nesse processo.

“Educação antirracista, na prática: identidade, linguagem e representatividade negra” na Sede do Educar+ (Complexo do Chapadão, na cidade do Rio de Janeiro) e praça pública do território
Trocas para além do Coreto
Embora os encontros mensais No Coreto e o encontro presencial da Rede Saúva Jataí sigam sendo um momento importante de convivência entre as iniciativas, as conexões estimuladas pelo PAFE vem criando outras possibilidades de conexão ao longo do ano. “Muitas vezes a gente se encontra presencialmente, mas não consegue trocar com calma. As mesas mensais ajudam a criar vínculos mais profundos.”, diz Fabíola.
A expectativa para este novo ciclo é positiva. “As pessoas estão animadas para colocar as coisas em prática”, afirma a coordenadora. “Essa junção dos grupos deixa a formação mais rica, mais diversa e mais conectada com a realidade dos territórios.”
“Foi muito gratificante sentir a potência pedagógica das habilidades e conhecimentos que possuo. Percebo claramente que o que tenho de sobra pode ajudar as escolas em algumas dificuldades, ou até impossibilidades, que elas têm para oferecer uma formação mais ampla e diversificada aos educandos. O contato com a natureza, com os fazeres ancestrais, seja da construção, da agricultura, da culinária, o momento da pausa para brincar e aprender, passear e aprender, comer e aprender, enfim, estar na natureza sendo os seres curiosos que somos fez muito bem para todas as pessoas que se envolveram nas atividades.”, conta Luiz Felipe Lopes Cunha, após realizar Ação Socioeducativa de celebração do mês da consciência negra na Associação Amanu.
Ao fortalecer a formação de educadores e educadoras e ampliar o impacto das ações socioeducativas, o PAFE segue reafirmando seu papel dentro da Rede Saúva Jataí: apoiar processos formativos que geram transformação concreta, coletiva e enraizada nos territórios.
Entrevista e redação: Luana de Abreu.